Se está na internet, deve ser verdade

Atualizado: Mar 27



#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: A imagem, em tons azulados, apresenta em zoom uma barra de endereço eletrônico com os caracteres "http://www.". Fonte da imagem: TargetHost.


“Um adjetivo relacionado ou evidenciado por circunstâncias em que fatos objetivos têm menos poder de influência na formação da opinião pública do que apelos por emoções ou crenças pessoais” [1], assim é definido o conceito da palavra pós-verdade, que ganhou o mundo em 2016 após ser concebida como a palavra do ano pelo Dicionário de Oxford. A pós-verdade trabalha justamente com o que o ser humano tem de melhor, os sentimentos e suas percepções pessoais de mundo, no entanto, nem sempre elas estão corretas, e se não forem postas em dúvida podem levar ao erro justamente pelo alto grau de confiança que temos em nós mesmos.


Hoax (2016) é um curta metragem do diretor Thiago Amaral Ribeiro produzido com menos de R$ 100, que discute o papel que nossas convicções ocupam no vazio do pensamento crítico e da racionalidade, o sensacionalismo da mídia e a rapidez com que fluem as informações nas redes sociais. Esse vazio da crítica racional pode ser entendido principalmente pela falta de atenção com os vídeos recebidos, revelando, talvez, uma incapacidade de buscar por fontes ou escassez de alguma forma de educação científica que permita ao receptor buscar por seus destinatários primeiros. As convicções podem ser entendidas por aquilo que somos condicionados a pensar através do que a mídia dispõe ou aquilo que temos enquanto formação pessoal, ocupando, então, o papel do fato e do relato na falta dele. O desenlace para a história se dá quando um grupo de amigos decide gravar um vídeo com a câmera do celular em que um deles é assassinado, o vídeo, no entanto, serviria apenas para ser mostrado como uma brincadeira ou mesmo atrair olhares curiosos sobre a película pouco produzida. Um dos amigos decide compartilhar o vídeo, e ele viraliza nas redes sociais.


As redes sociais desempenham um papel fundamental na história, pois é o principal canal de divulgação das imagens sem cuidado algum. Ainda que as pessoas duvidassem da veracidade do vídeo, o estrago já estava feito, pois as imagens estavam espalhadas por toda a internet e todos se perguntavam quem seria o assassino do jovem. A baixa qualidade do vídeo também é fundamental no enredo, visto que ela que ajuda a dar maior veracidade às imagens e suscitar certa originalidade do vídeo. Desta forma, as pessoas especulam que se fosse falso, a qualidade seria maior e o vídeo não teria uma atuação tão natural quanto é, ou seja, seriam utilizados atores mais profissionais, um local mais previsível e as imagens teriam maior grau de tratamento fotográfico.


A mídia também ajuda a validar as especulações através das inúmeras imagens reproduzidas na televisão, que alimentam o imaginário e as crenças pessoais dos telespectadores. A vida dos jovens torna-se infernal devido a exposição das imagens e o grau que de repercussão que as tornam conhecida em todo o território nacional. A favela em que eles moram também se torna alvo de inúmeras invasões e as pessoas da periferia passam a sofrer violências devido a exposição.


Com a grande repercussão, os jovens decidem desculpar-se e alertam a todas as autoridades que tudo não passava de uma brincadeira. Porém, muitos são aqueles que já possuem opinião formada acerca dos boatos, e preferem agarrar-se às suas próprias convicções pessoais tornando a gravação em uma verdade quase que consolidada por conta da visibilidade que se deu ao vídeo publicado. Ademais, podemos notar claramente que os contextos em que se intensificam ainda mais a relação binária entre o bem o mal, o preto e o branco, se dá devido a geografia do local, e a cor dos jovens. Portanto, as crenças e emoções são imprescindíveis no filme, que nos alerta acerca da difusão de informações duvidosas, do sensacionalismo midiático e do pensamento crítico em relação ao fato e a mentira.


Nota

[1] GENESINI, Silvio. A pós verdade é uma notícia falsa. São Paulo: Revista USP, n. 116, p. 45-58, janeiro/fevereiro/março 2018.


Referências Bibliográficas

HOAX. Direção: Thiago Amaral Ribeiro. In: Porta Curtas. 23 minutos, colorido. Disponível em: <http://portacurtas.org.br/filme/?name=hoax>. Acesso em: 30 de janeiro de 2020.


Paulo Ricardo da Silva Borges Batista

Graduando em Letras - Português/Espanhol (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI

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