O início da Primavera Árabe

Atualizado: Mai 5


Fonte: Revista Veja


#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: À direita, um homem sentando em uma maca com grande parte do corpo envolvido por uma manta hospitalar dourada. A maior parte da cabeça e de outras de suas partes visíveis estão tomadas por queimaduras em tons escuros. Ao seu redor temos uma mulher e um homem tentando erguer a maca enquanto um terceiro faz um movimento com uma de suas mãos que indica que estaria prestes a fazer o mesmo. Ambos vestem um uniforme azul com uma listra branca, no caso dos dois primeiros e vermelha no caso do último. Enquanto isso, ao fundo existe uma imensa aglomeração de homens que trajam bonés, jaquetas e calças em tons também azulados.


Assim que abro meus olhos é um filme lançado no Brasil em 12 de janeiro de 2017, da diretora Leyla Bouzid, que se passa na Tunísia de 2010 meses antes da revolução que iniciaria um dos maiores movimentos da história e geopolítica contemporânea: A primavera árabe. Com um enredo emocionante e crítico, além de belíssimos planos e ótimas atuações, Assim que abro meus olhos nos mostra uma micro e macro revolução, a primeira sobre a condição da protagonista Farah (Baya Medhaffer), que se vê entre a vontade familiar e sua vontade individual, e a segunda sobre a condição da sociedade tunisiana, que se encontra no estado de repressão acima citado.


Não haverá spoilers sobre o filme, afinal ele é surpreendentemente belo e triste, qualquer informação sobre seu desenvolvimento e finalização tiraria a surpresa, então pegarei o contexto do filme para o grand finale deste humilde texto. Uma juventude inflamada pelas injustiças sociais, que vê mais que necessária uma mudança e que deseja lutar pelo novo. A micro revolução que Fayah necessita transforma-se na luta por uma nova Tunísia. Na vida real o incidente incitante para a ebulição da revolta (Engels descreve que a revolução não é de uma hora para outra assim como a água não entra em estado de ebulição do acaso, são uma série de eventos que vão alimentando a revolta até um evento que é o estopim) foi Mohamed Bouazizi, um jovem que se recusou a pagar propina aos policiais tunisianos e teve sua banca de frutas atacada por tais agentes e ateou fogo em seu corpo em forma de protesto. Tal evento abalou a população do país e alimentou a concretização da revolta popular.


John R. Barber fala que o maior erro da globalização é democratizar o capitalismo e não a democracia em si, o que nos leva a pensar sobre os efeitos da democracia liberal. A Assembleia Constitucional Democrática (RCD) controlou duramente o país da independência até 2011, tendo como chefes de Estado apenas dois homens: Habib Bourguiba, que tinha o cargo vitalício de primeiro-ministro, mas que fora destituído do cargo por seu ministro Zine El Abidine Ben Ali, que, com apoio do exército e do amparo político da RCD, se manteve no cargo durante 23 anos, mesmo com acusações fortíssimas de corrupção e supressão de direitos humanos básicos. Contudo, onde estava a grande nação que lutou diversas guerras pela liberdade dos povos?


A Tunísia desde a sua independência teve forte alinhamento com o mundo ocidental, assim como tantos outros repressivos governos pelo mundo árabe. Um ponto em comum entre todos esses governos é a dualidade entre uma elite rica e dominante, e uma população pobre e que tem como submissão a única garantia de sua sobrevivência. Kadhafi, Mubarak, Bashar al-Assad, como tantos outros utilizavam da opressão social e violência para manter o status quo da sociedade, utilizavam essas ferramentas para conter a ebulição da revolta, para esconder a luta de classes.


“Até hoje, a história de todas as sociedades é a história das lutas de classes.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e aprendiz; em resumo, opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travando uma luta ininterrupta, ora aberta, ora oculta — uma guerra que terminou sempre ou com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com a destruição das classes em luta.”

(MARX; ENGELS, Manifesto do partido comunista)


Levitsky e Ziblatt demonstram em seu livro “Como as democracias morrem (2017)“ a maneira como as democracias estão morrendo e de forma legal. Utilizo esta obra não apenas para analisar como as democracias estão morrendo, mas também como algumas democracias já nasceram mortas. Uma passagem deste livro para demonstrar como um líder é autoritário mesmo seu poder sendo legítimo e constitucional, são quatro indicadores que os autores utilizam para identificar comportamentos autoritários: rejeição das regras democráticas; negação da legitimidade dos oponentes políticos; tolerância ou encorajamento à violência; propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia. Isso demonstra como a democracia tunisiana já nasceu morta, afinal uma democracia que dá um cargo vitalício de comando para um homem e depois permite a reeleição sem limite de outro homem, não dá para ser caracterizada como democracia, apenas como uma sociedade na qual você pode comprar algo. Tais sociedades, principalmente durante a guerra fria, serem contidas no espectro do “mundo livre” é assinar que a sociedade de mercado se preocupa mais com a nossa liberdade de compra do que com nosso desenvolvimento humano livre, digno e universal.


Esse evento ecoou pelo mundo árabe, derrubando diversos regimes autoritários e inflamando todos aqueles que se sentiam oprimidos, injustiçados e esquecidos. Essa é a verdadeira democracia: um governo do povo, pelo povo e para o povo. Não confunda liberdade material com liberdade universal, não confunda democracia com liberdade de escolher qual carro comprar, pois quando John Locke determina como direitos naturais do HOMEM (HOMEM, BRANCO, RICO, EUROPEU) vida, liberdade e propriedade, não se esqueça que ele tentava justificar a escravidão; não esqueça também que as grandes primeiras nações liberais tinham um forte apreço pelo patriarcado, escravidão e colonialismo; não se esqueça que há comida suficiente para alimentar o mundo indo pro lixo; não se esqueça que a pessoas morrem em guerras criadas pela elite. Então agora encontramo-nos como Farah, na linha tênue entre o sonho e a realidade, podemos tentar viver o sonho, mas a realidade não se alterará, a luta de classes não cessará.


Lucas Antonio

Graduando em Geografia (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2019/2020.

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