A indústria alimentícia como obstáculo da preservação ambiental



#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: No centro da imagem, Tilda Swinton, que interpreta a personagem Lucy Mirando, está olhando diretamente para a câmera. Uma mão à esquerda, perto do seu rosto, está indo maquiá-la, enquanto uma mulher atrás, à direita, ajeita seu cabelo. Fonte: https://www.comunidadeculturaearte.com/tilda-swinton-a-netflix-foi-o-unico-estudio-que-aprovou-o-projeto-okja/#.


Durante muito tempo, a indústria de peças, os meios de transporte por combustíveis fósseis e a produção de energia foram classificados como os maiores problemas para o aumento de gases do efeito estufa. Entretanto, a pecuária possui um impacto enorme na ocorrência das mudanças climáticas. Além das substâncias liberadas pelo gado, deve-se destacar as queimadas e os desmatamentos. Estes mecanismos têm a intenção de fazer novos espaços campos para criação dos animais, ou para a plantação de seus alimentos. Somado a essa questão, entra o debate ético proposto por movimentos veganos acerca das condições que estes animais são criados, além de indagar se seria necessário matá-los para poder consumir mais carne, pois existem alimentos alternativos suficientes para garantir nossa alimentação. Estreado em 2017, Okja, filme dirigido pelo cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, está inserido neste debate. O longa inicia com Lucy Mirando (Tilda Swinton) revelando uma nova descoberta, uma espécie de superporco para ajudar a enfrentar a fome mundial. Filhotes de superporco são dados a fazendeiros por todo o mundo e o melhor seria premiado e apresentado ao público em um grande evento, que se daria dez anos depois de suas doações. É nesse momento que conhecemos a protagonista Mija (An Seo Hyun) e sua superporca e amiga, que se chama Okja, estas convivem juntas desde pequenas. Passados os dez anos, Okja ganha a competição e agora deve ser levada para Nova Iorque. Mija não consegue impedir, partindo de sua casa para tentar recuperar Okja da empresa e da futura morte. É durante este caminho que a garota encontra a Frente pela Libertação Animal, que a ajuda no resgate. Um dos objetivos torna-se evidenciar mundialmente as barbaridades cometidas pela empresa Mirando, esta que pode facilmente representar parte da indústria alimentícia que abate animais para o consumo humano.


#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: À esquerda, temos a personagem Mija, interpretada por Seo-Hyun Ahn, tocando com a mão direita o rosto de Okja, à direita. As duas estão com os rostos próximos e a imagem amplia o olho da superporca, que parece observar Mija. Fonte: https://veja.abril.com.br/blog/isabela-boscov/okja/

Bong Joon-ho preocupa-se em demonstrar de maneira real como seria o abatedouro dos superporcos. As cenas finais conseguem recriar bem um cenário onde o gado fica concentrado, além disso, o filme apresenta realisticamente a crueldade pelas quais passam os animais. O longa, portanto, vai se transformando em uma narrativa que busca questionar as estruturas que orientam nosso consumo de alimentos no cotidiano. Quando vamos ao mercado, dificilmente temos a real dimensão do processo pelo qual originou aquela carne que queremos comprar. Esta distância nos afasta da preocupação de como está sendo o processo de criação destes animais de abate, além dos outros danos ecológicos envolvidos.

Alguns estudos têm demonstrado como a pecuária e sua indústria estão sendo responsáveis por emitir ao menos 32 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, chegando a atingir 51% de todas as emissões de gases de efeito estufa em todo o mundo. Estima-se, ainda, que a pecuária também é responsável por 65% de todas as emissões humanas relacionadas com o óxido nitroso, este que é outro gás que contribui enormemente para o efeito estufa, cerca de 296 vezes mais o potencial de aquecimento global representado pelo dióxido de carbono, permanecendo na atmosfera por cerca de 150 anos.[1] Ao assistir Okja, além de se dar conta da importância de construir uma alternativa mais ecológica aos nossos modelos de produção, como promover políticas públicas que facilitem ainda mais o acesso a nossa variedade de alimentos vegetais que podem substituir o consumo da proteína de origem animal, também entendemos a necessidade do nosso atual momento histórico, que pede uma ação rápida ao sofrimento animal e o grande impacto no meio ambiente exercido pela pecuária, como Leonardo Boff ressalta que "a situação atual se encontra, social e ecologicamente, tão degradada que a continuidade da forma de habitar a Terra, de produzir, de distribuir e de consumir, desenvolvida nos últimos séculos, não nos oferece condições de salvar a nossa civilização e, talvez até, a própria espécie humana; daí que imperiosamente se impõe um novo começo, com novos conceitos, novas visões e novos sonhos, não excluídos os instrumentos científicos e técnicos indispensáveis; trata-se sem mais nem menos, de refundar o pacto social entre os humanos e o pacto natural com a natureza e a Mãe Terra."[2]


Rafael Bento

Graduando em Ciências Sociais (FFLCH) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2019-2020.


#Okja #MudançasClimáticas #Veganismo #Pecuária #AquecimentoGlobal


Referências bibliográficas

[1] CHIAPETA, Marina. Muito além da exploração animal: criação de gado promove consumo de recursos naturais e danos ambientais em escala estratosférica. Disponível em: https://www.ecycle.com.br/component/content/article/63-meio-ambiente/3908-muito-alem-da-exploracao-animal-criacao-gado-promove-gastos-recursos-naturais-danos-ambientais-em-escala-estratosferica-emissoes-gases-uso-agua-terra-alimento-desmatamento-pastagem-residuos-contaminacao-exploracao-excessiva-fome-pesticidas-pegada.html/ Acesso em: 26 de agosto de 2020.

[2] BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é – o que não é. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

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