Camus e conflitos em tempos de pandemia

Atualizado: Jun 24


#PraCegoVer [PINTURA]: Em tons quentes, a imagem retrata várias pessoas com semblantes tristonhos. Algumas, no canto superior direito e no centro da imagem, cavando buracos para eventuais covas, e outras, a esquerda, no canto inferior direito e no centro, carregando caixões com mortos vítimas da peste bubônica na Idade Média, durante o final da primeira metade do século XIV.


As diferentes sociedades estão se articulando para se remodelar em um novo cenário, até então desconhecido, que se instaurou a nível global em nosso cotidiano. A pandemia do coronavírus – nova cepa viral descoberta em 2019 e intitulada COVID-19 – veio para balançar estruturas que já não estavam tão estáveis e reforçar, ainda mais, o cenário político polarizado que o Brasil vem enfrentando nos últimos anos. Neste contexto, as opiniões sobre a doença vêm se dividindo severamente, contribuindo para que as possíveis soluções de combate ao vírus ganhem ou percam credibilidade na mesma proporção. Toda essa discordância acaba tornando os esforços de controle de disseminação mais complicado para os agentes da saúde e autoridades públicas – estes que também divergem entre si.


O filme A Peste (Luis Puenzo, 1992), baseado no romance escrito pelo franco-argelino Albert Camus em 1947, dialoga exatamente com esse dualismo recorrente na atualidade. Em nosso contexto, considerando que os porta-vozes para conter o vírus são especialistas da ciência medicinal, que não têm medido esforços para conhecer mais sobre esse novo fenômeno, trabalhando e estudando incansavelmente, qualquer outra recomendação ou medidas contrárias às deles acabam sendo facilmente descartadas. Todavia, subsistem discursos de grupos que, em prol exclusivamente da economia, a fim de evitar a irrevogável crise econômica que o mundo irá enfrentar, procuram descredibilizar qualquer restrição que prejudique os negócios no país, a exemplo do necessário período de isolamento, recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).


A obra de Camus retrata bem os dias de aflição e divergência que o planeta tem vivido nos últimos meses. A história é narrada em Oran, cidade francesa na costa argelina, que entra em colapso com a chegada de uma epidemia causada por uma infestação de ratos, e é submetida ao famigerado isolamento e aos conflitos existenciais ocasionados por este. Diante da situação de calamidade pública e caos social, as pessoas começam a pensar e questionar o mal inevitável, reagindo de diferentes formas às circunstâncias em que estão submetidas, e como viver/sobreviver com essa realidade. Todas as supostas verdades e mentiras, crenças e descrenças começam a ser ressignificadas durante o enredo, apresentando os diferentes pontos de vista e apontando os comportamentos coletivistas e individualistas das personagens.


Não muito diferente, a realidade atual é marcada pelos mesmos questionamentos e por negacionismos. O filme aponta o mal-estar contínuo de autoridades públicas, contrárias ao comportamento incontestável do Dr. Rieux (William Hurt), personagem principal da obra, que busca se manter racional durante esse período conturbado, focando estabelecer medidas que controle a doença, sem ultrapassar os limites éticos de sociabilidade. Semelhantemente, em nossos dias, há um determinado grupo colocando em dúvida as metodologias e descobertas cientificas da medicina, que corroboram para o bem da saúde coletiva, apoiando-se em crenças individuais e sem embasamento teórico e prático, que tenha um mínimo de fundamento e concisão no que tange a saúde da população para o enfrentamento do coronavírus.


De um lado, decisões que colaboram para o restabelecimento das atividades coletivas, de maneira altruísta e assumindo uma responsabilidade perante a sociedade, e, de outro, resistências que se concentram em interesses puramente políticos e econômicos, visando a alcançar uma estabilidade inexistente e sem condições de ser estabelecida normalmente, como se centenas de milhares de pessoas não estivessem sendo afetadas de diversas maneiras mundo afora. Dessa forma, trazendo reflexões consideráveis para se pensar o momento sombrio que o mundo vem enfrentando.


Larissa Dias dos Santos

Graduanda em História (FFLCH/USP) e voluntária no Projeto CineGRI Ciclo 2019-2020.


Fontes:

[1] Lent, Roberto. Entre a ciência e a crença existe uma grande diferença. O Globo, 2019. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/sociedade/artigo-entre-ciencia-a-crenca-existe-uma-grande-diferenca-23941757>. Acesso em: 18 de maio de 2020.

[2] Oliveira, Bernardo. A Peste de Camus e a solidariedade na epidemia. Pensar a Educação, 2020. Disponível em: < https://pensaraeducacao.com.br/pensaraeducacaoempauta/a-peste-de-camus-e-a-solidariedade-na-epidemia/>. Acesso em: 18 de maio de 2020.

[3] Picón, David Ontoso. The Plague (1992). From Albert Camus to Luis Puenzo. Journal of Medicine and Movies, 2005. Disponível em: <https://campus.usal.es/~revistamedicinacine/Volumen_2_1/n1/ing_1_htlm/peste.htm>. Acesso em: 18 de maio de 2020.


#Pandemia #Polaridade #Ciência #Crença #Divergência

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