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De volta à Ilha das Flores 30 anos depois

Fonte: 'Ilha das Flores', curta documental de Jorge Furtado lançado em 1989 /Divulgação

#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Crianças em situação de pobreza sentadas sob os entulhos em uma lugar que aparenta ser o aterro Ilha das Flores, com justamente um girassol ao centro da imagem, contrastando sua vívidas cores com a situação de miséria em que se encontra.


O ano de 1989 foi um marco na história mundial, sendo considerado por muitos estudiosos o fim do assim chamado “breve século XX”, cujo o principal evento foi a queda do Muro de Berlim, sendo antecedido e sucedido pelo colapso dos governos alinhados à União Soviética. A partir disso, foi cantada a vitória do modelo liberal-capitalista, sendo inclusive decretado, pelo filósofo nipo-americano Francis Fukuyama, o que foi chamado de “Fim da História”, se difundindo a ideologia de que todas as transformações a partir dali se dariam dentro dos marcos do capitalismo, pois teria se provado a supremacia deste modelo sócio-econômico sobre o modelo capitaneado pela União Soviética.


Este mesmo ano é o ano de lançamento do famoso curta-metragem Ilha das Flores. Esta obra, dirigida por Jorge Furtado e gravada em Porto Alegre, nos narra de maneira ácida, beirando o cinismo, o ciclo da produção e do descarte de uma porção de tomates, até a chegada deste no aterro sanitário que dá nome à obra.


O curta se inicia com uma explicação científica sobre o que são humanos e o que são tomates, passando logo depois para uma visão em terceira pessoa do ciclo de consumo em que os tomates se inserem. É muito interessante ver como o narrador também descreve como outros processos sociais que ocorrem simultaneamente ao que podemos chamar de “ciclo do tomate” cruzam seu caminho e estão intimamente relacionados à dinâmica de consumo. Podemos citar o caso da dona Anete (Julia Barth), vendedora de perfumes que através dos lucros de suas vendas compra em um supermercado os tomates plantados na fazenda do sr. Suzuki (Takahiro Suzuki), onde tudo começa. Nos expondo onde ela se encontra no esquema de vendas, é dado para nós, espectadores, o contexto do capitalismo em que ela se encaixa.


O curta ganha um tom mais pesado quando nos é apresentado a Ilha das Flores, aterro sanitário nas imediações de Porto Alegre. É para lá que um tomate comprado por dona Anete é encaminhado, após esta o descartar por estar apodrecendo. Então, nos é mostrado que há uma criação de porcos no aterro, e o que os materiais orgânicos que para lá foram encaminhados sofrem um processo de seleção, em que os “melhores dos piores” são escolhidos para servirem de comida para os porcos de lá.


A reviravolta se dá quando nos é mostrado que os restos orgânicos que foram considerados ruins até mesmo para servir de alimento para os porcos são coletados por pessoas em situação de miséria que buscam alimentos no aterro. Nesse momento, a linguagem utilizada pelo autor, que durante todo o curta constitui uma narrativa “objetiva” e “científica”, ajuda a desvelar uma latente contradição que é parte essencial do capitalismo: a esmagadora desigualdade social, e que nos leva a um questionamento imediato: para quem os recursos são escassos?


Quando descreve as pessoas que tiravam sua alimentação dos restos do aterro, fica claro para o público o que os diferencia. E isso é a pobreza, não ter dinheiro para dispor de condições mínimas de dignidade. Essas pessoas se encontram claramente fora do ciclo de consumo, podendo ser questionado também a quem é destinado os frutos da produção em massa desse final de século.


30 anos depois, a atualidade da Ilha das Flores é chocante. Em um mundo cada vez mais desigual, há de sempre se questionar para quem os recursos são escassos e a quem o consumo é destinado. Num sistema que se diz o campeão da liberdade, vale relembrar a frase que fecha o curta: "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda".


Luis Guilherme Nobrega Amorim

Graduando em Ciências Sociais (FFLCH/USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2019-2020.


#Consumo #Capitalismo #Desigualdade #Alimentação #CurtaMetragem


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