É só querer?


#PraCegoVer: [Fotografia]: À esquerda, um céu aberto azul com poucas nuvens brancas. À direita, a parte superior de um moinho em tons de bege e um menino negro se segurando na estrutura, construída com árvores, e olhando para baixo. Fonte: https://revistatrip.uol.com.br/upload/2020/01/5e3075e675695/trip-menino-descobriu-vento-materia3.jpg


No início dos anos 2000, a combinação de inundações e um terrível período de seca posterior a elas deu origem a uma crise alimentícia em países africanos, especialmente no Malawi, onde cerca de 300 pessoas morreram de fome [1]. É nesse contexto que se passa a história da família de William Kamkwamba, contada no filme O menino que descobriu o vento (Chiwetel Ejiofor, 2019, Netflix).


Moradores de uma vila no Malawi, a família e os vizinhos de William tinham como sustento o plantio de grãos. Preocupados em investir no futuro dos filhos, seus pais o enviaram para a escola, mas, com a seca e, consequentemente, sem sua principal fonte de renda, tiveram de tirá-lo. Entretanto, William, que sempre fora curioso, continuou frequentando ilegalmente a biblioteca da escola, até encontrar um livro chamado “Usando a Energia”. Ali, ele leu sobre a tecnologia do moinho que, gerando energia eólica, poderia, com o uso de uma bateria, bombear água e distribuí-la através de toda a plantação. Seu objetivo passa a ser construí-lo, o que faz com a ajuda do livro, baterias de ferro velho e uma bicicleta. Assim, a vila pode voltar a plantar, mesmo sem chuva. A história é baseada na vida do verdadeiro William Kamkwamba, que, após salvar sua vila da fome aos 14 anos, ganhou uma bolsa de estudos em uma escola da capital de Malawi, na African Leadership Academy e no Dartmouth College (EUA).


A trajetória de Kamkwamba é um retrato da dificuldade da obtenção e produção de conhecimento longe dos grandes centros. Ele foi muito bem sucedido em salvar sua comunidade, mas, a fim de continuar seus estudos, teve que migrar, primeiro para a capital do país e, posteriormente, para outro continente – situação muito comum no Sul Global. Tomemos o Brasil como exemplo. De 2011 a 2018, houve um aumento de 184% no número de pessoas que saíram do país para dar continuidade aos seus estudos [2]. Esse número se refere a pessoas em busca de mestrado ou doutorado e o motivo principal é a falta de estrutura, investimento e valorização da pesquisa no Brasil [3]. Quando olhamos para os números de alunos que estão entrando na graduação, 10% migram para outro estado para poder cursar faculdade [4]. Esse número, em 2010, era de 25%: muitos deixam de ir devido ao alto custo de moradia associado a um auxílio baixíssimo dado pelo governo; tantos outros sequer chegam a cursar o ensino superior, pois não podem pagar e não foram aprovados em uma instituição pública [5]. Nos ensinos médio e fundamental, não faltam relatos de alunos que precisam ir à outra cidade para estudar ou andar 10 km todos os dias por não terem acesso ao transporte público [6]. A realidade é que, devido à falta de políticas públicas para todas as etapas da educação em nosso país, a combinação entre distância e baixa renda é impeditiva à educação de boa parte das pessoas.


Como alternativa a essa situação, têm crescido o número de cursinhos populares, casas de cultura periféricas, saraus e outros modelos informais de ensino. Muitas vezes organizados pelos poucos moradores daquela comunidade que chegaram ao ensino superior, cursinhos como a Rede Emancipa e o FASE têm papel fundamental na aprovação dos jovens. Alternativas virtuais, como o Univirr, em Roraima, também existem. Os centros de promoção cultural de papel formativo, como o CAPSArtes e o Pagode da 27, no Grajaú (SP), promovem debates e organizam bibliotecas comunitárias [7].


William Kamkwamba é um desses jovens que conseguiram seguir o curso formal da educação e voltaram para sua comunidade a fim de ajudá-la de maneiras informais. Na vila, ele instalou painéis solares para que os alunos pudessem ter computadores e projetores, patrocinou um time de futebol e quer criar um centro de inovação para que as pessoas tenham a oportunidade de desenvolver seus próprios projetos de modo que histórias como a sua não sejam só exceção. Kamkwamba tem uma inspiradora trajetória que, distanciando-se muito de um discurso meritocrático, mostra que o que faltam são oportunidades e, que, a despeito da falta de ajuda do governo, elas estão sendo proporcionadas por aqueles que, depois de irem, voltam e as constroem para a próxima geração. Em suas palavras: “Talento é universal, mas oportunidade ainda não é” [8].


Julia Salazar

Graduanda em Letras (FFLCH) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020-2021.


#OMeninoQueDescobriuOVento #AcessoÀEducação #Educação #CentroPeriferia #Migração


Referências bibliográficas

[1] Pelo menos 2,6 milhões de pessoas passam fome na África austral. Uol Notícias, 2002. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/inter/afp/2002/03/26/ult34u37955.jhtm> Acesso em: 26/09/2020.


[2] SILVEIRA, Everaldo da. Fuga de cérebros: os doutores que preferiram deixar o Brasil para continuar pesquisas em outro país. BBC News Brasil, 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-51110626> Acesso em: 26/09/2020.


[3] GARCIA, Janaina. Cientistas em fuga: Forçados a deixar o país por oportunidades, eles refletem sobre a carreira no exterior e o futuro do Brasil. Ecoa, 2020. Disponível em: <https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/cientistas-que-deixaram-o-pais-refletem-sobre-a-carreira-no-exterior-e-o-futuro-do-brasil/#cover> Acesso em: 26/09/2020.


[4] PALHARES, Isabela. Nas faculdades federais, só 10% optam por estudar fora do Estado de origem. Folha de SP, 2018. Disponível em: <https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,nas-faculdades-federais-so-10-optam-por-estudar-fora-do-estado-de-origem,70002546170> Acesso em: 26/09/2020.


[5] Pesquisa: maior parte dos alunos não ingressa na universidade por falta de dinheiro. O Globo, 2017. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/pesquisa-maior-parte-dos-alunos-nao-ingressa-na-universidade-por-falta-de-dinheiro-21249468> Acesso em: 26/09/2020.


[6] Crianças caminham 11,6 km para ir à escola em novo bairro de São Carlos. G1, 2016. Disponível em: http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2016/05/criancas-caminham-116-km-para-ir-escola-em-novo-bairro-de-sao-carlos.html Acesso em: 26/09/2020.


[7] SOUZA, Gabriel. Cursinhos populares são aliados para estudantes das periferias. Portal Aprendiz UOL, 2019. Disponível em: <https://portal.aprendiz.uol.com.br/2019/05/09/cursinhos-populares-sao-aliados-para-estudantes-das-periferias/> Acesso em: 26/09/2020.


[8] CARNEVALLI, Érica. Ele construiu um moinho a partir do lixo para levar energia e água para sua vila na África: William Kamkwamba conta como aprendeu sozinho, por meio de livros, a criar um sistema elétrico que mudou a sua comunidade. Época, 2019. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Vida/noticia/2019/11/ele-construiu-um-moinho-partir-do-lixo-para-levar-energia-e-agua-para-sua-vila-na-africa.html> Acesso em: 26/09/2020.



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