O uso da tecnologia como luta e resistência

Atualizado: Mar 22


#PraCegoVer [Fotografia]: Duas pessoas, um homem à esquerda levemente desfocado, e uma mulher à direita em primeiro plano. Ele está olhando na direção dela, veste colares feitos com sementes variadas e um cocar na cabeça com penas vermelhas e uma pena azul no centro. A mulher está com o cabelo preso, com um celular na mão, e o olha fixamente. Os dois estão com os rostos pintados com urucum. Eles estão em uma paisagem agreste, em um dia ensolarado.



A cultura se dá por um conjunto de ações e repertórios sociais que conectam tanto a arte, as crenças e os comportamentos das pessoas em seu convívio social. Ainda que cultura possua definições tão amplas e particularizadas em cada território, continua sendo presente a estigmatização contra os hábitos culturais das populações de povos originários. No brasil, os povos indígenas hoje compõem 0,47% da população brasileira, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010)¹. Dentro deste grupo, há grande diferenças: culturais, de crenças e linguísticas, ao contrário da ideia de que são um bloco único, como é difundido na sociedade brasileira. Frases como “índio não pode usar celular” ou “índios estão parados no tempo” não compreendem as transformações constantes que eles vivenciam, assim como esse pensamento avalia de maneira impositiva a métrica do que seria uma civilização ideal.


A partir deste panorama que nasce o documentário “Indígenas Digitais”, que mostra como várias etnias estão utilizando a tecnologia, e como ela se tornou parte de suas culturas. No filme, vemos integrantes de diferentes linhagens relatarem como celulares, computadores e, principalmente, a internet, são ferramentas de muita importância na busca de melhorias para as comunidades. Essas falas também demonstram as relações destas pessoas com o mundo globalizado, e com a conjuntura nacional do fortalecimento de uma retórica racista, a qual falaciosamente ressalta que os indígenas não são “produtivos".


A atual política estabelecida pelo governo federal, caracterizada pelo avanço do neoliberalismo, foi legitimada por discursos de combate aos povos indígenas e quilombolas. Hoje, muitas terras, preservadas por diferentes etnias, têm sido cobiçadas pelo potencial de exploração mineral e agrária. Neste cenário difícil, ainda em um contexto de evolução constante da tecnologia, a busca por utilizar esta importante ferramenta para o fomento de garantias de direitos das populações indígenas e, inclusive, no combate do preconceito que deseja a exclusão delas no ciberespaço, é fundamental. O filme demonstra como a tecnologia agora não é apenas um recurso "externo", mas sim parte integral de suas culturas. Esta situação pode ser compreendida ainda melhor na fala da Cacique Jamapoty, que diz: “a gente precisa de ter essa tecnologia para falar para o mundo o que nós queremos, queremos também preservar, ter uma terra demarcada, ter uma saúde de qualidade, mas sempre observando que nós, povo indígenas, queremos viver nosso habitat, com a nossa liberdade, com o jeito de vida nosso.” É explícita a adequação e necessidades dos indígenas frente a era digital que se instaura diariamente. A sociedade brasileira ainda irá se surpreender com a potencialidade que vem pintada de urucum.


¹IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2000. Disponível em <https://censo2010.ibge.gov.br/>


Rafael Bento

Graduando em Ciências Sociais (USP) e bolsista do Projeto CineGRI 2019/2020.


#direitoaterra #direitoindigena #culturasindigenas #respeitoadiversidade

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