Os povos indígenas são e(feitos) de sonhos

Atualizado: Mar 5



Fonte da Imagem: "O Globo"


#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: À esquerda, um homem semi-nu em pé de perfil, segurando um chapéu de palha em sua mão esquerda, olha para a mulher a sua frente, à direita da imagem. A mulher veste um longo vestido vermelho que possui detalhes em marrom e em sua cabeça um lenço vermelho de grande extensão ao vento. Ela está de braços abertos e seu rosto está inclinado em direção ao homem. Ao fundo há um céu azul sem nuvens, e os dois estão descalços sobre um solo arenoso.


Idealizadas e enjauladas por uma história escrita por seus colonizadores, às várias etnias decorrentes do o continente Americano travam a mais de 600 anos uma trajetória épica em busca de sobrevivência cultural, social e política contra o vasto vento forte de seu apagamento estrategicamente planejado. Do erro europeu ao chegar no Caribe em suas caravelas faraônicas e generalizar as inúmeras tribos nativas da região como “índios", pois acreditavam ter chegado às “Índias”, passando pelo processo de escravidão e catequização desses povos até o mítico genocídio completo de todos os descendentes dos clãs existentes surgiu um presente pouco falado e muito sugerido. Foi nesse contexto que o historiador Forrest Hylton e o cineasta Ciro Guerra viram a necessidade de dar luz, câmera e voz a Colômbia ancestral.


É com a frase “É um lembrete ao mundo de que ainda estamos vivos” dita por Sergio Kohen Epieyú pütchipü'ü, autoridade que resolve os conflitos da tribo Wayúu, que habita a região de Guajira na Colômbia e parte da Venezuela, através de negociações que o documentário “Espíritus Guerreiros”de Forrest Hylton começa. Daqui em diante somos guiados pela narração feita por outros membros da tribo a respeito da chegada dos espanhóis a Guajira e dos costumes de seu povo.


Já em “Pássaros de Verão” o cineasta Ciro Guerra também nos conta uma história baseada em fatos reais sobre dois “clãns” desse grupo indígena, em uma Colômbia entre os anos de 60 e 80, que conservam as suas tradições mas tem um diferencial, são ligados ao tráfico de Marijuana. Foi justamente nesse período que o comércio da erva explodiu do país em direção a outras regiões do mundo, ajudando tanto o desenvolvimento econômico quanto o narcotráfico.


O conflito do filme se inicia quando o membro de uma das famílias se apaixona pela filha da matriarca de um grupo rival. Aliás, esse é um dos pontos interessantes da sociedade Wayúu que também é ressaltado pelo documentário, a autoridade natural da mulher, que a torna administradora dos bens patrimoniais e da parte espiritual do clã, guiando seus “filhos” quando existe algum sonho ou outra coisa que os perturbe.


Apesar da união dessas famílias gerarem ofensas que posteriormente serão reparadas com sangue é a transgressão da tradição de um dos valores da comunidade que gera a grande discussões imposta. A partir do momento em que o estrangeiro se interessa por uma planta sagrada e alucinógena da região a degradação da comunidade se inicia e o rito ligado à planta ganha a finalidade de prazer momentâneo e comercial. Assim, após essa transformação de valores da comunidade o “outro/ não nativo” sai momentaneamente de cena e dá lugar a destruição dos membros do grupo indígena entre si.


Essas duas filmografias retratam uma comunidade que é vítima do processo de colonização e de interesses mercantis que prezam o esquecimento do passado. O desvio do discurso eurocêntrico que instaura o exotismo e uma recriação caricata dos povos originários da América e que impregnam o imaginário de países, pessoas e livros faz de ambas as produções um grande acerto na história do cinema latino americano e mundial. É necessário rever para entender e fazer permanecer esse legado que também é nosso.


Kelly Barbosa, Graduanda em Letras, Português/Espanhol (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2019/2020.


#Indígenas #TriboWayúu #Resistência #FilmografiaLatinoAmericana

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