"ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR": A FANTASIA DO CAPITALISMO


#ParaTodosVerem [Fotografia]: capa do filme “Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”. Há uma máquina de costura branca no centro da imagem. Um homem de máscara, shorts e sem camisa usa a máquina para costurar uma calça jeans.

Fonte: https://recprodutores.com.br/portfolio/estou-me-guardando-para-quando-o-carnaval-chegar/

“Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”: a fantasia do capitalismo


Para se manter como o sistema político-econômico hegemônico vigente, o capitalismo usa diversos meios. Um deles, e um dos mais perversos, é o que induz as pessoas a acreditarem que suas próprias situações sociais (de emprego e qualidade de vida) são ótimas por terem alguns pequenos privilégios. Para demonstrar o quão falho é esse discurso podemos analisar o documentário brasileiro “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” (2019) do diretor Marcelo Gomes, sob a perspectiva do “privilégio do trabalhador autônomo” (conforme dizem os próprios “entrevistados” para o filme).

A narrativa começa com o caminho que precisa ser feito para a chegada no município de Toritama, que é o protagonista desta obra, durante o percurso, enormes outdoors revelam que o local - que fica no interior de Pernambuco - possui uma alcunha, “a Capital do Jeans”, porém, já por essas grandes propagandas, nota-se que algo não condiz com a realidade étnica, social e estética dos moradores da região. Isso pois, a “norma” é clara, todos os modelos dos cartazes são pessoas brancas e com estética “padrão”, ou seja, segue precisamente o ideal pregado pelo capitalismo, que é vender uma única possibilidade de estilo de vida, vender apenas a visão de mundo de uma elite racista que desumaniza qualquer pessoa diferente desse retrato branco europeu.

É por meio desse controle ideológico presente em todos os lugares (como em “simples” anúncios de beira de estrada) que as mais altas classes sociais se mantêm sempre no poder, por tanto tempo. É um apelo à preferência do cérebro humano pelo padrão e o mimetismo, assim, mesmo que não se identifique com a naturalização de um modelo único de vida, acaba concordando que ele de fato é o melhor (se não o único) para todos. Dessa forma, o sistema garante que apenas quem tem grandes poderes de compra tenha o direito de possuir uma identidade.

Em seguida, a narrativa apresenta o grande exemplo da fábula do capitalismo citada anteriormente. Boa parte dos moradores do município, que antes sobrevivia de agricultura, hoje possui uma pequena fábrica de jeans em suas próprias casas. Com baixas condições de trabalho, como as altas temperaturas (sem nenhum tipo de ventilação) e as jornadas de trabalho de mais de 12 horas, boa parte dos “entrevistados”, se diz privilegiado pois agora podem fazer seus próprios horários. São poucos a perceber como lhes fazem falta os direitos trabalhistas (um deles comenta sobre o medo que tem de ter problemas de saúde, pois isso lhe significaria falta total de subsistência já que seu pagamento depende do dia de trabalho).

Infelizmente, nenhum deles parece notar o quão explorados eles são. Veja o exemplo de uma das entrevistadas, ela afirma com felicidade que seu emprego é ótimo e explica os valores recebidos pela costura de bolsos em uma calça. Um bolso custa 10 centavos, em uma jornada de 15 horas, ela produz cerca de 1000 bolsos, se descontarmos um valor aproximado de produção total por uma calça e sabendo que esse produto custa em média R$50 (como visto na venda durante o filme), o lucro para 1000 calças é de R$40.000 enquanto que pela produção dos bolsos a trabalhadora recebeu apenas R$200 em uma jornada dupla de trabalho (ela comenta que trabalha das 5h às 21h).

Outro sintoma importante que demonstra o desgaste físico e mental que essa exploração causa, é aquele que dá nome ao filme. O próprio diretor é pego de surpresa durante as entrevistas, pois no início de fevereiro a cidade inteira muda seus hábitos. A maioria dos moradores afirma que sua única forma de entretenimento (e merecido descanso) só acontece nos feriados de fim e início de ano. Com a chegada do Carnaval, o município de Toritama vira um local deserto, seus moradores vendem de tudo em suas casas para poderem arrecadar dinheiro para viajar à praia durante o feriadão. Algumas pessoas vendem geladeiras e televisões e alegam que demoram para recuperá-las, mas que tudo vale a pena quando o objetivo é comemorar o Carnaval. Um funcionário de uma loja que revende usados afirma já ter desmaiado de tanto trabalhar nessa época do ano.

É assim que o capitalismo sobrevive, influenciando tudo e todos para se manter hegemônico, esse é um exemplo da manipulação ideológica que permite que o Brasil, maior país da América Latina, tenha 1% da população (os milionários e bilionários), como dona de praticamente a metade de toda a riqueza nacional (UOL, 2021), sendo que são 12,8% o número de brasileiros abaixo da linha da pobreza (CNN Brasil, 2021). Essa é a ilusão capitalista que por meio da máscara da meritocracia só aumenta a desigualdade social no mundo inteiro.


Juliana Mendes Santiago - Estudante de Biblioteconomia (ECA/USP)


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Referências

ESTOU me guardando para quando o carnaval chegar. Direção de Marcelo Gomes. Brasil: Carnaval Filmes, 2019.


DESIGUALDADE aumenta no Brasil, e 1% da população concentra 50% da riqueza. UOL, São Paulo, 24 jun. 2021. Economia. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/06/24/distribuicao-riqueza-nacional---brasil.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 18 jan. 2022.


POPULAÇÃO abaixo da linha da pobreza triplica e atinge 27 milhões de brasileiros. CNN Brasil, Rio de Janeiro, 8 mai. 2021. Nacional. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/populacao-abaixo-da-linha-da-pobreza-triplica-e-atinge-27-milhoes-de-brasileiros/#:~:text=Em%20meio%20%C3%A0%20pandemia%20do,%2C8%25%20da%20popula%C3%A7%C3%A3o%20brasileira. Acesso em 18 jan. 2022.



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