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  • Entre a justiça e o necrotério

    #PraCegoVer: Fotografia de um homem segurando um cartaz marrom escrito com tinta amarela, azul e vermelha (cores da bandeira da Colômbia), a seguinte frase: “Si un pueblo protesta y marcha en medio de una pandemia, es porque su gobierno es mas peligroso que el virus”. Em português: “Se um povo protesta e marcha em meio a uma pandemia, é porque seu governo é mais perigoso que o vírus” (tradução livre). Ao fundo, há muitos manifestantes. Fonte: https://pt.org.br/na-colombia-populacao-reage-nas-ruas-a-exploracao-neoliberal/ O mês de maio de 2021 foi marcado por manifestações na Colômbia. A apresentação de um projeto de reforma tributária do atual presidente Iván Duque ao Congresso foi o estopim para protestantes irem às ruas reivindicar essa ação. No entanto, eles foram recebidos com forte repressão da parte do governo, com muitos mortos e desaparecidos. Para entender a gravidade desta problemática, é de suma importância saber o que é a reforma tributária. A reforma tributária é uma reforma político-econômica que visa à mudança da estrutura legislativa de cobrança de impostos, taxas e outras contribuições vigentes em uma nação, de modo que o sistema de tributação se modernize para que sejam corrigidos problemas de natureza econômica e social. Os impostos sugeridos pelo governo de Iván Duque foram justificados sob o pretexto de "salvar" a economia do país dos efeitos da crise histórica, intensificada pela pandemia do coronavírus. Porém, a população mais pobre é quem de fato sofre os efeitos da taxação. Por isso, na tentativa de evitar esta ação, milhares de manifestantes foram às ruas pressionar o governo e acabaram fortemente reprimidos, como apresentam os dados abaixo: Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2021/05/28/colombia-completa-1-mes-de-paralisacao-nacional-com-60-mortos-e-120-desaparecidos Os tipos de repressões são diversas e possuem uma alta taxa quando são cometidas por policiais, pois, de 60 assassinatos, 43 “provavelmente” foram efetuados por esses. A partir daí, surge o questionamento sobre o servir e proteger que um PM deve oferecer à sociedade, pois as manifestações nas ruas que vêm ocorrendo nos últimos anos são fortemente reprimidas por quem na verdade está mais próximo de desamparar e espancar e, como consequência, tem-se números alarmantes de assassinatos não somente na Colômbia, mas em diversos países latino-americanos. A repressão em manifestação também ocorreu no mês de maio no Brasil. Um homem (que não participava do protesto), foi atingido no olho por uma bala de borracha disparada pela Polícia Militar de Pernambuco durante o protesto contra o presidente Bolsonaro, no Centro do Recife. A dor do luto da guerra civil da Colômbia é retratada no documentário da plataforma Netflix, “Testemunha de um conflito” (Kate Horne, 2018). A perda de muitas pessoas que até hoje não foram encontradas e identificadas, além de depoimentos de familiares que ainda não superaram a perda são retratados na obra. A guerra civil colombiana presente no documentário ocorreu entre 1948 e 1958, e agora, nas manifestações de 2021, muitas famílias partilham do mesmo sentimento da perda. É cabível dizer que as pessoas assassinadas possuíam majoritariamente o mesmo perfil socioeconômico de origem mais humilde. Afinal, a luta pela democracia está na mesma linha da justiça e da bala perdida que sempre encontra os mesmos corpos? O presidente do país desistiu da proposta, mas o preço pago foi de 60 vidas. Pâmela Vitória Graduanda em Letras (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI. #Manifestação #Protesto #Colômbia #Políciais #Vítimas #Assassinatos Referências bibliográficas: HOFFMANN, Gleisi. Na Colômbia, população reage nas ruas à exploração neoliberal. https://pt.org.br/na-colombia-populacao-reage-nas-ruas-a-exploracao-neoliberal/ (Acesso: 11/06/2021) LARA, Rafaela. Colômbia: Entenda a crise e os motivos dos protestos nas ruas. https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/2021/05/06/colombia-entenda-a-crise-e-os-motivos-dos-protestos-nas-ruas (Acesso: 11/06/2021) DE MELLO, Michele. Colômbia completa 1 mês de paralisação nacional com 60 mortos e 120 desaparecidos. https://www.brasildefato.com.br/2021/05/28/colombia-completa-1-mes-de-paralisacao-nacional-com-60-mortos-e-120-desaparecidos (Acesso: 11/06/2021)

  • ‘5 câmeras quebradas’ e o retrato de um massacre

    #PraCegoVer [Fotografia]: cinco crianças estão uma ao lado da outra, em uma janela. A terceira segura uma bandeira da Palestina em haste. Ao redor da janela vemos uma uma parede bege, marcada por diversos furos de arma de fogo. Fonte: https://vermelho.org.br/2019/04/04/palestina-sangue-e-resistencia/ Gaza, 15 de maio de 2021. Um bombardeio do exército israelense mata oito crianças e duas mulheres, todos da mesma família. As vítimas se encontravam no interior de suas residências, no campo de refugiados de Al-Shati. A tragédia descrita é apenas a amostra de um conflito sangrento que atinge milhares de cidadãos palestinos todos os anos. A luta pelo controle do território Palestino tem um longo histórico conflituoso. Parte das disputas surgiram a partir da criação do estado de Israel, no ano de 1948, após a primeira guerra mundial. A fundação da nação fez com que os palestinos fossem obrigados a se abrigar nas regiões da Cisjordânia e Faixa de Gaza. Desde então, intensos embates diplomáticos, políticos e econômicos foram travados. Ainda que a independência da Palestina tenha sido conquistada em 1988, alguns países, como Estados Unidos e Israel, seguem sem reconhecer a legitimidade do Estado. As constantes anexações de Israel sobre o território palestino, através das construções de assentamentos ilegais, geram reações contrárias por parte da comunidade internacional. A Organização das Nações Unidas, a União Europeia e até mesmo a Corte Suprema de Israel já atestaram a ilegalidade desta prática que fere inúmeros direitos básicos universais, sobretudo, por seu violento caráter imperialista. Entretanto, nenhuma medida ou sanção importante foi aplicada e famílias palestinas seguem tendo todos os seus direitos humanos absolutamente violados. O documentário “5 Câmeras Quebradas” (Emad Burnat e Guy Davidi) aborda muitas dessas questões, contando a história de Emad, palestino de Bil’in, na região da Cisjordânia, que em 2005 compra uma câmera para registrar o crescimento de seu filho, Gibreel. O início das gravações coincide com a construção de uma barreira entre o vilarejo e um assentamento de colonos judeus, fato que dá início a uma escalada de tensões e conflitos com o exército israelense. A capacidade que Emad tem de registrar com perfeição e riqueza de detalhes todo o contexto de disputas faz com que sejamos transportados para o centro dos conflitos. Os abusos e violência do exército de Israel são todos evidenciados, ainda que, por diversas vezes, a própria integridade física do diretor seja ameaçada. Todas as cinco câmeras utilizadas ao longo da produção são destruídas por tiros, bombas e ataques sofridos em protestos. Prisões arbitrárias, abuso de poder, torturas e assassinatos de civis mostram que a lei e a justiça não são conceitos importantes para Israel quando se trata da relação com a Palestina. Em meio a todo o caos e destruição, podemos acompanhar o crescimento do pequeno Gibreel. O sentimento de impotência de um pai que observa a infância de seu filho ser absolutamente roubada pela dureza de um conflito interminável comove e desperta indignação. Nem mesmo as crianças são poupadas pela fúria da violência constante. O assassinato de jovens civis inocentes atestam a urgência de uma intervenção que seja capaz de parar esse massacre promovido por Israel. Um relatório publicado em abril de 2021 pela Human Rights Watch, organização internacional de defesa dos direitos humanos, afirmou que o controle militar de Israel sobre a Palestina pode levar a uma situação similar ao apartheid, regime de segregação promovido por anos na África do Sul. É fundamental que os posicionamentos diplomáticos que condenam a violência de estado israelense se tornem ações práticas para garantia dos direitos humanos fundamentais palestinos. Os conflitos entre Israel e Hamas não podem mais ceifar tantas vidas inocentes. É indispensável desconstruir o discurso predominantemente disseminado de que estamos presenciando um embate igualmente letal entre ambas as nações. Essa falsa simetria dificulta o debate e constrói uma narrativa parcial, que distorce os fatos. Reconhecer a legitimidade do estado Palestino e garantir a independência de suas terras é um passo essencial para cessar os conflitos e resguardadar o direito fundamental à vida. Yan Carvalho - Ciências Sociais (FFLCH/USP) #palestina #resistencia #gaza #israel #luta Referências Bibliográficas: Bombardeio israelense mata 8 crianças e 2 mulheres da mesma família em Gaza. Disponível em: . Acesso em: 01 de junho de 2021. BALBINO, Leda. Por que tantas crianças e jovens morrem nos conflitos entre Israel e Hamas? Disponível em: . Acesso em: 01 de junho de 2021. Comissária da ONU afirma que anexações de Israel são ilegais. Disponível em: . Acesso em: 01 de junho de 2021. Israel comete ‘apartheid’ contra palestinos, aponta Human Rights Watch. Disponível em: . Acesso em: 01 de junho de 2021.

  • Eles matam mulheres

    #PraCegoVer [Ilustração]: A ilustração minimalista mostra 5 mulheres (uma menina (criança), três mulheres adultas e uma senhora) lado a lado se apoiando com os braços, como uma forma de união ou apoio. Fonte: https://www.ifad.org/documents/38714174/41498996/gender_violence_story.jpg/0238 73a5-a466-34fa-4c4e-17a1a9088182?t=1606236260000 O documentário Eles Matam Mulheres, produzido e distribuído pela TV Cultura, tem um grande papel ao romper o silêncio e estabelecer uma importante discussão acerca do tema: Violência contra Mulheres. A produção é direcionada a mostrar os quase 40 anos de luta em prol da vida das mulheres a partir das histórias de 13 delas. Além disso, traz destaque para alguns dos casos que mais chocaram a população brasileira, veiculados nas grandes mídias, como os de Eliza Samúdio e Mércia Nakashima, mulheres que tiveram suas vidas arrancadas pelos agressores. Antes de mais nada, para estabelecermos questionamentos a respeito desse tema, é importante contextualizar e destacar que sociedades modernas foram construídas com base na estrutura patriarcal, ou seja, homens fazem a manutenção do poder primário e predominam em funções de liderança, além de serem vistos como a figura de autoridade dentro das famílias. Então, o Brasil não está distante dessa realidade machista que é completamente enraizada na nossa cultura. O combate a essa estrutura, a fim de que mulheres tenham direitos básicos, sempre foi um processo longo e muito difícil, pois absurdos eram legislados pelo Código Civil. Um grande exemplo disso está no Código Civil de 1916, no qual mulheres casadas só podiam trabalhar fora se o marido permitisse, além de que essa autorização poderia ser revogada a qualquer momento. Então, se as mulheres não tinham nem o direito básico ao trabalho, conseguir liberdade para falar sobre suas vontades, necessidades e escolhas foi ainda mais complicado. Assim, a construção social de muitas mulheres, até os dias atuais - desde pequenas são induzidas à romantização por grandes obras cinematográficas e literárias -, parte do princípio de que sua "missão de vida", muitas vezes atrelada à religião, consiste em ter filhos, cuidar do marido e lutar pelo seu casamento, enquanto se tem a ideia de que o homem é o detentor da renda financeira da família e deve buscar trabalho. Com isso, a mulher passa a ser considerada uma propriedade pelo marido, perdendo sua voz, sua autonomia e sendo inferiorizada. Muitas vezes, é a partir desse ponto que se inicia a violência, apresentada em diferentes formas. “Por que as mulheres e meninas não enxergam a violência? Porque se associa violência com agressão física, soco no olho, mas na verdade a violência é um caminho de se controlar, isolar e dominar uma mulher. Esses atos de controle são percebidos como se fosse um cuidado, um gesto de amor.” Eles Matam Mulheres (Vanessa Lorenzini, 2020) O ciclo da violência Estudando comportamentos agressivos dentro dos relacionamentos amorosos, mesmo que esses apresentem singularidades e múltiplas formas de opressão, a psicóloga norte-americana Lerone Walker observou padrões entre as agressões cometidas e um ciclo que se repetia constantemente e o definiu como O ciclo da violência, dividido em 3 Fases: Fase 1 – Aumento da Tensão O agressor começa a ficar tenso e irritado com qualquer situação, qualquer coisa o incomoda. Inferioriza a vítima e a humilha, fazendo ameaças e possivelmente destruindo objetos. A vítima tenta “acalmar” o agressor mudando seu comportamento para não provocá-lo de alguma forma. Muitas vezes, a vítima nega que está passando por essa situação pois ninguém quer falar para as pessoas que conhece que passa por um relacionamento abusivo. Fase 2 – Ato de violência Aqui, o agressor explode, não consegue mais se controlar e chega ao ato definitivo de violência. Há uma materialização de toda a tensão acumulada na Fase 1. A mulher, mesmo sabendo que está passando por um problema, muitas vezes não tem reação e fica impossibilitada de agir. Ela pode tomar decisões a respeito do agressor, acaba se afastando mas não o larga definitivamente. Fase 3 – Arrependimento e Comportamento Carinhoso O agressor se arrepende do que fez e volta a ser amável para uma possível reconciliação do casal. A mulher abre mão dos seus direitos e recursos por considerar que o parceiro vai mudar de comportamento. Por fim, o ciclo é retomado para a Fase 1. Muitas vezes, mulheres só saem desse ciclo quando são mortas pelo agressor. A Lei Maria da Penha O documentário apresenta uma entrevista exclusiva com Maria da Penha contando sua luta após ser vítima de uma dupla tentativa de feminicídio por parte de Marco Antonio Heredia Viveros, seu marido na época. Infelizmente, sua luta apenas se iniciava, pois na época do crime não existia nem uma Delegacia da Mulher no país. Além disso, mesmo o agressor sendo sentenciado a 15 anos de prisão em seu primeiro julgamento no ano de 1991, saiu em liberdade do fórum após solicitações da defesa. Após o acontecimento, Maria da Penha continuou lutando por justiça e em 1996 um segundo julgamento foi realizado, porém seu ex-marido não cumpriu a pena por alegações de irregularidades processuais. Então, depois de ganhar notoriedade internacional e intervenções de um grande movimento legislativo, o Estado foi responsabilizado por negligência e tolerância à violência contra a mulher, em relação ao seu gênero. Assim, uma grande conquista para os direitos das mulheres no Brasil surgia, tendo em vista que muitas vezes as agressões que ficavam entre quatro paredes começaram a serem mostradas para a sociedade, órgãos públicos e entidades de defesa e apoio, fazendo com que aquela mulher que sofria dentro do ciclo de violência conseguisse se livrar do seu agressor. O fato de sofrer agressão em razão de seu gênero ganhou espaço na luta por direitos, inclusive com a alteração do código penal para a lei do Feminicídio em 2015. Sendo assim, é possível identificar que o Brasil conquistou como nação uma legislação avançada, que tem um poder enorme para salvar as vidas das mulheres que correm perigo, mas infelizmente o nível de impunidade é bastante alto, tendo em vista a quantidade de casos televisionados diariamente nos quais os autores dos crimes têm penas brandas ou muitas vezes não são nem condenados. A violência contra as mulheres é um problema enraizado na nossa história e precisa ser combatido com mais atenção desde a infância, invertendo os valores consumados pela estrutura social entre meninos e meninas, para que haja uma saída de valorização e liberdade das mulheres. Lucas Moreira Pinto Aluno de Sistemas de Informação (EACH-USP) e bolsista do CineGRI Ciclo 2020/2021 #RomperOSilencio #ElesMatamMulheres #ONUMulheres #SOSMulheres #Denuncie Referências Bibliográficas: Ciclo da Violência. Instituto Maria da Penha. Disponível em: . Acesso em: 19 de Maio de 2021. CUNHA, Ana. Cinco Fatos Sobre Direitos das Mulheres no Brasil. Aos Fatos, 2019. Disponível em: . Acesso em: 19 de Maio de 2021. TV Cultura apresenta documentário sobre feminicídio com casos de Eliza Samudio e Mércia Nakashima. Cultura Uol, 2020. Disponível em: Acesso em: 19 de Maio de 2021.

  • “Bela Vingança” e a cultura do estupro

    #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Mulher loira deitada em uma cama olhando diretamente para a câmera, veste uma camisa desabotoada e um blazer preto, é possível ver seu sutiã. Fonte: https://www.minhavisaodocinema.com.br/2021/03/critica-bela-vinganca-2020-de-emerald.html Em fevereiro de 2012, cinco mulheres foram estupradas por dez homens na Paraíba [1]. Em maio de 2015, quatro adolescentes foram estupradas por cinco homens [2]. Em maio de 2016, uma jovem de dezesseis anos foi estuprada por trinta e três homens no Rio de Janeiro [3] Em dezembro de 2018, Mariana Ferrer foi estuprada por um homem em Santa Catarina [4]. Com frequência, noticiários brasileiros divulgam estupros contra mulheres e adolescentes, relatam a crueldade dos agressores e a recorrente impunidade dos crimes. Essa realidade pode gerar um sentimento de revolta e desejo por vingança. Cassie (Carrey Mulligan) em “Bela Vingança” (2020, Emerald Fennell) é a personalização desse sentimento. Cassie era amiga de Nina, uma universitária que foi estuprada em uma festa por seu colega de turma e se suicidou após o responsável ter sido absolvido. A trama do filme gira em torno do plano vingativo de Cassie: atrair homens potencialmente abusadores enquanto finge estar bebâda. Os alvos perpassam diferentes “tipos” de homens: aqueles assumidamente machistas, aqueles que se consideram oprimidos pelo padrão de beleza da sociedade e excluídos e aqueles autointitulados “caras legais”. O que todos possuem em comum? Todos reproduzem a chamada “cultura do estupro”, isto é, reforçam com suas ações e pensamentos a ideia de que a violência sexual contra a mulher é causada pelas circunstâncias nas quais a vítima de encontrava (suas roupas, o lugar em que estava, as pessoas com quem estava). Em outras palavras, esses homens continuamente banalizam o crime, culpam a vítima e diminuem ou anulam a responsabilidade do agressor. Então, a mensagem de “Bela Vingança” é que todos os homens são inerentemente maus? Longe disso, o longa-metragem mostra também esse mesmo discurso sendo propagado por mulheres e expõe como a cultura do estupro está presente na sociedade como um todo e não apenas nas atitudes masculinas. Na mesma linha de pensamento vingativo de Cassie, em 2013, o então deputado Jair Bolsonaro apresentou um projeto de lei que propunha a castração química como punição a estupradores [5]. No entanto, mesmo que sexualmente impotentes, o estupro não é impossibilitado, dado que órgão sexual não é única forma de cometer o delito. Ainda, o “tratamento” proposto não diminui libido ou o pensamento dos agressores. A raiz da cultura do estupro está na educação que ensina aos homens que mulheres são frágeis e suas inferiores e não no desejo sexual. Ao decorrer do filme, o plano de Cassie se dirige diretamente aos responsáveis pelo estupro contra sua amiga e o telespectador acompanha o crescimento da expectativa do encontro da tão esperada “justiça”. Essa catarse nunca é entregue ao público e o que resta é a frustração e o dever de procurar formas de destruir aquilo que causou o estupro e não aqueles que o fizeram. Mariana Ramos Graduanda em Ciências Sociais (FFLCH – USP) e bolsista do Projeto CineGRI. #CulturaDoEstupro #BelaVingança #Justiça #Machismo Referências bibliográficas: [1] MONTEIRO, Isabella. Estupro coletivo e assassinatos em Queimadas. Compromisso e atitude, 2014. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/estupro-coletivo-e-assassinatos-em-queimadas/ Acesso em: 15.05.2021 [2] BRANDINO, Jéssica. Estupros coletivos e feminicídio: O Caso de Castelo do Piauí. Compromisso e atitude, 2015. Disponível em: http://www.compromissoeatitude.org.br/estupros-coletivos-e-feminicidio-o-caso-de-castelo-do-piaui/ Acesso em: 15.05.2021 [3] Menina estuprada por 33 homens no Rio agradece apoio: 'Não dói o útero e sim a alma'. Correio 24 Horas, 2016. Disponível em: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/menina-estuprada-por-33-homens-no-rio-agradece-apoio-nao-doi-o-utero-e-sim-a-alma/ Acesso em: 15.05.2021 [4] BARDELLA, Ana. Mari Ferrer: entenda a cronologia do caso, a denúncia e a sentença. UOL, 2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/11/10/caso-mari-ferrer.htm Acesso em: 15.05.2021 [5] MARQUES, Maria. A castração química impede estupradores? Entenda como o tratamento funciona. UOL, 2016. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/06/17/a-castracao-quimica-impede-estupradores-entenda-como-o-processo-funciona.htm Acesso em: 15.05.2021

  • Olhos que condenam do norte ao sul da América

    No dia 20 de abril, o ex-policial Derek Chauvin foi condenado pela morte de George Floyd. [1] A notícia movimentou as redes sociais e, entre comemorações e posts falando sobre justiça, um debate se destacou: o que essa prisão realmente significa para o sistema racista que motivou a morte de Floyd? Serão as prisões a solução? A discussão não é nova. Abolicionistas penais analisam a questão desde 1970, chamando atenção para o grande crescimento do número de presos atrelado ao lucro das empresas que estão à frente de prisões privadas, os vários casos de condenações incorretas, a cor e nacionalidade dos detentos, dentre outros tópicos que podem ser lidos na matéria “O que defendem os abolicionistas penais”, do Portal Geledés. [2] Os Estados Unidos e o Brasil são centrais nessa análise. Ambos ocupam o primeiro e terceiro lugar, respectivamente, na lista de países com mais presos no mundo. Dos 812 mil presos brasileiros, 63% declaram ser negros. [3] Já entre os estadunidenses, ambas raça e etnia são fatores relevantes – negros e latinos são 30% da população do país e representam 60% da população carcerária. [4] #PraCegoVer [Fotografia]: Na foto, há cinco jovens em uma sala branca com três bancos cinzas e duas janelas que não abrem (há somente vidro). Um jovem negro está encostado na parede e olhando para baixo; outro está em pé no fundo da sala, também olhando para baixo. Três estão sentados, um em cada banco – o primeiro olha para o colega encostado na parede; o segundo está de costas, olhando para a parede; o último está inclinado, olhando para o chão. A “maior democracia do mundo” chama atenção não apenas pelos 2 milhões de presos, mas pela situação na qual são colocados, muitas vezes vítimas de um sistema judiciário falho. Sem direito à defesa e a um julgamento justo, dezenas de homens são culpados por crimes que não cometeram. A série “Olhos que condenam” (Ava DuVernay, 2019) retrata isso. Na narrativa baseada na história real dos Cinco do Central Park, cinco jovens são coagidos a assumirem a culpa pelo estupro de uma mulher branca. No caso real, seis foram indiciados – quatro afro-americanos e dois latino-americanos. Cinco foram condenados a passar entre 10 e 15 anos na prisão por um crime que não cometeram; o sexto réu foi condenado por crimes menores e ficou menos tempo encarcerado. Casos como esse não são raros nos Estados Unidos, que não apenas prende e condena injustamente negros e latinos, mas também os mata. A pena de morte existe em alguns lugares do país e é aplicada de tal forma que, por falta de drogas de injeções letais, a Câmara Estadual da Carolina do Norte aprovou um projeto de lei que permite a volta do pelotão de fuzilamento para cumprir essas penas. [5] Ledell Lee é um dos homens que foi condenado à morte nos EUA. Durante 22 anos ele afirmou que era inocente no assassinato de uma mulher de 26 anos, entretanto, em 2017, foi morto com o uso de drogas letais. Algumas semanas atrás, em maio de 2021, um teste de DNA – que havia sido recusado quando o réu ainda estava vivo – foi realizado na arma do crime e provou que o material genético era de outro homem. Lee era inocente. [6] Essa realidade pode parecer distante ao brasileiro em um primeiro momento, entretanto, não o é. Inspirado na série Olhos que condenam, o Jornal da Cultura realizou uma série de reportagens chamada “Os Olhos que Condenam no Brasil”, contando a história de homens que cumpriram pena por crimes que não cometeram e desenvolveram traumas por conta disso, mostrando que nosso sistema judiciário também está contaminado pelo racismo e por práticas condenatórias que nada resolvem. É aí que entram os abolicionistas, como o professor Luciano Goés, ao defender que “o direito penal não serve como instrumento para impedir crimes”. [7] A prisão não diminui o número de ocorrências e enquanto isso não for compreendido, insistiremos no erro. Ambas as sociedades estadunidenses e brasileiras são punitivistas e racistas, o que se reflete nas políticas públicas de encarceramento adotadas. É necessário debater quem lucra com esse encarceramento, especialmente tendo em vista que prisões privadas estadunidenses movimentam aproximadamente 5 bilhões de dólares ao ano. [8] É necessário debater nossas práticas de punição corporal. É necessário debater o que é “justiça” e como ela é aplicada em cada caso – o que uma pessoa que teve seu celular furtado quer? O que uma mãe que perdeu seu filho quer? É necessário sair da bolha de conservadorismo acerca do tema e começar a repensar práticas que até hoje não funcionam e são utilizadas para incriminar inocentes em sua maioria pobres, negros, amarelos e latinos. O abolicionismo penal já existe para quem pode pagar e para quem nunca é visto pela sociedade como criminoso. Julia Salazar Estudante de Letras na FFLCH e bolsista no CineGRI ciclo 2020-2021. #encarceramento #prisões #sistemajudiciáriobrasileiro #sistemajudiciárioestadunidense #olhosquecondenam Referências Bibliográficas: [1] MANZANO, F; VIDIGAL, L. Júri declara ex-policial Derek Chauvin culpado pela morte de George Floyd. Disponível em: Acesso em: 17 de maio de 2021. [2] Pelo fim do sistema criminal: entenda o que defendem os abolicionistas penais. Disponível em: Acesso em: 18 de maio de 2021. [3] Pelo fim do sistema criminal: entenda o que defendem os abolicionistas penais. Disponível em: Acesso em: 18 de maio de 2021. [4] Examining race and mass incarceration in the United States. Disponível em: < https://hbswk.hbs.edu/item/cold-call-examining-race-and-mass-incarceration-in-the-united-states> Acesso em: 18 de maio de 2021. [5] Estado americano quer volta do pelotão de fuzilamento para condenados à morte. Disponível em: . Acesso em: 17 de maio de 2021. [6] 4 Years After an Execution, a Different Man’s DNA Is Found on the Murder Weapon. Disponível em: Acesso em 18 de maio de 2021. [7] Pelo fim do sistema criminal: entenda o que defendem os abolicionistas penais. Disponível em: Acesso em: 18 de maio de 2021. [8] Nos EUA, penitenciárias privadas estão lucrando mesmo com a queda de detentos. Disponível em: Acesso em: 18 de maio de 2021.

  • Livre pra Poder Voar

    Podem prender nosso corpo, jamais nosso pensamento (LIVRES, 2017) #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: A foto retrata uma cena da série Irmandade (2019), dirigida por Pedro Morelli. Ao centro, o personagem Edson (Seu Jorge) se encontra de braços cruzados. Ele veste uma calça bege e está sem camisa. Ao seu redor, diversos detentos levantam o braço com o punho cerrado. No fundo da imagem, é possível observar uma parte das celas do presídio. Fonte: https://kondzilla.com/m/a-serie-irmandade-retrata-a-guerra-vivida-dentro-do-sistema-penitenciario-brasileiro Segundo o dicionário, “irmandade” significa parentesco entre irmãos, união ou intimidade fraternal. Na série Irmandade (2019), entretanto, o termo adquire uma nova simbologia ao designar uma facção em ascensão. Dirigido por Pedro Morelli, o seriado relata a história da advogada Cristina Ferreira (Naruna Costa), a qual descobre que seu irmão Edson (Seu Jorge) está preso e lidera uma facção. Após uma tentativa falha de ajudá-lo, Cristina acaba sendo coagida pela polícia a se infiltrar na Irmandade e revelar o seu funcionamento. Além da qualidade da produção, Irmandade (2019) também se destaca por oferecer um panorama do sistema prisional brasileiro. Embora seja ambientada em São Paulo nos anos 1990, a denúncia de violação aos direitos humanos em presídios e penitenciárias permanece muito relevante na atualidade. O estado do Pará, por exemplo, vivencia uma situação dramática nos últimos anos. Em julho de 2019, uma rebelião no Centro de Recuperação Regional de Altamira (PA) resultou na morte de 62 pessoas, tornando-se o segundo episódio de violência com maior número de mortes em presídios brasileiros, atrás apenas do massacre do Carandiru em 1992. Segundo denúncias de órgãos fiscalizadores e ativistas dos direitos humanos, a repressão e a humilhação só aumentaram nas prisões paraenses após essa revolta. Ao redor do estado, são registrados casos de tortura, agressão verbal, espancamento, corte de remédios e alimentos. Portanto, a atual crise carcerária exige uma discussão sobre direitos humanos e falhas da justiça brasileira. Entre os diversos problemas enfrentados pelos indivíduos privados de liberdade, encontra-se a superlotação das celas. De acordo com a 14ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o total de pessoas encarceradas sofreu uma variação de 224,5% entre 2000 e 2019. Essa grande evolução da população prisional veio acompanhada por uma escassez no número de vagas: em 2019, o déficit chegava a 312 925 vagas (FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2020). Em virtude dessa situação, detentos precisam cumprir suas penas em celas que excedem a capacidade máxima de lotação, o que impacta diretamente o bem-estar desses indivíduos. No atual contexto de emergência sanitária, esses ambientes se tornaram propícios para a disseminação do vírus da covid-19, por causa da grande aglomeração de pessoas e da ventilação escassa. Portanto, além das diversas complicações trazidas pela superlotação, os internos ainda precisam lidar com o risco de contágio do SARS-Cov-2. Além disso, a pandemia dificulta o contato entre detentos e seus familiares, o que abre margem ao agravamento da violência dentro dos presídios. Um outro fator importante se refere à questão racial. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2020), indivíduos negros [1] compunham cerca de 67% da população prisional brasileira em 2019. O encarceramento proporcionalmente maior de pessoas negras está atrelado ao racismo presente na sociedade e às políticas de extermínio do Estado. Segundo o filósofo camaronês Achille Mbembe, “[...] a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer” (MBEMBE, 2016, p. 123, grifo nosso). Segundo essa perspectiva, algumas vidas são mais valorosas do que outras e – portanto – as agressões impostas a pessoas em situação de vulnerabilidade se tornam socialmente “toleráveis”. Consequentemente, grupos sociais privilegiados não apresentam incentivos para promover o desencarceramento de indivíduos negros. Seria exaustivo listar todas as falhas do sistema prisional brasileiro em um único texto. Entretanto, é possível afirmar que elas afetam um aspecto essencial do cumprimento de pena: a ressocialização. Após a reinserção na vida social, os indivíduos precisam lidar com a falta de assistência do Estado e com o preconceito. Além disso, os traumas psicológicos sofridos durante o período de reclusão têm impactos duradouros. Nesse sentido, a arte pode ajudar nesse processo de transição. Por meio do docudrama Livres (2017), por exemplo, ex-detentos utilizam a arte como instrumento de denúncia. Dirigido por Patrick Granja, o filme retrata a realidade das cadeias brasileiras sob o ponto de vista daqueles que passaram pelo sistema. Além disso, a história do ator Leonardo Campos se apresenta como outro exemplo positivo do papel transformador da arte. Poucos meses após ser liberado da Penitenciária Adriano Marrey, em Guarulhos, Leonardo foi escalado para fazer o personagem Lindão na série Sintonia (2019), dos criadores KondZilla, Guilherme Quintella e Felipe Braga. Essa oportunidade proporcionou novas perspectivas para o artista, amenizando (ao menos em parte) as adversidades da vida após a prisão. Dessa forma, é possível concluir que o sistema prisional brasileiro tem muito a evoluir. Primordialmente, os indivíduos privados de liberdade devem ter seus direitos respeitados como qualquer outro cidadão brasileiro. Antes que esse propósito seja alcançado, debates otimistas sobre os possíveis sentidos para o cárcere no Brasil se tornam indispensáveis. Júlia Cristina Buzzi Graduanda em Relações Internacionais (IRI-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020/2021. #DireitosHumanos #SistemaPrisional #CriseCarcerária #Irmandade Notas e referências bibliográficas [1] Considera os valores informados para presos de cor negra e parda. AMADO, Guilherme. Peritos federais relatam tortura em prisões no Pará sob intervenção do Ministério da Justiça. Revista Época, 2019. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. ANDRADE, Paula. O encarceramento tem cor, diz especialista. Agência CNJ de Notícias, 2020. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. BARBOSA, Catarina. Após série de denúncias de tortura, Justiça proíbe OAB de entrar em presídios do Pará. Brasil de Fato, 2019. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. BARBOSA, Catarina. Um ano do massacre de Altamira: denúncias de tortura e presídios sem fiscalização. Brasil de Fato, 2020. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. BARROS, Betina Warmling; SANTOS, Amanda Laysi Pimentel dos. As prisões no Brasil: espaços cada vez mais destinados à população negra do país. Anuário Brasileiro de Segurança Pública, São Paulo, ano 14, p. 306-307, 2020. Anual. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. FERREIRA, Gabriela. Novos talentos contam como foi participar de “Sintonia”. Kondzilla, 2019. Disponível em: . Acesso em: 04 maio 2021. FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. 14. ed. São Paulo, 2020. 332 p. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios, Rio de Janeiro, v. 32, p. 123-151, dez. 2016. Tradução de Renata Santini. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021. NASCIMENTO, Caio; TUCHLINSKI, Camila. ‘O teatro salvou a minha vida’, diz ex-detento que atuou em ‘Sintonia’. Estadão, 2019. Disponível em: . Acesso em: 04 maio 2021. POTTER, Hyury. Moro diz que não há tortura em presídios no Pará. Presas obrigadas a sentar em formigueiro discordam. The Intercept Brasil, 2019. Disponível em: . Acesso em: 03 maio 2021.

  • O genocídio dentro do genocídio: quem são aqueles que deixam de respirar na pandemia?

    #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Ao fundo, homens negros fazendo referência ao corpo dos jovens negros mortos e desaparecidos. No centro, Maurício (interpretado por Juan Paiva), personagem principal do filme "M-8: quando a morte socorre a vida", 2021. Fonte: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-266428/ O filme M-8: Quando a Morte Socorre a Vida (2021), dirigido por Jeferson De, nos conta a história de um jovem negro chamado Maurício, recém egresso do curso de Medicina em uma Universidade Pública do Rio de Janeiro. A trama se desenrola a partir da relação do jovem com um defunto de pele negra, igual a Maurício, um corpo sem vida, marcado pela identificação burocrática e fria de "M-8". O filme trata sobre processos de genocídio dos jovens negros no Brasil, possibilitando uma reflexão sobre o contexto atual de pandemia e o genocídio que está sendo potencializado no Brasil e nos países de capitalismo periférico, que estruturalmente têm menos recursos para compras de insumo, medicamentos, equipamentos e vacinas para sua população. Maurício é um dos únicos negros da Universidade, e é interpelado, ou melhor, apontado pelo estigma de ser um negro nesses espaços brancocêntricos. O único lugar no qual ele se sente entre seus iguais é entre os funcionários da universidade e com os defuntos usados como estudo na aula de anatomia, dentre eles o cadáver de um jovem negro identificado como M-8. A narrativa do filme se desenrola na tentativa do jovem de saber mais sobre o tal cadáver que o assombra, e, nessa busca, Maurício descobre que M-8 faz parte de um incontável número de jovens pretos desaparecidos. Durante essa procura, o protagonista se depara com um grupo de mulheres negras protestando e rogando pelo retorno de seus filhos, mesmo que estivessem sem vida, pois a dor de não saber onde estão e de não poder enterrar seus mortos é imensurável. Paralelamente, a realidade brasileira de 2021, apesar de nos deixar encontrar os corpos, nega a possibilidade de velá-los e enterrá-los dignamente, com o avanço da pandemia e a superlotação dos necrotérios e dos cemitérios. Nas últimas semanas, o Brasil alcançou a marca de 300 mil mortos pelos números oficiais, com uma quantidade de mortes diárias jamais antes vista, chegando a 3 mil. Com os cemitérios entrando em colapso em todos os Estados brasileiros, já foram encomendadas câmaras frigoríficas para empilhar os corpos. E a pergunta que fica é: de quem são esses corpos, de onde vieram e qual é cor deles? #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: na imagem, o cadáver denominado no filme de M8 (Raphael Logam). Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=uk_rvigyFiQ&ab_channel=ParisFilmes Ao contrário do que foi anunciado no início da pandemia, há um ano, o vírus não é democrático, ele tem classe, CEP e cor de pele [1], e, não por acaso, a primeira vítima em uma das mais importantes cidades do Brasil foi uma mulher preta, empregada doméstica [2], contaminada por sua patroa que contraiu o vírus ao voltar de uma viagem do exterior. Após o vírus sair do Leblon e Morumbi, ele segue avançando pelas comunidades mais pobres do Brasil, onde a pele em sua grande maioria não é alva, e sim pele alvo. Muitos M-8s começam a se empilhar nas valas comuns, e os números quase nos impedem de contar seus nomes e suas histórias. Os protocolos sanitários não permitem que os mortos tenham um enterro digno, algo presente desde os primórdios do nosso processo de socialização enquanto humanidade. Também se engana quem pensa que esse genocídio em curso tem a ver somente com um vírus agressivo, como nos afirma Alysson Mascaro: No fundamental, a dinâmica da crise evidenciada pela pandemia é do modelo de relação social, baseado na apreensão dos meios de produção pelas mãos de alguns e pela exclusão automática da maioria dos seres humanos das condições de sustentar materialmente sua existência, sustento que as classes desprovidas de capital são coagidas a obter mediante estratégias de venda de sua força de trabalho. O modo de produção capitalista é a crise. [...] O flagelo do desemprego, as habitações precárias para suportar quarentenas, as contaminações em transportes públicos lotados e a fragilidade do sistema de saúde são, exata e necessariamente, condições históricas de um modo de produção específico, o capitalismo. (MASCARO, 2020) Algo que completa a afirmação do grande sociólogo brasileiro Darcy Ribeiro, "o Brasil é uma máquina de moer gente", é: de moer gente preta. A crise, o morticínio e o genocídio no Brasil que criaram esses empilhamentos de M-8s têm relação com a própria história do processo de construção desse país, na estruturação do modo de produção capitalista. E o joelho do capital nascido do navio negreiro ainda pressiona os pescoços da classe trabalhadora preta e pobre, que agora morre sufocada sem respirar nas filas dos hospitais aguardando um leito. E a pergunta retórica que fica é: incompetência ou projeto político? Willian Marcos Antonio Silva Graduando em História pela FFLCH-USP #COVID-19 #M-8 #GENOCÍDIO Referências Bibliográfias: [1] JUNIOR, Gonçalo. Risco de morte de negros por covid-19 é 62% maior, diz Prefeitura de SP. Disponível em: . Acesso em: 18/abril/2021. [2] MELO, MARIA. Primeira vítima do RJ era doméstica e pegou coronavírus da patroa no Leblon. Disponível em: . Acesso em: 19/abril/2021. MASCARO, Alysson. Crise e Pandemia. São Paulo: Boitempo, 2020.

  • #StopAsianHate e identidade: o retrato do amarelo nascido no continente americano

    #PraCegoVer [Fotografia]: pessoas protestam com placas em grande cidade contra o racismo direcionado aos asiáticos. Fonte: https://www.indy100.com/news/asian-hate-crimes-new-yorker-b1825037 O ódio e os ataques contra amarelos infelizmente estão se tornando cada vez mais comuns em diversos países ocidentais, especialmente nos Estados Unidos. Autorizados pelo discurso xenofóbico do ex-presidente Donald Trump, o qual diversas vezes se referiu ao coronavírus como “china vírus” e “kung-flu” (kung-febre), notícias de asiáticos sendo vítimas de agressão física, verbal e até homicídios começaram a configurar com frequência nos grandes noticiários do país. Recentemente, no dia 16 de março na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, um homem branco de 21 anos invadiu três casas de massagem e deixou oito mulheres mortas, seis delas descendentes de asiáticos. Perfis de redes sociais do atirador expunham postagens em que o jovem compartilhava discursos de ódio racial, como uma camiseta com os dizeres “Covid-19: vírus importado da China”. Desde então, diversos protestos por todo o Estados Unidos e pelo resto do mundo se espalharam, juntamente com o movimento #StopAsianHate. O medo #PraCegoVer [Ilustração]: Capa de revista. Em uma estação de metrô, uma mulher asiática segura a mão de sua filha pequena enquanto esperam o trem chegar na plataforma. A mãe olha para o relógio atentamente enquanto a filha observa se tem alguém por perto. Fonte: https://www.newyorker.com/culture/cover-story/cover-story-2021-04-05 A importante revista de críticas e ensaios estadunidense New Yorker tem como capa do dia 5 de abril de 2021 uma ilustração que retrata o novo estágio de preocupação de todos os asiáticos e asiático-americanos residentes dos Estados Unidos: o temor pela própria vida e segurança e o impacto psicológico causado com a onda de ódio em que o país vive. Movimentos de resistência A organização Stop AAPI Hate é uma organização que monitora os casos de violência contra asiáticos, asiático-americanos e habitantes das Ilhas do Pacífico no mundo, mas principalmente nos Estados Unidos, onde surgiu. Consumir coisas da cultura asiática, mas não ter empatia pelos asiáticos é uma questão muito abordada pelos movimentos de resistência, que discutem como a desumanização dos corpos asiáticos ocorre pela branquitude que utiliza de estereótipos para sustentar a exploração de mão-de-obra barata dos países dos Tigres Asiáticos, por exemplo. Ouvir k-pop, assistir anime, ler mangá, vestir-se inspirados na moda asiática e comer comida asiática, mas fazer piadas utilizando dos estereótipos e da aparência física é uma forma de violência que invisibiliza o indivíduo, transformando-o apenas em um produto conveniente ao modelo econômico neoliberal. Minari #PraCegoVer [Fotografia]: Pôster de filme. Pai segura a mão do filho pequeno que segura a mão da irmã mais velha que segura a mão da mãe. Estão em um gramado, o menino mais novo sorri, enquanto pai e irmã olham para baixo e a mãe olha para para o lado. Ao fundo, vemos pintada na parede da casa a bandeira desbotada dos Estados Unidos. Fonte: https://a24films.com/films/minari Na corrida para o Oscar de 2021, Minari é um filme estadunidense dirigido pelo diretor Lee Isaac Chung, no qual acompanhamos uma família de imigrantes coreanos em busca do tal “sonho americano”. A dinâmica da família acaba se transformando drasticamente com a chegada da avó da Coreia do Sul. O ator Steven Youn, que protagoniza o longa, é o primeiro asiático-americano a ser indicado ao prêmio de melhor ator no Oscar em 93 edições. Confundido por muitos como um filme coreano (inclusive foi indicado erroneamente como melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro), Minari é um filme estadunidense feito por asiáticos-americanos e coreanos, narrando essa história tão particular que pertence a muitas famílias que migraram em busca de oportunidades em outros países. Ser asiático-americano #PraCegoVer [Fotografia]: Criança está de pé olhando para a avó, que está sentada no chão. Eles se encaram. Estão dentro de casa e é dia. Fonte: https://a24films.com/films/minari A partir do caçula da família, David (Alan Kim), a identidade asiático-americano entra em discussão. O pai durante todo o longa tenta plantar nas terras estadunidenses vegetais coreanos, exemplificando a condição do imigrante que luta em mesclar os dois mundos que formam sua existência. O único da família nascido nos Estados Unidos, David, simboliza através dos embates com a avó, figura anciã que acaba de vir da Coreia do Sul, a condição do asiático-americano. David, apesar de ser filho de coreanos, é estadunidense. Entender sua existência neste espaço entre Coreia do Sul e Estados Unidos é complicado. “Você não é uma avó de verdade”, diz David em um ponto do filme. Mais adiante, a avó responde ao neto: "Você é o menino mais forte que a vovó já viu”. David, que até então combatia essa figura representante da Coreia, aceita enfim seu lugar nos braços dela. Eis o dilema de ser filho de imigrantes tão bem retratado no filme: a eterna condição de estrangeiro, seja no continente americano, seja no continente asiático. E no Brasil? De acordo com o IBGE, cerca de 1,1% da população se autodeclara como amarela, sendo a maior parte de origem japonesa devido à imigração que iniciou-se em 1908, ao chegarem em Santos, no estado de São Paulo. Desde então, o Brasil é o país que abriga a maior comunidade japonesa fora do Japão. Chineses também marcam presença significativa no país, sendo o Brasil o país que mais abriga chineses na América Latina, com cerca de 380 mil pessoas, com presença predominante no estado de São Paulo. A xenofobia contra asiáticos no Brasil não é novidade. Piadas com lojistas chineses e restaurantes e lanchonetes de origem asiática são comuns (quem nunca ouviu alguém comentar que a carne é feita de gato ou de morcego em algum estabelecimento cujo donos são asiáticos?), assim como bullying em ambientes escolares e corporativos com comentários com a estatura; o formato dos olhos, a textura do cabelo e até o suposto formato anatômico dos órgãos genitais e suposições acerca de habilidades intelectuais e comportamentais, fatores que compõem o mito da “Minoria modelo”. É importante sempre ressaltar a pluralidade que forma os asiáticos e descendentes de asiáticos e compor a luta antirracista, tão conveniente à branquitude. Marcela Sayuri estuda Letras Português-Japonês na FFLCH-USP. #StopHateAsian #imigração #asiáticoamericanos #imigrantes Referências Bibliográficas: We Need To Talk About Anti-Asian Hate: https://www.youtube.com/watch?v=14WUuya94QE&t=1875s Cor ou raça. IBGE. Disponível em: . Acesso em: 31 de abril de 2021. WERNER, Luciana. Ódio e preconceito contra asiáticos crescem no Brasil e nos EUA. Projeto Colabora, 25 de maio de 2020. Disponível em: . Acesso em: 31 de abril de 2021. Onda de ataques a asiáticos aterroriza comunidades nos Estados Unidos. Carta Capital, 25 de março de 2021. Disponível em: . Acesso em: 31 de abril de 2021. Stop AAPI Hate. Disponível em: . Acesso em: 31 de abril de 2021.

  • ‘Stop Asian Hate’ e o racismo enquanto política de Estado

    No dia 16 de março de 2021, ataques simultâneos assombraram o estado da Geórgia, nos Estados Unidos. Um homem armado abriu fogo em três casas de massagem, localizadas no condado de Cherokee e Atlanta. Das oito vítimas fatais, seis eram mulheres de origem asiática, fato que evidencia a natureza xenofóbica e racista do ataque terrorista. Desde o início da pandemia global de Covid-19, podemos observar uma tendência crescente de ataques de ódio direcionados à comunidade asiática em todo o mundo. Nos Estados Unidos, discursos racistas proferidos pelo ex-presidente Donald Trump determinam o tom dessas agressões. Por diversas vezes, o político norte-americano usou, de maneira mal-intencionada, o termo “vírus chinês”, em uma tentativa de atribuir a culpa da pandemia ao país asiático, argumento absolutamente desmistificado pelas autoridades científicas, sobretudo, por seu teor racista. Todo esse contexto de escalada do racismo deu origem ao “Stop Asian Hate”, uma campanha coordenada em defesa da população de origem asiática que vive nos Estados Unidos. Protestos populares, fundos de arrecadação e ações nas redes sociais têm se intensificado, em um esforço de levar informação e contrapor os ideais preconceituosos difundidos constantemente. Esse panorama nos permite atestar que o racismo contra a população asiática é algo incontestável, por isso, devemos nos questionar sobre as origens desse pensamento. Será que a pandemia serviu apenas para intensificar esse movimento de discriminação? A resposta para esta pergunta é parte fundamental do enredo de “Minari” (Lee Isaac Chung, 2020). O filme conta a história de uma família coreano-americana, que se muda da Califórnia para uma fazenda no Arkansas, em uma tentativa de se estabelecer financeiramente. Jacob (Steven Yeun) e Monica (Han Ye-ri) trabalham em situação de subemprego numa granja local, enquanto lutam para criar seus filhos Anne (Noel Cho) e David (Alan S. Kim), que sofre de uma doença no coração. A produção trata de temas importantes como identidade, resistência, racismo e assimilação cultural. A avó Soonja, interpretada com maestria por Yoon Yeo-jeong, tem um papel fundamental ao evidenciar os conflitos étnicos-culturais, em seu esforço para se aproximar e entender o estilo de vida de sua família, agora sob solo norte-americano. A jornada de Jacob (Steven Yeun), que tenta a todo custo prosperar e se tornar um homem bem sucedido na década de 80, ajuda a subverter o ideal do "sonho americano” e de uma “América para todos”. Todos os obstáculos e dificuldades enfrentadas pela família são marcas das tensões de um país onde a desigualdade social opera nos campos de classe, raça e gênero. O contexto de violência racial contra a população asiática nos Estados Unidos tem registros históricos muito antigos. A lei promulgada em 1882, que proibia a imigração indianos, filipinos, coreanos e outros países de origem asiática, sob o argumento de resguardar os empregos no país, só evidencia que esse preconceito age de forma sistêmica, evoluindo no decorrer dos anos. No Brasil também podemos observar um panorama similar, com um discurso racista que culpabiliza a China pela pandemia, endossado por figuras do alto escalão de governo, como o presidente Jair Bolsonaro, o ex-Ministro da Educação Abraham Weintraub e o ex-Ministro de Relações Exteriores Ernesto Araújo. Atos que incentivam o ódio racial e evidenciam a manutenção de uma lógica discriminatória, observada em grande parte do Ocidente. É urgente a necessidade de contrapor esses discursos racistas em um esforço conjunto de combate à campanha de desinformação difundida. Neste sentido, é muito importante destacar cada vez mais a cultura específica de todos os países do continente Asiático, dando voz, protagonismo e respeitando o local de fala deles. As soluções para essa questão só podem ser elaboradas quando os locais de poder e diálogo são divididos com aqueles diretamente atingidos pelo preconceito. Plataformas como o “Stop Asian Hate” são um exemplo importante e devem ser cada vez mais difundidos para o alcance de uma reparação histórica. #PraCegoVer [Fotografia]: O personagem Jacob está de camisa bege xadrez e calça jeans azul, abraçado com sua filha Anne que veste um vestido bege. Ela está de mãos dadas com seu irmão David, que está no centro da fotografia. Ele veste uma camisa com listras branca, laranja, azul e bege, além de estar sorridente. David também está de mãos dadas com sua mãe, Monica, que veste camisa rosa e uma saia jeans. Ao fundo vemos uma casa com uma bandeira dos Estados Unidos que cobre toda a sua frente e tem árvores ao seu redor. Fonte: https://www.agazeta.com.br/amp/colunas/rafael-braz/indicado-a-6-oscar-minari-e-otimo-drama-sobre-familia-e-identidade-0421 Yan Carvalho - Ciências Sociais USP #stopasianhate #xenofobia #racismo #ásia #minari Referências Bibliográficas: PADILHA, Alice. ‘Stop Asian Hate’: Entenda o que é e como ajudar o movimento. GQ Globo, 2021. Disponível em: . Acesso em: 15 de abril de 2021 Suspeito de ataques a casas de massagem nos EUA planejava ação semelhante na Flórida. G1, 2021. Disponível em: . Acesso em: 15 de abril de 2021 ORAZEM, Eloá. Ódio contra asiáticos não é novidade nos EUA, e cresce com pandemia. Brasil de fato, 2021. Disponível em: . Acesso em: 15 de abril de 2021

  • Eu só quero é ser feliz

    #PraCegoVer [Montagem]: A imagem retrata diversos jovens em um baile nos anos 80. No centro da imagem, está escrito “Eu só quero é ser feliz - uma breve história do funk carioca”. Fonte: https://www.anf.org.br/anf-20-anos-documentario-eu-so-quero-e-ser-feliz-uma-breve-historia-do-funk-carioca/ Em março desse ano, a Polícia Civil do Rio de Janeiro pediu a prisão de diversos funkeiros, como MC Poze do Rodo e MC Negão da BL, por associação ao tráfico de drogas e infração de medidas sanitárias. A operação policial no Rio não é um caso isolado. Em São Paulo, mandados de busca e apreensão foram emitidos contra MCs paulistas, em uma investigação sobre tráfico de drogas e associação ao tráfico. A perseguição do funk e da cultura da periferia não é novidade. Desde sua criação nos anos 80, os “bailes de corredor” eram frequentemente invadidos pela polícia e os artistas detidos. O curta-documentário “Eu só quero é ser feliz - uma breve história do funk carioca” (André Fernandes, 2016), disponível no canal do Youtube da Agência de Notícias das Favelas [https://www.youtube.com/watch?v=sZ8h_C4ArhY], conta a história e origem do funk que, nascido nas comunidades do Rio de Janeiro, começou com versões brasileiras de músicas estrangeiras. O diretor entrevista artistas como MC Marlboro, MC Galo, MC Geléia e muitos outros pioneiros do funk. O ritmo inicialmente era tocado nos clubes, mas, como já indicava a letra “É som de preto, de favelado”, o funk logo começou a ser perseguido e os clubes de bairro que tocavam os sucessos da comunidade eram fechados ou tinham seu alvará de funcionamento cassados. Assim o funk foi expulso do asfalto e "confinado” no morro. A polícia e o próprio Estado trabalhavam e ainda hoje trabalham contra o lazer e cultura da periferia, dificultando o acesso aos bailes, perto de onde até mesmo motoristas de ônibus são orientados a não parar. A favela e favelado sempre foram retratados na mídia como sinônimos de violência, perigo e ameaça. O funk vem para subverter essa imagem e levantar a autoestima das comunidades, exaltando as belezas e mostrando que, apesar dos problemas, a comunidade não é apenas aquilo que passa nas novelas e jornais. No documentário Cidinho e Doca, os donos dos sucessos Rap da Felicidade e Rap das Armas contam que foram convocados a prestar esclarecimento em uma delegacia sobre a letra de sua última música. Frequentemente as letras que falam sobre o cotidiano dentro das comunidades são relacionadas com a apologia ao crime, mas elas retratam nada mais do que a realidade e o dia-a-dia das favelas. #PraCegoVer [Imagem]: à esquerda um homem usando uma camisa branca, segurando uma câmera gravando dois homens negros: o do meio usa uma blusa com a frase “eu só quero é seu feliz”; o homem à direita utiliza óculos escuros e uma camiseta amarela, com detalhes em vermelho e preto. Fonte:https://www.anf.org.br/documentario-da-anf-conta-os-primeiros-anos-do-funk-carioca/ Desde sua criação o funk é criminalizado, mas o ritmo das favelas é mais do que um estilo de música, é uma forma de dar voz e oportunidade a milhares de pessoas que vivem as mesmas situações e se identificam com essa realidade. A cultura que nasce na periferia não é menos importante do que aquela consumida pelas classes dominantes, ela reflete a vida de um povo que tem sonhos, direitos e, como no título do filme e da música, só quer ser feliz. Gabriela Bucalo Bolsista CineGRI e Graduanda em Geografia FFLCH-USP #funk #cultura #periferia #riodejaneiro #música Referências bibliográficas: BREDÂ, Lucas. Tensão entre o funk e a polícia vive novo auge com caso do MC Poze do Rodo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/07/tensao-entre-o-funk-e-a-policia-vive-novo-auge-com-caso-do-mc-poze-do-rodo.shtml Acesso em: 18 de Abril de 2021 GOUVEIA, Julianne. Documentário da ANF conta sobre os primeiros anos do funk carioca. Disponível em: https://www.anf.org.br/documentario-da-anf-conta-os-primeiros-anos-do-funk-carioca/ Acesso em: 20 de Abril de 2021 SILVA, Fabio. Filme sobre história do funk é lançado no Dia dos Direitos Humanos. Disponível em:https://www.anf.org.br/filme-sobre-historia-do-funk-e-lancado-no-dia-dos-direitos-humanos/ Acesso em: 20 de Abril de 2021

  • O mundo é diferente da ponte pra cá

    Da Ponte Pra Cá é uma das letras mais famosas que compõem o álbum “Nada Como um Dia Após o Outro Dia” do Racionais Mc 's, um grupo brasileiro de rap que surgiu no final da década de 80 e marcou gerações posteriores com suas letras que trazem reflexões sobre a vida dos paulistanos periféricos da cidade de São Paulo. Além disso, suas canções sintetizam muito bem a percepção da comunidade e sua relação com o mundo. Abordar o tema da periferia e discutir a criminalização da cultura periférica, incluindo o rap e o funk é, acima de tudo, compreender a nossa relação histórica com as medidas de repressão às manifestações da cultura e religiões de matriz negra ou africana, que representam uma cicatriz aberta do período escravagista. O que podemos observar desde o Brasil colônia é a manutenção da violência praticada pelo Estado na tentativa de impedir a ocupação de pessoas negras no espaço público. No documentário Racionais Mc’s – 1000 Trutas 1000 Tretas, dirigido por Ice Blue, Mano Brown, Roberto T. Oliveira e João Wainer, conhecemos a trajetória do grupo de rap Racionais Mc’s, que marcou gerações com suas letras que revelam o sofrimento, a violência, o racismo e a precarização das condições de vida na periferia. A narração é feita por Brown. Ele nos conta sobre o surgimento dos bailes black em São Paulo, manifestação artística que esteve ligada ao período pós abolição e também à tentativa do Estado brasileiro de criminalizar a cultura do negro e do afrodescendente. Nesse sentido, observamos o surgimento de práticas culturais que resistiram e se transformaram ao longo do anos. #PraCegoVer: Cena do show feito pelo Racionais Mc's, no primeiro plano da foto temos o rapper Mano Brown cantando. Fonte: https://bit.ly/2PZvcDN Embora o documentário tenha o maior foco no Hip-Hop, Black e Rap, também conseguimos compreender as manifestações artísticas que antecederam o funk. Como diz a letra “Ponta de Lança” do rapper Rincon Sapiência, “música preta a gente assina, funk é filho do gueto, assuma". Essa frase revela o significado da caracterização social e a formação das favelas brasileiras no período pós-abolição. Não existiu projeto de lei para assegurar boas condições de vida às famílias dos recém libertos, o que existiu foi a marginalização e a violência para a população negra desse país. A matéria produzida pelo El País, no dia 07 de dezembro de 2019, nos recorda sobre a violência e a repressão que se forma contra o funk no trecho: "Basta ir a um baile —ou fluxos, como são conhecidos— nas periferias de São Paulo para estar sujeito a tiro, porrada e bomba". Foi o que aconteceu na madrugada do dia 1º, quando uma ação da Polícia Militar na festa conhecida como DZ7, em Paraisópolis, terminou com nove jovens mortos pisoteados depois de serem encurralados pela tropa. O funk expandiu, foi para as plataformas digitais e invadiu as festas das elites brasileiras, mas é uma prática criminalizada no seu lugar de nascimento. Mesmo após as letras do Racionais Mc’s na década de 90 até anos 2000, diversos outros artistas oriundos de espaços periféricos ainda sofrem com a discriminação herdada do período da escravidão, prática que é mantida pelo Estado até hoje, como revela a matéria publicada pelo El País. A música transcende as barreiras, porém o mundo permanece diferente da ponte pra cá. Produzimos arte para divertir a "playboyzada", mas seguimos sofrendo com a violência diária cometida pelas políticas racistas e genocidas desse país. Amanda Escobar Costa Graduanda em História (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020-2021. #racionais #funk #cultura #periferia #rap #hiphop #música Referências bibliográficas: ALESSI, GIL. Do samba ao funk, o Brasil que reprime manifestações culturais de origem negra e periférica. Disponível em: https://brasil.elpais.com/sociedade/2019-12-07/do-samba-ao-funk-o-brasil-que-reprime-manifestacoes-culturais-de-origem-negra-e-periferica.html Acesso em: 15/04/2021 A Criminalização Do Funk VIOLA, KAMILLE . A Criminalização Do Funk. Disponível em: https://revistatrip.uol.com.br/trip/a-criminalizacao-do-funk Acesso em: 15/04/2021 RACIONAIS MC’S – 1000 TRUTAS 1000 TRETAS: http://lisa.fflch.usp.br/node/2050. Acesso em: 15/04/2021 O FUNK CONSCIENTE E AS POLÍTICAS ECONÔMICAS BRASILEIRAS: https://www.youtube.com/watch?v=y8vs5FrpMww. Acesso em: 15/04/2021

  • Wakanda e o Reinado da Representatividade

    A era vem selvagem, Pantera sem amarra Mostra garra negra Eu trouxe a noite como camuflagem Sou vingador, vingando a dor Dos esmagados pela engrenagem (Trecho da canção Pantera Negra, do cantor Emicida) #PraCegoVer [ILUSTRAÇÃO]: No centro da imagem, o herói Pantera Negra olha para o horizonte. Ele está vestindo o seu traje de super-herói, que é todo preto. À sua esquerda, está Okoye (Danai Gurira) e, à sua direita, Nakia (Lupita Nyong’o). Ambas usam um traje de guerreira e seguram armas. Ao fundo, é possível observar uma selva e o pôr do sol. Fonte: https://www.rollingstone.fr/black-panther-roi-mort-vive-marvel/ De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, 46,8% dos brasileiros se declaram como pardos e 9,4% como pretos [1]. Somados, os valores representam mais da metade da população brasileira. Infelizmente, esses números não se refletem em outras áreas, como política, mercado de trabalho e ambiente universitário. Considerando as eleições municipais de 2020, apenas 35,70% dos candidatos a prefeito se autodeclaravam pretos ou pardos segundo estatísticas divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quando a gente olha os resultados do 1º turno, a realidade é ainda mais grave: menos de um terço dos prefeitos eleitos são pretos ou pardos. Assim, fica evidente que existe um grande problema de representatividade em nosso país. No infográfico a seguir, é possível conferir informações mais detalhadas sobre o tema: O que é representatividade? Segundo o Dicionário de Política (BOBBIO, Norberto), a palavra simboliza a expressão dos interesses de um grupo na figura de um representante. No âmbito político, por exemplo, os indivíduos podem influenciar direta e indiretamente a tomada de decisões, cobrando posicionamento adequado de seus representantes. Entretanto, a representatividade também se relaciona com a noção de subjetividade e identificação. Ela é importante para a formação pessoal, a construção de personalidade e o fortalecimento da autoconfiança. Assim, a representatividade de pessoas pardas e pretas em espaços de poder permite o questionamento de preconceitos raciais e a formulação de novos valores sociais. E como tudo isso se relaciona com o cinema? A indústria cinematográfica pode ser uma grande aliada na luta contra estereótipos. Diversificar os personagens que aparecem nas telonas, por exemplo, pode ser o primeiro passo para o questionamento da intolerância e do preconceito, incentivando o senso crítico dos espectadores. Embora tenhamos um longo caminho a percorrer, alguns filmes já contestam a atual estrutura social. Entre eles, podemos citar o famoso Pantera Negra (Ryan Coogler, 2018). Nesse filme, o personagem T’Challa (Chadwick Boseman) precisa proteger Wakanda de vilões que estão interessados no vibranium presente no reino. Por meio dessa história, narrativas pretas são empoderadas e colocadas no centro do debate. Além disso, são abordadas questões como ancestralidade, espírito de união e igualdade de gênero. A tirinha a seguir, de autoria de Leandro Assis e Triscila Oliveira, ilustra a importância do filme no que se refere à representatividade. A partir da identificação com o herói presente na tela, a menina pôde criar uma percepção diferente acerca de sua própria história. #PraCegoVer [TIRINHA]: No primeiro quadro, mãe e filha estão no cinema. A menina pergunta para a mãe se elas vieram de Wakanda e a mãe responde que não. No segundo quadro, elas estão em uma praça de alimentação. A menina questiona a mãe sobre o país de origem da família. A mãe responde que elas vieram da África, mas não sabe especificar o país. No terceiro e último quadro, mãe e filha estão na festa de aniversário da menina. A menina está fantasiada de Pantera Negra e afirma que, como a mãe não sabia responder sua pergunta, ela escolhe que sua família veio de Wakanda. Este ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu um passo importante rumo à maior diversidade. A partir de 2024, serão adotados novos parâmetros para a escolha do Oscar de Melhor Filme. Para concorrer ao prêmio, as produções deverão empregar uma cota mínima de indivíduos pertencentes a grupos sociais pouco representados, como grupos raciais e étnicos, mulheres e pessoas com deficiência. Outro critério sugerido é a trama ser centrada em um desses grupos [2]. Dessa forma, a tendência é que filmes como Pantera Negra ganhem cada vez mais espaço dentro da indústria cinematográfica. Mudanças como essa nos dão esperança em um futuro mais inclusivo, diversificado e acolhedor. Por fim, é importante lembrar que pessoas negras devem ter sua voz respeitada em todas as situações, e não apenas quando o assunto é racismo. Afinal, limitá-las a pautas raciais também é uma forma de silenciamento. Para fazer com que elas conquistem cada vez mais visibilidade, devemos acompanhar e apoiar seu trabalho não somente no Mês da Consciência Negra, mas ao longo de todo o ano. Com certeza, a sociedade tem muito a aprender com as falas de indivíduos negros. Júlia Cristina Buzzi Graduanda em Relações Internacionais (IRI-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020/2021. #Representatividade #PanteraNegra #Vestibular #Eleições2020 #ConsciênciaNegra Notas e referências bibliográficas: [1] Características gerais dos domicílios e dos moradores 2019 PNAD Contínua. IBGE, 2020. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101707_informativo.pdf > Acesso em: 21/11/2020. [2] Os critérios são explicados com maiores detalhes em https://www.omelete.com.br/filmes/oscar-regras-representatividade-2024 BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. 11ª edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. GARÓFALO, Nicolaos. Academia cria regras de representatividade para indicados ao Oscar. Omelete, 2020. Disponível em: < https://www.omelete.com.br/filmes/oscar-regras-representatividade-2024 > Acesso em: 21/11/2020. KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019.

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