• Raiane Forti

As velhas-novas políticas agrícolas

Atualizado: 21 de Nov de 2019


#PraCegoVer: [Charge] Imagem dividida ao meio. À esquerda há um homem de máscara e luvas de borracha que rega plantas através de seu equipamento pulverizador, cuja superfície mostra um símbolo de caveira. À direita, o mesmo homem, junto à sua cesta, colhe caveiras vermelhas das plantas. Fonte: <http://www.solam.com.br/blog/?p=5159>. Acesso em 15/08/2019.

A (des)produção alimentar


“Governo aprova registro de mais 51 agrotóxicos, totalizando 262 no ano” [1]. No dia 22 de julho de 2019, grande parte dos jornais brasileiros veiculou manchetes parecidas com essa entre os meios de comunicação, as quais assustaram a população em geral. Não é todo dia que se aprova mais 51 tipos de veneno em sua alimentação.


O assunto é muito bem trabalhado nos documentários O Veneno Está na Mesa I (2011) e O Veneno Está na Mesa II (2014), ambos de Silvio Tendler. Esses mostram a intensificação da produção agrícola no Brasil devido ao crescimento da exportação desses produtos motivado principalmente pelo mercado internacional [2], às respectivas consequências ambientais e sociais ocasionadas e os novos métodos de cultivo sem a utilização de produtos químicos, que surgiram mais recentemente.


Em âmbito natural, o documentário aborda os danos trazidos ao meio ambiente em razão do uso dos agrotóxicos. O agricultor Fernando Ataliba relata que após 50 anos deste consumo nas lavouras, justificado como sendo um defensivo agrícola que controla pragas e aumenta a produção dos alimentos, a natureza foi progressivamente devastada: houve desde a perda de mananciais, da diversidade biótica e da fertilidade do solo, até a contaminação agressiva do solo e da água.


O solo, como elemento vivo, finito na escala do homem e um dos principais influenciadores na agricultura, é um dos mais atingidos com essa intensificação. O ato acontece devido ao uso intensivo da terra e à contaminação por produtos químicos, o que ocasiona a perda de nutrientes e o sua consequente morte. O solo, produto da ação de cinco fatores naturais (material de origem, relevo, clima, organismos e tempo), demora em média 400 anos para se produzir 1 cm [3]. Em contrapartida, pode ser destruído em menos de 40 anos, a partir das práticas relatadas no documentário. O cultivo com agrotóxicos começou a se espalhar pelo mundo na década de 1980, contribuindo, desde então, apenas para a dinâmica dos agentes econômicos no mercado internacional em face da destruição ambiental e doenças sociais que se acentuaram.


Desde 2008, o Brasil disputa com os Estados Unidos o topo dos maiores consumidores de agrotóxico do mundo. Em 2010, cerca de 92% desses produtos eram controlados por empresas internacionais vindas de diversos países como a Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Holanda e Israel [4]. Segundo a geógrafa e professora da USP Larissa Mies Bombardi, na série produzida por Bob Fernandes e disponibilizado no Youtube [5], o Brasil aprovava em média o uso de 136 agrotóxicos por ano (entre 2008 e 2015). Entre 2016, 2017 e 2018, foram utilizados em média 450 novos tipos de agrotóxicos. Até julho de 2019, já foram aprovados 262 tipos. Dos liberados nas últimas semanas do mês de junho, 33% são classificados pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), no nível 1, o que indica ser muito tóxicos para a saúde humana. Segundo o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), 52% dos mesmos são nível 2, ou seja, são muito perigosos para o meio ambiente.


Apesar da expansão da comercialização desses agrotóxicos por fatores econômicos, de modo que seu uso se torne lucrativamente rentável ao produtor, algumas pessoas ainda buscam métodos ecologicamente sustentáveis para a produção de seus alimentos. O documentário francês Demain (2015) dirigido por Cyril Dion e Mélanie Laurent, dá a volta ao mundo mostrando projetos, desde agricultura urbana à agroecologia no campo, que visam cuidar do meio ambiente de maneira a preservá-lo. O “demain” (amanhã, em português) precisa ser responsável, preservativo e saudável para a natureza e consequentemente para a vida humana.


Raiane Forti

Graduanda em Geografia (USP) e Bolsista do Projeto CineGRI


Nota

[1] <https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/07/22/governo-aprova-registro-de-mais-51-agrotoxicos-totalizando-262-no-ano.ghtml>, acesso em 05/08/2019, as 19:44.

[2] BOMBARDI, Larissa Mies. A intoxicação por agrotóxicos no Brasil e a violação dos direitos humanos. Direitos humano no Brasil 2011: Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanas. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

[3] <https://solonaescola.blogspot.com/2011/11/fatores-de-formacao-do-solo-5.html>, acesso em 06/08/2019, as 08:43.

[4] BOMBARDI, Larissa Mies. A intoxicação por agrotóxicos no Brasil e a violação dos direitos humanos. Direitos humano no Brasil 2011: Relatório da Rede Social de Justiça e Direitos Humanas. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

[5] <https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=qxfmrdUoQZA> Acesso em: 06/08/2019, as 09:04.


Referência filmes:

O veneno está na mesa: https://www.youtube.com/watch?time_continue=591&v=8RVAgD44AGg

O veneno está na mesa 2:

https://www.youtube.com/watch?v=fyvoKljtvG4

Amanhã:

https://vimeo.com/251289725

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