“Martírio” e a denúncia de um genocídio silencioso


#PraCegoVer [Fotografia]: Quatro crianças Guarani-Kaiowá. A primeira tem o rosto pintado de preto. Está de camisa marrom, jaqueta azul e calça branca. Segura um cartaz que diz “nós queremos demarcação já”. A segunda tem o rosto pintado de preto, usa camisa verde e calça laranja. Segura um cartaz que diz “para de enrolação”. A terceira tem o rosto pintado de preto, usa camisa rosa e calça branca. Segura um cartaz que diz: “Pelo amor de deus parem o massacre contra os povos indígenas Guarani. Mato Grosso do Sul. Demarcação das terras já!!!”. A terceira tem o rosto pintado de vermelho, usa camisa azul e calça rosa. Segura um cartaz com mensagem inelegível. O chão é de terra batida e atrás das crianças há uma pastagem de mato alto”. Extraído de: http://candidoneto.blogspot.com/2015/09/a-dolorosa-resistencia-dos-guarani.html


Brasília, 5 de outubro de 1988. Após anos de esforço e articulação política das principais organizações indigenistas do Brasil, lideradas pela figura de Manuela Carneiro da Cunha, o Brasil finalmente publicava o Capítulo dos Índios. A garantia dos direitos constitucionais das populações indígenas significou um marco na trajetória de luta e sobrevivência de uma minoria étnica, historicamente violentada e desassistida pelo poder público. Ainda assim, 32 anos depois dessa conquista histórica, o que vemos é um cenário desolador, de violência sistemática e ataque contra os direitos básicos de sobrevivência dessas populações.


Em Martírio (2016), Vincent Carelli expõe esse panorama e, com seu rico acervo de imagens, dá visibilidade à toda a situação degradante vivida pelos Guarani-Kaiowá. O diretor faz um percurso histórico pela questão indígena, mostrando que a luta pela terra e toda a violência promovida pelos latifundiários é um problema antigo, muito longe de ser resolvido.


Carelli não tem medo de apontar os verdadeiros culpados pela situação, por isso, parte fundamental do documentário se dá entre os contrastes. O filme alterna entre depoimentos dos indígenas e filmagens das sessões na câmara dos deputados, onde fica evidente todo o lobby e malabarismo argumentativo daqueles que formam a denominada “bancada do boi” no Congresso Nacional. Constantemente se observa uma tentativa de colocar a culpa nos indígenas pela situação de violência, classificando-os como “invasores”, ainda que estejam lutando pela ocupação de terras que lhes foram garantidas constitucionalmente.


“Por aqui parece que cabeça de gado vale mais do que gente”. A frase proferida por um desembargador incrédulo com a violência promovida pelos fazendeiros contra os Guarani-Kaiowá explica como as relações de poder se dão nesse território. Todo o derramamento de sangue de vidas inocentes parece não ser o suficiente para chocar a opinião pública nem gerar medidas incisivas por parte das autoridades. Uma série de assassinatos e massacres que não resultam em nenhum tipo de condenação provam que as milícias formadas pelos fazendeiros no Centro-Oeste do Brasil estão acima da lei. A lógica que coloca economia e vida em polos opostos parece ser o suficiente para justificar o genocídio promovido contra os índios.


Em sua retomada histórica, o diretor explora a maneira com que o manejo dos povos indígenas se deu ao longo do tempo. As práticas do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), chefiado pela figura do positivista Marechal Rondon, que tinha como objetivo transformar os índios em “civilizados”, são amplamente expostas e problematizadas, por ter o intuito principal de assimilar e acabar com a cultura nativa. A marcha desenvolvimentista, marcada pelo governo de Getúlio Vargas, é apontada como motor do processo de desapropriação das terras indígenas. Naquele contexto, mais uma vez, o desenvolvimento econômico do país estava acima dos direitos constitucionais que os indígenas já possuíam.


Martírio é um grito de socorro, o retrato de uma violência sistêmica que mata milhares de brasileiros todos os anos. O que devemos nos perguntar é: por que isso não nos choca? É justo que estejamos naturalizando a barbárie? Quantas vidas terão de ser perdidas para que tomemos uma posição enquanto sociedade?


Mudar essa situação passa por um esforço conjunto de fazer essas vozes serem ouvidas. É fundamental que cada vez mais lideranças indígenas ocupem espaços de poder que, historicamente, não foram capazes de garantir seus direitos fundamentais. Só é possível afirmar que estamos em uma democracia plena quando os direitos fundamentais de todos os brasileiros forem assegurados e isso passa, fundamentalmente, pelo fim do martírio vivido pela população indígena.


Yan Carvalho.

Estudante de Ciências Sociais da USP.


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Referências bibliográficas:


30 anos da Constituição e do capítulo dos índios. Comissão Pró-Índio de São Paulo, 04 de outubro de 2018. Disponível em: https://cpisp.org.br/30-anos-da-constituicao-e-capitulo-dos-indios/ Acesso em: 03 de novembro de 2020


BONIN, Iara. Resistência Guarani e Kaiowá e as novas ofensivas contra os direitos indígenas no MS. Intersindical, 08 de Setembro de 2015. Disponível em: https://www.intersindicalcentral.com.br/resistencia-guarani-e-kaiowa-e-as-novas-ofensivas-contra-os-direitos-indigenas-no-ms/#.X6M1h1hKjIU. Acesso em: 03 de novembro de 2020


TAVARES, Elaine. A dolorosa resistência dos Guarani Kaiowá. Instituto de Estudo Latino-Americanos, 18 de Setembro de 2015. Disponível em: https://iela.ufsc.br/povos-originarios/noticia/dolorosa-resistencia-dos-guarani-kaiowa. Acesso em: 03 de novembro de 2020



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