Collective: quanto lucra um Estado com a imperícia?


#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Ao centro, uma mulher com queimaduras na pele realiza uma performance com um pano cobrindo o corpo, em um ambiente repleto de fumaça. Imagem feita por Alexander Nanau. Fonte: https://personaunesp.com.br/colectiv-critica/


O documentário romênio Collective, de 2017, dirigido por Alexander Nanau, foi uma das produções de cunho político mais bem aceitas nos circuitos de cinema dos últimos anos. Ambientado na própria Romênia, a equipe por trás do projeto procura entrevistar todas as pessoas envolvidas no incêndio ocorrido na boate “Colectiv”, em 2015. Em decorrência deste incêndio, faleceram 27 pessoas e 180 ficaram feridas, porém, curiosamente, um número significativo de pessoas faleceram nos dias que seguiram o ocorrido nos hospitais, desencadeando uma investigação extra-oficial sobre o motivo dessas mortes inesperadas.


A narrativa nos mostra que, em um esquema encoberto pelo governo de Bucareste, onde ficava a boate, os hospitais públicos operavam com produtos de formação química totalmente inapropriados para o consumo hospitalar, principalmente na área de higienização. Devido às fragilidades e exposições graças às queimaduras, os sobreviventes dos incêndios que permaneciam nesses hospitais contraíram bactérias fortes que resultaram em casos graves encobertos pelo palco político da época.


É claro como esse acontecimento nos parece familiar, se pensarmos no ocorrido da boate Kiss, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2013, mas as infelizes semelhanças não param por aí. No contexto da boate “Colectiv”, descobrimos que o governo financiava alterações nos produtos de limpeza, lucrando com esses atos de imperícia relacionados à vida pública e acabando com as vidas de dezenas de jovens. Não muito distante, a realidade brasileira reproduz a arte documentada.


Atualmente, no Brasil, a frente de investigação sobre desregulamentação no tratamento da epidemia de coronavírus lida com diversas hipóteses em que o governo federal lucrou, assim como o de Bucareste, com o sistema de saúde até então universal. A compra superfaturada de vacinas, a possibilidade de propina em cima de cada dose e a desregularidade programada para oferecê-las à população são nossas marcas nacionais de imperícia.


Com a constatação dessas realidades muito opostas ao que se espera de um Estado democrático, resta pensar sobre quais aspectos as unidades de poder deste mesmo Estado estão oferecendo para a sua nação com a intenção de lucro próprio e não visando a qualidade de vida do seu público eleitor. Citando um outro documentário de cunho político direto, Democracia em Vertigem (Petra Costa, 2019) apresenta o cenário brasileiro como uma malha de relações interessadas em coisas além do bem-estar do indivíduo brasileiro. Ambos os documentários citados aqui ganharam visibilidade na imprensa e em circuitos de cinema, realizando no gênero documentário uma denúncia mundial sobre governos que nunca estiveram a par do que se imagina uma democracia.


É importante ressaltar que a realização destes documentários só foi possível graças à existência de uma imprensa livre e que, embora recorrentemente atacada, pôde operar em busca de uma verdade por trás dos modos como o Estado apresenta a sua própria realidade. A exemplo do livro 1984, de George Orwell, no qual a imprensa só funciona para propagar ideias de interesse partidário, os meios de comunicação dos governos atuais atuam com uma falsa realidade, e só podemos confrontá-los com o jornalismo livre, defendendo a realização de investigações e opiniões fundamentadas em pesquisas. No documentário Collective, um dos entrevistados diz: "Quando a imprensa se curva às autoridades, as autoridades maltratam os cidadãos. Isso sempre aconteceu, em todo o mundo, e aconteceu conosco."


Assim, a presença de documentários políticos que denunciam um circuito político, apesar da pressão hostil de seus governantes aos artistas, se mostra como forma alternativa de denúncias contemporâneas às irregularidades. A realização desta livre imprensa não só tem sido benéfica para atrair a atenção em larga escala para irregularidades governamentais, como também explicita o funcionamento dos governos “democráticos” que agem a partir de interesses muito particulares de um grupo pequeno e privilegiado de indivíduos que lucram com a irregularidade na saúde pública e o bem-estar do cidadão comum.


#documentário #corrupção #CPI #colectiv #Collective


Guilherme Cavalcante, estudante de Letras na Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Além de redator, é poeta e ensaísta, tendo publicado no último mês na revista Philia- UFRGS (https://seer.ufrgs.br/philia/article/view/109662) e na revista de arte Caxangá (https://revistacaxanga.files.wordpress.com/2021/07/caxanga-v3-n1.pdf).


Referências Bibliográficas:


Entenda a CPI da Covid e seus poderes e veja lista de senadores que compõem a comissão. Folha1, 2021. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/04/entenda-como-funciona-uma-cpi-e-os-poderes-da-comissao-que-investigara-acoes-na-pandemia-da-covid.shtml>


Documentário romeno ‘Collective’ revela descoberta de amplo sistema de corrupção. Isto É, 2021. Disponível em: <https://istoe.com.br/documentario-romeno-collective-revela-descoberta-de-amplo-sistema-de-corrupcao/>


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