“Bela Vingança” e a cultura do estupro


#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Mulher loira deitada em uma cama olhando diretamente para a câmera, veste uma camisa desabotoada e um blazer preto, é possível ver seu sutiã.

Fonte: https://www.minhavisaodocinema.com.br/2021/03/critica-bela-vinganca-2020-de-emerald.html


Em fevereiro de 2012, cinco mulheres foram estupradas por dez homens na Paraíba [1].

Em maio de 2015, quatro adolescentes foram estupradas por cinco homens [2].

Em maio de 2016, uma jovem de dezesseis anos foi estuprada por trinta e três homens no Rio de Janeiro [3]

Em dezembro de 2018, Mariana Ferrer foi estuprada por um homem em Santa Catarina [4].


Com frequência, noticiários brasileiros divulgam estupros contra mulheres e adolescentes, relatam a crueldade dos agressores e a recorrente impunidade dos crimes. Essa realidade pode gerar um sentimento de revolta e desejo por vingança. Cassie (Carrey Mulligan) em “Bela Vingança” (2020, Emerald Fennell) é a personalização desse sentimento.


Cassie era amiga de Nina, uma universitária que foi estuprada em uma festa por seu colega de turma e se suicidou após o responsável ter sido absolvido. A trama do filme gira em torno do plano vingativo de Cassie: atrair homens potencialmente abusadores enquanto finge estar bebâda.


Os alvos perpassam diferentes “tipos” de homens: aqueles assumidamente machistas, aqueles que se consideram oprimidos pelo padrão de beleza da sociedade e excluídos e aqueles autointitulados “caras legais”. O que todos possuem em comum? Todos reproduzem a chamada “cultura do estupro”, isto é, reforçam com suas ações e pensamentos a ideia de que a violência sexual contra a mulher é causada pelas circunstâncias nas quais a vítima de encontrava (suas roupas, o lugar em que estava, as pessoas com quem estava). Em outras palavras, esses homens continuamente banalizam o crime, culpam a vítima e diminuem ou anulam a responsabilidade do agressor. Então, a mensagem de “Bela Vingança” é que todos os homens são inerentemente maus? Longe disso, o longa-metragem mostra também esse mesmo discurso sendo propagado por mulheres e expõe como a cultura do estupro está presente na sociedade como um todo e não apenas nas atitudes masculinas.


Na mesma linha de pensamento vingativo de Cassie, em 2013, o então deputado Jair Bolsonaro apresentou um projeto de lei que propunha a castração química como punição a estupradores [5]. No entanto, mesmo que sexualmente impotentes, o estupro não é impossibilitado, dado que órgão sexual não é única forma de cometer o delito. Ainda, o “tratamento” proposto não diminui libido ou o pensamento dos agressores. A raiz da cultura do estupro está na educação que ensina aos homens que mulheres são frágeis e suas inferiores e não no desejo sexual.


Ao decorrer do filme, o plano de Cassie se dirige diretamente aos responsáveis pelo estupro contra sua amiga e o telespectador acompanha o crescimento da expectativa do encontro da tão esperada “justiça”. Essa catarse nunca é entregue ao público e o que resta é a frustração e o dever de procurar formas de destruir aquilo que causou o estupro e não aqueles que o fizeram.


Mariana Ramos

Graduanda em Ciências Sociais (FFLCH – USP) e bolsista do Projeto CineGRI.


#CulturaDoEstupro #BelaVingança #Justiça #Machismo


Referências bibliográficas:


[1] MONTEIRO, Isabella. Estupro coletivo e assassinatos em Queimadas. Compromisso e atitude, 2014. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/estupro-coletivo-e-assassinatos-em-queimadas/ Acesso em: 15.05.2021


[2] BRANDINO, Jéssica. Estupros coletivos e feminicídio: O Caso de Castelo do Piauí. Compromisso e atitude, 2015. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/estupros-coletivos-e-feminicidio-o-caso-de-castelo-do-piaui/ Acesso em: 15.05.2021


[3] Menina estuprada por 33 homens no Rio agradece apoio: 'Não dói o útero e sim a alma'. Correio 24 Horas, 2016. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/menina-estuprada-por-33-homens-no-rio-agradece-apoio-nao-doi-o-utero-e-sim-a-alma/ Acesso em: 15.05.2021

[4] BARDELLA, Ana. Mari Ferrer: entenda a cronologia do caso, a denúncia e a sentença. UOL, 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/10/caso-mari-ferrer.htm Acesso em: 15.05.2021


[5] MARQUES, Maria. A castração química impede estupradores? Entenda como o tratamento funciona. UOL, 2016. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/06/17/a-castracao-quimica-impede-estupradores-entenda-como-o-processo-funciona.htm Acesso em: 15.05.2021

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