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- Wakanda e o Reinado da Representatividade
A era vem selvagem, Pantera sem amarra Mostra garra negra Eu trouxe a noite como camuflagem Sou vingador, vingando a dor Dos esmagados pela engrenagem (Trecho da canção Pantera Negra, do cantor Emicida) #PraCegoVer [ILUSTRAÇÃO]: No centro da imagem, o herói Pantera Negra olha para o horizonte. Ele está vestindo o seu traje de super-herói, que é todo preto. À sua esquerda, está Okoye (Danai Gurira) e, à sua direita, Nakia (Lupita Nyong’o). Ambas usam um traje de guerreira e seguram armas. Ao fundo, é possível observar uma selva e o pôr do sol. Fonte: https://www.rollingstone.fr/black-panther-roi-mort-vive-marvel/ De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, 46,8% dos brasileiros se declaram como pardos e 9,4% como pretos [1]. Somados, os valores representam mais da metade da população brasileira. Infelizmente, esses números não se refletem em outras áreas, como política, mercado de trabalho e ambiente universitário. Considerando as eleições municipais de 2020, apenas 35,70% dos candidatos a prefeito se autodeclaravam pretos ou pardos segundo estatísticas divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quando a gente olha os resultados do 1º turno, a realidade é ainda mais grave: menos de um terço dos prefeitos eleitos são pretos ou pardos. Assim, fica evidente que existe um grande problema de representatividade em nosso país. No infográfico a seguir, é possível conferir informações mais detalhadas sobre o tema: O que é representatividade? Segundo o Dicionário de Política (BOBBIO, Norberto), a palavra simboliza a expressão dos interesses de um grupo na figura de um representante. No âmbito político, por exemplo, os indivíduos podem influenciar direta e indiretamente a tomada de decisões, cobrando posicionamento adequado de seus representantes. Entretanto, a representatividade também se relaciona com a noção de subjetividade e identificação. Ela é importante para a formação pessoal, a construção de personalidade e o fortalecimento da autoconfiança. Assim, a representatividade de pessoas pardas e pretas em espaços de poder permite o questionamento de preconceitos raciais e a formulação de novos valores sociais. E como tudo isso se relaciona com o cinema? A indústria cinematográfica pode ser uma grande aliada na luta contra estereótipos. Diversificar os personagens que aparecem nas telonas, por exemplo, pode ser o primeiro passo para o questionamento da intolerância e do preconceito, incentivando o senso crítico dos espectadores. Embora tenhamos um longo caminho a percorrer, alguns filmes já contestam a atual estrutura social. Entre eles, podemos citar o famoso Pantera Negra (Ryan Coogler, 2018). Nesse filme, o personagem T’Challa (Chadwick Boseman) precisa proteger Wakanda de vilões que estão interessados no vibranium presente no reino. Por meio dessa história, narrativas pretas são empoderadas e colocadas no centro do debate. Além disso, são abordadas questões como ancestralidade, espírito de união e igualdade de gênero. A tirinha a seguir, de autoria de Leandro Assis e Triscila Oliveira, ilustra a importância do filme no que se refere à representatividade. A partir da identificação com o herói presente na tela, a menina pôde criar uma percepção diferente acerca de sua própria história. #PraCegoVer [TIRINHA]: No primeiro quadro, mãe e filha estão no cinema. A menina pergunta para a mãe se elas vieram de Wakanda e a mãe responde que não. No segundo quadro, elas estão em uma praça de alimentação. A menina questiona a mãe sobre o país de origem da família. A mãe responde que elas vieram da África, mas não sabe especificar o país. No terceiro e último quadro, mãe e filha estão na festa de aniversário da menina. A menina está fantasiada de Pantera Negra e afirma que, como a mãe não sabia responder sua pergunta, ela escolhe que sua família veio de Wakanda. Este ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas deu um passo importante rumo à maior diversidade. A partir de 2024, serão adotados novos parâmetros para a escolha do Oscar de Melhor Filme. Para concorrer ao prêmio, as produções deverão empregar uma cota mínima de indivíduos pertencentes a grupos sociais pouco representados, como grupos raciais e étnicos, mulheres e pessoas com deficiência. Outro critério sugerido é a trama ser centrada em um desses grupos [2]. Dessa forma, a tendência é que filmes como Pantera Negra ganhem cada vez mais espaço dentro da indústria cinematográfica. Mudanças como essa nos dão esperança em um futuro mais inclusivo, diversificado e acolhedor. Por fim, é importante lembrar que pessoas negras devem ter sua voz respeitada em todas as situações, e não apenas quando o assunto é racismo. Afinal, limitá-las a pautas raciais também é uma forma de silenciamento. Para fazer com que elas conquistem cada vez mais visibilidade, devemos acompanhar e apoiar seu trabalho não somente no Mês da Consciência Negra, mas ao longo de todo o ano. Com certeza, a sociedade tem muito a aprender com as falas de indivíduos negros. Júlia Cristina Buzzi Graduanda em Relações Internacionais (IRI-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020/2021. #Representatividade #PanteraNegra #Vestibular #Eleições2020 #ConsciênciaNegra Notas e referências bibliográficas: [1] Características gerais dos domicílios e dos moradores 2019 PNAD Contínua. IBGE, 2020. Disponível em: < https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101707_informativo.pdf > Acesso em: 21/11/2020. [2] Os critérios são explicados com maiores detalhes em https://www.omelete.com.br/filmes/oscar-regras-representatividade-2024 BOBBIO, Norberto. Dicionário de Política. 11ª edição. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998. GARÓFALO, Nicolaos. Academia cria regras de representatividade para indicados ao Oscar. Omelete, 2020. Disponível em: < https://www.omelete.com.br/filmes/oscar-regras-representatividade-2024 > Acesso em: 21/11/2020. KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano. 1ª edição. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019.
- Jovem, Talentosa e Preta - Nina Simone e os Direitos Civis
#PraCegoVer: Foto em escuro e claro da cantora Nina Simone, com a legenda: “I was never non-violent. Never.” (tradução livre: Nunca fui a favor da não violência. Nunca.) Fonte: https://yellowevershine.com.br/2019/04/01/nina-simone-talento-e-tormento/ Além de ícone da música, Nina Simone foi peça fundamental no movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos nas décadas de 50 e 60. No documentário “What Happened, Miss Simone?”, que retrata a vida da artista, percebemos que é impossível falar de sua trajetória sem falar sobre a luta pelos direitos civis. Junto a ícones da luta antirracista, como Dr. Martin Luther King Jr., Lorraine Hansberry e Malcom-X, Nina utilizou sua voz como arma de protesto e denúncia contra a violência policial e do Estado. No infográfico abaixo, temos alguns dos principais marcos da luta pelos direitos civis das pessoas negras: Mesmo com a abolição da escravidão nos Estados Unidos, a segregação racial e as leis anti-miscisgenação privavam a população negra o acesso a direitos básicos, como a educação. Em 1955, Rosa Parks foi presa ao se recusar a ceder seu lugar no ônibus para um homem branco, gerando diversos atos e boicotes a empresas de ônibus em todo o país. #PraCegoVer: Foto em claro e escuro, no canto direito vemos um homem de terno, Martin Luther King Jr., acenando para uma multidão durante a Marcha para Washington. Fonte: https://ceert.org.br/noticias/historia-cultura-arte/25628/eu-tenho-um-sonho-lembre-o-lendario-discurso-de-martin-luther-king A música Mississippi Goddam, escrita após um atentado em uma igreja que matou 4 crianças negras, se tornou um hino ativista da causa negra. Nina se apresentou em diversos locais e aproveitou sua visibilidade para falar da desigualdade social e racial. Muitas rádios, teatros e canais de televisão recusavam-se a convidá-la temendo que ela falasse de questões raciais. A Marcha sobre Washington levou milhares de manifestantes para a capital Federal dos Estados Unidos, onde pediam justiça para todos os cidadãos perante a lei e onde o reverendo Dr. Martin Luther King fez o famoso discurso “Eu tenho um sonho”. O assassinato do pastor em 4 de abril de 1968 foi o estopim de diversos protestos e Nina escreveu a música Why? (The King Of Love Is Dead) após a morte de seu amigo. Assim como diz a música de Baco Exu do Blues: “Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos. O primeiro ritmo que tornou pretos livres”, foi através do blues que a pianista clássica não apenas se tornou livre, mas também lutou pela liberdade de seu povo. Gabriela Bucalo Bacharel em Geografia, FFLCH-USP. #NinaSimone #DireitosCivisEUA #MovimentoAntiRacista #MartinLutherKingJR #Racismo Referências bibliográficas: Como se deu a luta por direitos civis nos EUA? https://www.iped.com.br/materias/enem-gratis/luta-direitos-civis-eua.html Acesso em: 21 de novembro de 2020. FERNANDES, Cláudio. Luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Disponível em: https://www.preparaenem.com/historia/luta-pelos-direitos-civis-dos-negros-nos-estados-unidos.htm Acesso em: 21 de novembro de 2020. A Grande Marcha para Washington e a conquista dos diretos civis para os negros nos Estados Unidos https://smabc.org.br/vidasnegrasimportam-a-luta-dos-negros-pelos-direitos-civis-nos-estados-unidos/ Acesso em: 21 de novembro de 2020.
- A Trúfula Perdida e a Questão Ambiental no Brasil
Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza. (KRENAK, 2019, p. 10) #PraCegoVer [ANIMAÇÃO]: No centro da imagem, o personagem Umavez-ildo corta um tronco de trúfula (espécie de árvore). Ele veste um chapéu cinza, uma blusa branca, um colete cinza, uma calça cinza listrada e luvas verdes. Além disso, ele segura um machado com as duas mãos. Atrás de Umavez-ildo, pequenos ursos e aves o observam. O fundo é composto por diversas trúfulas nas cores laranja, amarela, vermelha e roxa. Fonte: http://www.contracenarte.com/2012/04/o-lorax-uma-licao-para-humanidade.html Na cidade de Thneedville, a vida é perfeita (e artificial). Árvores coloridas de mentira, flores de plástico e galões de ar puro enlatado compõem o cenário aparentemente divino que oculta uma história de progresso, ganância e consumismo. Tudo começa com o personagem Umavez-ildo (Ed Helms), que encontra por acaso uma floresta de trúfulas, uma espécie de árvore macia e colorida. Deslumbrado com a possibilidade de riqueza, Umavez-ildo começa a cortar as plantas para produzir um produto milagroso chamado sneed, abalando permanentemente o ecossistema. Anos depois, o jovem Ted (Zac Efron) procura Umavez-ildo para descobrir a verdadeira história sobre as extintas árvores e, após muitos empecilhos, consegue plantar a última semente de trúfula que ainda resta. Por meio da ação de Ted, os moradores de Thneedville finalmente compreendem a importância da natureza e o equilíbrio é restaurado. A história descrita acima constitui o enredo do filme O Lorax: Em Busca da Trúfula Perdida (Chris Renaud, 2012). Infelizmente, o Brasil não possui uma semente de trúfula milagrosa capaz de solucionar os problemas ambientais existentes. Apesar da rica biodiversidade, o país se encaminha para um futuro semelhante ao de Thneedville: o Brasil está entre os 15 países que mais emitiram CO2 em 2019 [1] e lidera o ranking mundial dos países com maior perda florestal entre 2010 e 2020 [2]. Ainda está em tempo de salvar a fauna e a flora brasileiras, mas são necessárias ações urgentes e mudanças drásticas. Sendo assim, entender o atual panorama brasileiro é o primeiro passo em direção à conscientização. Sem dúvidas, a Amazônia Legal constitui uma das áreas mais ameaçadas do país. Segundo dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento na região vem aumentando por três anos consecutivos. No gráfico abaixo, é possível ter uma dimensão melhor da devastação: Muitas vezes feito de maneira ilegal, esse processo acarreta grandes prejuízos ao meio ambiente. Perda de espécies nativas, desertificação e exaustão do solo são apenas alguns dos problemas causados pelo desflorestamento. Afinal, por que há tanto interesse em devastar a Amazônia? Em geral, a cobertura vegetal é retirada para ceder espaço às atividades econômicas, como a plantação intensiva de soja. Maior produtor do país, o Mato Grosso coincidentemente (ou não) apresentou uma das mais altas taxas de desmatamento em 2020 entre os estados integrantes da Amazônia Legal. Embora existam narrativas conflitantes, o cultivo de soja em área devastada é incentivado pela sensação de impunidade e pelos lucros elevados. Infelizmente, os fatores econômicos predominam sobre a preocupação ambiental com frequência. Além disso, o Pantanal é outro bioma brasileiro que tem ganhado espaço na mídia. Entretanto, a notoriedade é decorrente de acontecimentos indesejáveis. Como não lembrar das manchetes jornalísticas anunciando as recentes queimadas na região? Em 2020, a quantidade de focos de incêndio registrada foi a maior desde 1988 [3]. Os números alarmantes parecem quase paradoxais à natureza do Pantanal, maior área úmida da Terra. Por sinal, nem mesmo os rios estão seguros no “reino das águas”. O assoreamento do Rio Taquari, por exemplo, ilustra a situação de forma exemplar. Em virtude das pressões humanas, o curso d’água rompeu suas margens e alagou permanentemente áreas de terra. Assim, famílias foram privadas de seu sustento, pessoas ficaram desabrigadas e animais perderam seu habitat natural. Essa triste situação é representada na obra Ruivaldo, o Homem que Salvou a Terra (Jorge Bodanzky e João Farkas, 2019). O quadro de devastação é tão extenso que se torna impraticável citar todos os problemas ambientais brasileiros neste texto. De qualquer forma, os exemplos mencionados acima são suficientes para soar um alerta quanto à insustentabilidade de nosso atual estilo de vida. Para evitar que o destino do Brasil seja semelhante ao de Thneedville, a sociedade precisa agir (e rápido). Júlia Cristina Buzzi Graduanda em Relações Internacionais (IRI-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020/2021. #Lorax #Natureza #Brasil #Amazônia #Pantanal Notas e referências bibliográficas: [1] CO2 Emissions. Global Carbon Atlas. Disponível em: < http://www.globalcarbonatlas.org/en/CO2-emissions > Acesso em: 16/ 03/ 2021. [2] FAO. Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. Global Forest Resources Assessment 2020: Main report. Roma: FAO, 2020. Disponível em: < http://www.fao.org/3/ca9825en/CA9825EN.pdf > Acesso em: 16/03/2021. [3] HAJE, Lara. Inpe confirma aumento de quase 200% em queimadas no Pantanal entre 2019 e 2020. Agência Câmara de Notícias, 2020. Disponível em: < https://www.camara.leg.br/noticias/696913-inpe-confirma-aumento-de-quase-200-em-queimadas-no-pantanal-entre-2019-e-2020/ > Acesso em: 18/ 03/ 2021. A taxa consolidada de desmatamento por corte raso para os nove estados da Amazônia Legal (AC, AM, AP, MA, MT, PA, RO, RR e TO) em 2019 é de 10.129 km2. INPE Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, 2020. Disponível em: < http://www.inpe.br/noticias/noticia.php?Cod_Noticia=5465 > Acesso em: 16/ 03/ 2021. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: EDITORA SCHWARCZ S.A., 2019. Disponível em: < https://culturapolitica2018.files.wordpress.com/2019/09/ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo.pdf > Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite. Coordenação Geral de Observação da Terra – INPE. Disponível em: < http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes > Acesso em: 16/ 03/ 2021. Soja em números (safra 2019/20). Portal Embrapa. Disponível em: < https://www.embrapa.br/soja/cultivos/soja1/dados-economicos > Acesso em: 18/ 03/ 2021. Taxas calculadas por imagem de satélite pós 2002. Coordenação Geral de Observação da Terra – INPE. Disponível em: < http://www.obt.inpe.br/OBT/assuntos/programas/amazonia/prodes/taxas-calculadas-por-imagem-de-satelite-pos-2002 > Acesso em: 16/ 03/ 2021.
- Brasil: O país do desacordo ambiental
#PraCegoVer: Fotografia de uma mulher usando máscara branca com uma mensagem escrita com tinta vermelha: “SOS AMAZONIA”. No fundo há uma movimentação de pessoas. Fonte: https://www.brasildefatopr.com.br/2019/08/29/queimadas-cresceram-82-no-brasil-em-relacao-a-2018 As políticas ambientais são conjuntos de normas, leis e ações públicas visando à preservação do meio ambiente em um território. No Brasil, essa prática só veio a ser adotada a partir da década de 1930. No entanto, esses acordos que envolvem diversas nações atualmente foram deixados de lado pelo Brasil, como resultado da falta de políticas públicas. Essa falta de amparo governamental é representada cinematograficamente no documentário “Amazônia Sociedade Anônima”, dirigido por Estevão Ciavatta. O drama produzido em 2019, ano anterior às queimadas da maior floresta tropical do mundo, apresenta o fracasso do governo brasileiro em proteger a Amazônia, índios e ribeirinhos. “Amazônia Sociedade Anônima” (2019) assombra como um déjà vu do que aconteceria posteriormente em 2020: uma tragédia nacional que foi um catalisador para deixar o Brasil de fora dos acordos ambientais com outros países. Vale lembrar que todas as questões ambientais que tomaram uma proporção maior no ano que iniciou a pandemia mundial já estavam em desequilíbrio em território nacional, como veremos nos dados a seguir: Os focos de calor predominaram e predominam na região Norte do país, dando ao Amazonas a colocação de 3º estado com mais queimadas, emissões e desmatamento. Esse problema levou o Brasil à lista de países que mais emitiram dióxido de carbono (CO2), o principal gás responsável pelo efeito estufa no mundo. Em época de seca na Amazônia e em outras zonas de florestas do Brasil, a mata torna-se suscetível a incêndios. Porém, no caso das queimadas vistas nos últimos meses, o fogo tem origem majoritariamente na ação predatória de fazendeiros em busca de expansão das áreas de pastagem ou para plantações de soja, por exemplo. Tudo isso contribuiu para que o país se tornasse uma ex potência climática e se afastasse cada vez mais das metas do acordo de Paris. Mas você sabe quais são essas metas e para que elas servem? O Acordo de Paris tem como principal objetivo reduzir as emissões de gases de efeito estufa para limitar o aumento médio de temperatura global a 2ºC, quando comparado a níveis pré-industriais. Essa medida é de suma importância pois a partir dela criam-se expectativas sobre medidas ambientais que impactam o mundo. Para que esses acordos sejam efetivos são realizadas reuniões com líderes de nações, como a “Climate Ambition Summit” (“Cúpula da Ambição do Clima”), que ocorreu em dezembro de 2020 e não contou com a presença brasileira, pois todos esses problemas ambientais concentrados na região Norte do país repercutiram negativamente no mundo e nos deram o título de grande poluidor mundial, junto com México e Estados Unidos. Essa repercussão revela algo muito além dos acordos em que o Brasil ficou de fora, pois tudo isso recai principalmente para a região Norte do país, que sofre com a falta de políticas públicas. Essa falta de amparo é citada no filme por depoimentos de ribeirinhos e ambientalistas, deixando nítido que, na verdade, o Brasil é o país do desacordo ambiental. Pâmela Vitória Graduanda em Letras (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI. #Acordos #Brasil #Amazônia #EfeitoEstufa #Ambiental #Queimadas Referências bibliográficas: CABRAL, Kempson. O que é o acordo de Paris? Disponível em: . (Acesso: 19/03/2021) MODELLI, Laís. Brasil fica de fora de evento da ONU que reúne países que anunciaram metas ambiciosas para redução de gases de efeito estufa. Disponível em: . (Acesso: 19/03/2021) Em 2020, fogo queimou a Amazônia, o Pantanal e a imagem do Brasil. Disponível em: . (Acesso: 20/03/2021) Queimadas impedirão o Brasil de honrar o Acordo de Paris, conclui estudo da UNEMAT e UFMS publicado na Nature. Disponível em: . (Acesso: 20/03/2021)
- O abismo na educação
#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Duas meninas pré-adolescentes estão em bicicletas vermelhas em frente a um muro de uma escola municipal. Ao fundo, crianças observam a movimentação. Extraído de: https://globofilmes.globo.com/uploads/legado/filmes/104/galeria/prodianascerfeliz4.jpg Pro dia nascer feliz/O mundo inteiro acordar/E a gente dormir. Esse é o refrão da música do Barão Vermelho, eternizada na voz de Cazuza. Das interpretações possíveis, pro dia nascer feliz, alguém tem que estar trabalhando enquanto outros dormem. E quem trabalha, não surpreendentemente, faz parte das camadas mais vulneráveis da sociedade. Pro dia nascer feliz é um documentário de 2006 dirigido por João Jardim, que aborda a desigualdade na educação brasileira. Na primeira parte, o documentário expõe a realidade dos estudantes de Manari, interior de Pernambuco, fazendo contraposição na segunda parte com alunos de uma escola no Rio de Janeiro e de uma escola particular localizada no Alto de Pinheiros, o Colégio Santa Cruz, na cidade de São Paulo, ilustrando o abismo da diferença da educação do país. Em um país continental e de herança colonialista como o Brasil, não é de se surpreender que os índices de desigualdade sejam gritantes e que, obviamente, reflitam na educação pública. Em menos de dez minutos de filme, é exposto que o Censo escolar do MEC em 2004 marcava que das 210 mil escolas do país, 13,7 mil não possuíam banheiros, enquanto 1,9 mil não possuíam água. O que não se esperava era que, dezesseis anos depois da finalização do documentário, com a pandemia da Covid-19, a acentuação da desigualdade no âmbito escolar gritaria ainda mais intensamente, considerando que o número de evasão escolar se acentuou, ora pela dificuldade apresentada pelo ensino online ora pela falta de acesso à internet. Sendo assim, em 2020, os números do Censo escolar se encontram desta maneira: E quando falamos em educação, não falamos apenas de estudantes, mas de funcionários de escolas. Professores entrevistados para o documentário alegam o cansaço, o descaso do governo e a falta de manutenção do ambiente escolar que causam desmotivação. Uma das professoras diz: “Estamos vivendo a escola do século passado. Ela não cumpre mais a sua função. Tem que ser repensado.”. E o questionamento é: como tornar o ensino mais horizontal, atual e democrático enquanto todo o resto que permeia é exatamente o oposto desse sonho? E falando em sonho, quais são os sonhos dos estudantes? Quais as vontades, prioridades, realidades, quais as lutas? No documentário é nítido como essas questões mudam dependendo de seu lugar de origem. Um exemplo está nas preocupações das meninas do colégio paulistano de elite. Uma delas se queixou que não gostaria de dedicar seu tempo com caridade, pois isso atrapalharia o horário das aulas de natação. Outra disse que, por ser estudiosa, relacionou-se com apenas um menino durante o ano inteiro e se perguntou se isso a fazia ser menos mulher. Enquanto isso, as garotas do interior pernambucano possuem problemas que superam as vontades e dizem respeito à sua sobrevivência. Valéria, uma das meninas, diz que a acham estranha por gostar de ler. Que gostaria de ir à escola todos os dias, mas não pode, pois tem que ajudar com a renda familiar. Ao final, Valéria, a adolescente pernambucana, lê um poema que escreveu para a aula de português, perguntando qual o sentido da vida. E quem tem essa resposta? A angústia, afinal, é um sentimento universal. O que só muda são os motivos. Marcela Sayuri Graduanda em Letras (FFLCH) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020-2021 #desigualdadesocial #educação #educaçãobrasileira #escolapública #documentáriobrasileiro Referências bibliográficas: Censo Escolar. Disponível em: http://censobasico.inep.gov.br/censobasico/. Acesso em: 23 de fevereiro de 2021. Pro dia nascer feliz (João Jardim, 2006). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nvsbb6XHu_I&t=4024s. Acesso em: 23 de fevereiro de 2021. Pro dia nascer feliz. https://globofilmes.globo.com/filme/prodianascerfeliz/. Acesso em: 23 de fevereiro de 2021.
- Brincando de médico
#PraCegoVer: Imagem de cima de duas meninas brincando de “adoleta”, as duas estão sobre um gramado. Fonte: http://www.diariodecontagem.com.br/Materia/11763/21/museu-inima-de-paula-exibe-documentario-tarja-branca/ A educação é forjada de acordo com as concepções políticas e econômicas de seu respectivo momento histórico e o sistema educacional brasileiro não escapa à regra. Desde a década de 1970, tem sido o neoliberalismo uma das principais correntes ideológicas que norteiam a política, a economia e, por consequência, a educação. Adotado no Reino Unido por Thatcher em 1979 e nos Estados Unidos durante o governo Reagan em 1980, os ideais de livre comércio, valorização do trabalho e a visão de educação como uma mercadoria contaminaram praticamente todos os países da Europa Ocidental e Oriental durante as décadas de 1980 e 1990. Na América Latina, a doutrina neoliberal foi amplamente abarcada pela ditadura de Pinochet no Chile e, no Brasil, teve como grandes adeptos o presidente Collor, se fortalecendo no governo de Fernando Henrique Cardoso (FAGUNDES, 2017). A perspectiva neoliberal de educação, a qual privilegia a formação de cidadãos preparados para o competitivo mercado de trabalho, ignora propositalmente a importância da construção crítica do indivíduo e do desenvolvimento de sua criatividade e subjetividade. Esse movimento se mostra presente desde o início da educação básica, no ensino infantil, que tem como objetivos para seu público-alvo: “Conviver com outras crianças e adultos [...]; Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros [...]; Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana [...]; Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela [...]; Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades [...]; Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural [...]” (BRASIL, 2018, p.3, meu grifo) É a educação infantil a principal encarregada de construir a individualidade e o senso crítico do educando e é também, não aleatoriamente, a fase pedagógica mais menosprezada do ensino básico. Cada vez mais é alvo da escolarização precoce, através da antecipação da alfabetização e de outros conteúdos pertencentes ao ensino fundamental, e da desvalorização do brincar. É dentro dessa crítica que o belíssimo documentário “Tarja Branca – A Revolução que Faltava” (2014) se localiza. Mesclando cenas de brincadeiras e jogos com entrevistas com artistas, psicólogos e pedagogos, o longa-metragem, dirigido por Cacau Rhoden, é praticamente um manifesto de defesa do brincar. O filme mostra os benefícios da ludicidade na infância como forma de experimentação do mundo, desenvolvimento da autonomia e da criatividade e como ferramenta essencial da educação infantil. "Tarja Branca" questiona o avanço da constante necessidade de ocupar o tempo da criança com inúmeras atividades, pensando em "agilizar" seu processo de aprendizado e colocá-la na frente de outras na corrida por uma vaga no ensino superior e no mercado de trabalho. O documentário expõe a contaminação da infância e da educação básica pela competitividade neoliberal e propõe o brincar como “remédio tarja branca” para os grandes males da vida adulta na sociedade moderna, como a ansiedade e a depressão. Mariana Ramos Graduanda em Ciências Sociais (FFLCH – USP) e bolsista do Projeto CineGRI. #brincar #lúdico #educaçãoinfantil #neoliberalismo #tarjabranca Referências bibliográficas: BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2018. FAGUNDES, K. C. A educação para o mercado de trabalho formando indivíduos alienados. Revista online de Política e Gestão Educacional, [S. l.], n. 9, 2017. DOI: 10.22633/rpge.v0i9.9277. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/rpge/article/view/9277. Acesso em: 27 fev. 2021.
- Geopolítica da vacina: apenas nos braços de países ricos
O ano de 2021 começou conturbado em meio à crise mundial de saúde causada pela pandemia. As manchetes dos principais jornais mundiais trouxeram esperanças com a notícia da eficácia das vacinas Pfiser-BioNTech, Oxford-AstraZeneca e a CoronaVac, mas também trouxeram outros dilemas da nossa geopolítica. Foi dada largada na corrida pela vacinação, os países economicamente desenvolvidos garantiram seus estoques e compraram o dobro das doses. Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), três a cada quatro vacinas contra Covid-19 estão em apenas dez países, o que revela as desigualdades sociais e os problemas econômicos enfrentados pelos emergentes. China, Índia, Rússia, Reino Unido e EUA desenvolveram suas próprias vacinas, o que facilitou o salto e a garantia da imunização dessas populações. Enquanto isso, segundo a matéria publicada em 22 de janeiro pelo Jornal Nexo, “39 milhões de doses de vacinas contra a covid-19 são divididas entre 49 países desenvolvidos, um país pobre recebe apenas 25 doses. Essa comparação foi feita pelo chefe da OMS (Organização Mundial da Saúde)”, ou seja, há uma profunda desigualdade entre países ricos e pobres no acesso à vacina. A dificuldade na distribuição e compra dessas doses causam um efeito preocupante, pois os números de contágios são cada vez mais altos e geram novas variantes e mutações do vírus, podendo colocar em risco a eficácia das vacinas desenvolvidas no mundo. #PraCegorVer [FOTOGRAFIA]: Cena do filme Bacurau em primeiro plano temos a frente de um caminhão com uma mulher sentada do lado esquerdo e um homem dirigindo o caminhão do lado direito. Fonte: https://www.bahianoticias.com.br/fotos/entretenimento_noticias/39401/IMAGEM_NOTICIA_5.jpg?checksum=1608045778 Como uma previsão do que estaria por vir ou apenas a leitura da realidade e das dificuldades no acesso a medicamentos e medidas preventivas de saúde, o filme Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019) mostra na primeira cena o trajeto e os percalços da chegada da vacina na cidade de Bacurau, situação comum nos interiores esquecidos do Brasil, onde o acesso à saúde, educação, saneamento básico, entre outros problemas, são parte da desigualdade social no contexto nacional. Nesse sentido, é quase impossível não associar essa cena ao contexto atual: enquanto a vacina chega em alguns lugares do globo de avião, em outros lugares o transporte nem existe. No gráfico abaixo podemos observar o número de doses de vacina contra covid-19 já administradas: Abaixo, os países que já administraram vacinas contra a COVID-19: A matéria publicada em 21 de fevereiro de 2021 pelo jornal Folha de S. Paulo traz a reunião do G7, na qual o presidente da França (Emmanuel Macron) pressiona países ricos a enviar vacinas para África e outras regiões, o destaque foi para a fala de Joe Biden que disse “prioridade é vacinar os americanos”. O que parecia no início da pandemia um problema em escala mundial com uma série de reuniões e declarações diárias nas grandes mídias sobre a importância do isolamento social e a corrida no desenvolvimento de vacinas com apoio de outros países, virou apenas uma disputa para garantir os próprios interesses geopolíticos. O discurso de uma preocupação igualitária mostrou mais uma vez que o sistema econômico está acima das vidas que estão sendo perdidas pelo globo e que a imagem vendida pelos filmes de super-heróis norte-americanos que salvam a humanidade do grande vilão ficaram escondidas nas teias do capitalismo. Amanda Escobar Costa Graduanda em História (FFLCH-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020-2021. #vestibular #vacina #covid-19 #desigualdade #geopolítica #mundo #economia Referências bibliográficas: Mapa da vacinação no mundo: quantas pessoas já foram imunizadas contra covid-19?. Opera Mundi, 2021. Disponível em: CHARLEAUX, João Paulo. A desigualdade entre países ricos e pobres no acesso à vacina Nexo, 2021. Disponível em: . SCOTTIE, Andrew. Desigualdade: 3 a cada 4 vacinas contra Covid estão em apenas 10 países, diz ONU. Disponível em: Tudo que você precisa saber sobre 5 vacinas contra o coronavírus. Disponível em: SÁ, Nelson de. Vacina é para 'braços americanos', respondem EUA; China avança. Disponível em:
- A produção da vacina e os resquícios do colonialismo
“A China, lamentavelmente, já existe um descrédito muito grande por parte da população, até porque, como muitos dizem, esse vírus teria nascido por lá”. A frase proferida pelo presidente Jair Bolsonaro ao se referir à Coronavac, imunizante produzido pelo Instituto Butantã com insumos chineses, serve como um bom panorama para entender a narrativa de descrédito, baseada em ideais racistas e xenofóbicos, que vem se alastrando desde o início da pandemia de Covid-19. Nesta lógica, somente países desenvolvidos economicamente, que tradicionalmente se localizam no centro do sistema capitalista, seriam capazes de oferecer alternativas seguras para conter o vírus. Mas será que isso condiz com a realidade? Dados fornecidos pelo Centro de Estudos de Casos Globais de Covid-19, da Universidade Johns Hopkins, ajudam a evidenciar que essa narrativa não se sustenta. Países com altos índices de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), como os Estados Unidos (0,915), Reino Unido (0,907) e Itália (0,873), registraram muito mais mortes pelo vírus em comparação com nações mais pobres, tais como: Libéria (0,430), Tanzânia (0,521) e Haiti (0,483). É claro que diversas variáveis como nível de testagem e acesso à informação devem ser consideradas, mas, ainda assim, esses números possuem seu valor de comparação. Para além do preconceito existente nos discursos adotados por certas lideranças, também podemos observar como a desigualdade opera no acesso aos insumos e produção das vacinas. Países ricos como o Canadá, por exemplo, adquiriram doses suficientes para vacinar seus cidadãos cinco vezes. Outras nações economicamente desenvolvidas como Estados Unidos e Reino Unido contaram com tecnologia e mão de obra suficientes para desenvolver seus próprios imunizantes, sem depender de insumos estrangeiros. Já nos países que se localizam na periferia do sistema capitalista, com menor capacidade de produção e aquisição de imunizantes, o cenário é absolutamente distinto. Dados da Oxford Martin School afirmam que as regiões Sul-Americana e Africana possuem média de somente 0,11 e 0,01 vacinados por grupo de cem pessoas, respectivamente. Enquanto isso, continentes mais ricos como América do Norte e Europa contam com níveis de 3,21 e 1,65, nessa ordem. #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Dois personagens discutem em frente ao leito de um hospital. O da esquerda segura uma garrafa de água, já o da direita, segura um papel dobrado. Enquanto isso, o médico observa a conversa enquanto coloca sua mão direita sob o paciente deitado na cama e com a mão esquerda segura uma caixa branca, que aparenta ser um medicamento. Fonte: http://www.tropadercy.com.br/2017/09/o-jardineiro-fiel-recomendacao-de-filme.html O filme “O Jardineiro Fiel” (Fernando Meirelles, 2005) aborda as desigualdades socioeconômicas em nível global, em um roteiro de ficção que denuncia crimes cometidos pela indústria farmacêutica, em conjunto com o governo britânico, em solo queniano. Na trama, o diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes) investiga o assassinato de sua esposa Tessa (Rachel Weisz), ativista de direitos humanos morta em circunstâncias suspeitas e pouco esclarecidas. O roteiro levanta questões importantes como a corrupção, a assimilação cultural e as relações desiguais de poder, que permitem um verdadeiro genocídio sob solo estrangeiro, sem nenhuma punição ou investigação, evidenciando a manutenção de um contexto colonialista no continente africano. É inevitável traçar paralelos com nosso contexto atual, no qual direitos humanos fundamentais, como o acesso à saúde pública universal e gratuita de qualidade, ficam à mercê de interesses econômicos, capitaneados por nações ricas e grandes corporações. A pandemia de Covid-19 serviu para evidenciar que estamos longe de viver em mundo igualitário. A capacidade de resposta às catástrofes e desastres naturais estão diretamente ligadas à capacidade produtiva e riqueza econômica das nações. O investimento em ciência, tecnologia e educação são fundamentais para garantir que todos os países estejam preparados para responder à altura aos próximos desafios que o futuro nos reserva. Yan Carvalho Graduando em Ciências Sociais #coronavac #vacina #desigualdade #meirelles #geopolítica Referências bibliográficas: CHARLEAUX, João Paulo. A desigualdade entre países ricos e pobres no acesso à vacina Nexo, 2021. Disponível em: . Acesso em: 20 de fevereiro de 2021 Covid-19: África lança rede para estudar o novo coronavírus. DW, 2020. Disponível em: . Acesso em: 20 de fevereiro de 2021 Mapa da situação. Correio da Manhã, 2021. Disponível em: . Acesso em: 20 de fevereiro de 2021 Mapa da vacinação no mundo: quantas pessoas já foram imunizadas contra o Covid-19?. Opera Mundi, 2021. Disponível em: . Acesso em: 20 de fevereiro de 2021
- Pandemia, desemprego e saúde mental: dá pra se adaptar?
#PraCegoVer: Acima, há duas imagens. À esquerda, há o casal do filme Os sentidos do amor, formado por um homem e uma mulher. Ambos se beijam, mas estão usando máscaras que cobrem nariz e boca. À direita, há uma fila cercada por grades com várias pessoas alinhadas. Não podemos ver onde ela termina. Uma placa na entrada diz "Fila mutirão do emprego". Fontes: http://blog.parperfeito.com.br/dicas/6-filmes-de-romance-para-te-inspirar/attachment/sentidos-do-amor/ e https://imagens.ebc.com.br/l0HFQU772Zt1CuIa5egPyYiYI2g=/1170x700/smart/https://agenciabrasil.ebc.com.br/sites/default/files/thumbnails/image/img_0343.jpg?itok=LB1MZJG5. O filme Os sentidos do amor (David Mackenzie, 2011) muito tem em comum com o momento pelo qual estamos passando. Nele, uma epidemia desconhecida assola o mundo da noite para o dia. Ninguém conhece precedentes da doença, não há cura, os médicos não sabem como tratar, ela é contagiosa e, dentro de pouco tempo, está sendo espalhada por todo o planeta. As pessoas sentem emoções muito fortes e, quando isso passa, elas não têm mais um dos cinco sentidos. A primeira emoção é uma tristeza profunda: choro, desesperança, sensação intensa de vazio; pessoas tendo ataques de choro no meio da rua, gritando e desesperadas. Quando passa, todos os que tiveram os sintomas perdem o olfato. Isso acontece progressivamente até que todos os sentidos sejam eliminados. Mesmo assim, em meio ao caos, o filme tem uma mensagem positiva: um casal é o plano de fundo da narrativa e eles aprendem, a cada vez que perdem um sentido, a se adaptar. Há uma bela “moral da história” sobre adaptação e superação das adversidades. Entretanto, é necessário tomar cuidado com essa narrativa de que encontrar uma solução depende única e exclusivamente dos indivíduos — o famoso “dar um jeito”. Calma! Não é que não tenhamos que procurar alternativas às situações nas quais a pandemia nos colocou. Muito menos que não precisamos encontrar meios de contornar tudo o que está acontecendo. Mas precisamos pensar a quem é dada a oportunidade de adaptação, com cautela, a fim de não individualizar questões coletivas e de responsabilidade externa. Periodicamente, elegemos cidadãos para ocupar cargos de governança e gerir o país dentro de uma crise – seja ela financeira, de saúde ou qualquer outro tipo. O que essas pessoas estão fazendo? Um estudo realizado pela Pnad Covid-19 mostra que, em 4 meses, o desemprego cresceu 27,6% no Brasil [1]. Abaixo, podemos conferir os dados: Mesmo dentro dessa realidade, no dia 4 de novembro, foi votado no Codefat (Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador) o aumento da quantidade de parcelas de pagamento do seguro-desemprego para quem foi demitido durante a pandemia [2]. O resultado? Negativo. Não apenas o Conselho votou pelo não pagamento de mais parcelas, como também colocou diversos trabalhadores em uma encruzilhada: quem foi demitido no início da pandemia usufruiu do seguro-desemprego, mas agora ficou sem, não pode mais solicitar o auxílio emergencial, pois o prazo terminou em julho. Não há assistência a esses trabalhadores e, mesmo assim, é pedido a eles que "se adaptem". Como se pode cobrar deles algum tipo de adaptação quando não há emprego e quando não se pode nem sair de casa de modo seguro para ganhar dinheiro em ocupações informais? Os impasses não acabam aí. Além do desemprego, a pandemia acarretou uma série de problemas emocionais que atingem as mais diversas pessoas, de diferentes classes, cores, idades e gêneros. Estresse, insatisfação, tristeza, mal estar e noites mal dormidas são apenas alguns dos sintomas que a população tem enfrentado nos últimos meses. Abaixo, temos informações mais detalhadas sobre isso: É perceptível que boa parte da ansiedade causada se dá pela preocupação com a instabilidade financeira gerada pelo contexto em que estamos inseridos – algo que podemos ver na série Distanciamento Social (Hilary Weisman Graham e Jenji Kohan, 2020, disponível na Netflix). No episódio “Poderíamos todos navegar juntos pelo oceano”, uma mãe, que é cuidadora de uma senhora, precisa continuar trabalhando. Entretanto, como as escolas estão fechadas, ela não tem com quem deixar sua filha. A solução encontrada é instalar câmeras dentro do apartamento e checar a menina constantemente pelo celular. Porém, em determinado momento, a clínica onde a senhora fica entra em quarentena — não será possível sair ou entrar durante duas semanas. A mãe se vê, então, na situação de precisar decidir entre seu trabalho, de cujo salário precisa, e ficar com a filha. A solução encontrada é deixar a menina com a filha da senhora, que é professora. O convívio das duas não começa muito bem — a mulher, que mantém bem sua figura de “independente e sem filhos”, não consegue lidar com uma criança interrompendo suas aulas, que já não iam bem devido à pouca colaboração e interesse dos alunos. Nesses 20 minutos de episódio, é possível identificar várias situações com as quais nos relacionamos: o medo do desemprego, ter que abrir mão do isolamento social seguro na sua própria casa porque seu trabalho não comporta home office, a dificuldade de dividir o mesmo espaço constantemente com as mesmas pessoas, as adversidades que tanto professores quanto alunos encontram no sistema remoto, dentre outros. Delas, fiquemos apenas com o desemprego. Se essa mãe não tivesse encontrado alguém para cuidar de sua filha, ela precisaria renunciar à sua única fonte de renda? Aqui, foi possível encontrar uma alternativa e se adaptar, mas e quando não dá? Como está a saúde mental dessa mãe longe da filha durante 2 semanas e como ficaria caso estivesse com a criança, mas desempregada? O Brasil passa por um delicado momento em sua história e, infelizmente, milhões de brasileiros estão abandonados à própria sorte. A crise não se vê apenas no aumento do desemprego ou no preço do dólar, mas também nas diversas pesquisas relacionadas à saúde mental apontando para um povo cansado, triste, estressado e sem esperança de melhora. Segundo pesquisa realizada pelo King’s College, há 17 anos, durante a pandemia de SARS, os casos de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático aumentaram em 30% dentre os indivíduos que cumpriram quarentena na China, o país mais afetado. Não é apenas difícil falar em adaptação nesse cenário, mas também injusto e cruel com muitas pessoas. Muito se fala — merecidamente — no heroísmo de nossos médicos e enfermeiros nas linhas de frente, profissionais essenciais nesse momento. Mas e quem cuida dos nossos desempregados e depressivos? Nossas políticas e agendas públicas pendem sempre — e no cenário pandêmico mais ainda — para deixá-los sozinhos e desamparados. A eles restam somente o peso da culpa e o fardo da adaptação. Referências Bibliográficas [1] CAMPOS, Ana Cristina. Desemprego subiu 27,6% em quatro meses de pandemia. Dados são da pesquisa Pnad Covid-19 do IBGE. Disponível em: Acesso: 08/11/2020 [2] Conselho rejeita parcelas extras do seguro-desemprego na pandemia: Apoiada por representantes sindicais, a proposta não contou com os votos dos empregadores e do governo. Disponível em: . Acesso: 08/11/2020. BIERNATH, André. A epidemia oculta: saúde mental na era da Covid-19. Na esteira do coronavírus e seus desdobramentos, transtornos psicológicos como ansiedade e depressão representarão uma segunda onda de estragos à saúde. Disponível em: . Acesso: 08/11/2020. HARTMANN, Paula Benevenuto. "Coronafobia": o impacto da pandemia de Covid-19 a saúde mental. Disponível em: Acesso: 08/11/2020.
- Coringa e a negligência com as doenças mentais
#PraCegoVer [FOTOGRAFIA] : Homem parado em frente a um espelho com o rosto pintado como um palhaço, com as cores branco, azul e vermelho, vestido com uma camisa verde, um colete amarelo e um paletó vermelho. No espelho está escrito em vermelho “Put on a happy face” (Coloque um sorriso no rosto, em tradução livre). Fonte: http://www.adorocinema.com/noticias/filmes/noticia-150859/ O filme Coringa (Todd Phillips, 2019) conta a origem desse vilão dos quadrinhos. Apesar de ser um filme de super-herói, levanta a importante pauta da saúde mental, tema que foi abordado na redação do ENEM deste ano. Quando o palhaço profissional Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) tem seu tratamento psiquiátrico interrompido devido aos cortes de gastos do governo e sem ter a possibilidade de arcar com os custos com remédios e terapia, vemos como a negligência do Estado e a exclusão promovida pela própria sociedade ao não saber lidar com os diferentes colabora para a piora de Arthur até se tornar o vilão Coringa. Nos Estados Unidos cerca de 37% dos detentos possuem histórico de doença mental [1]. A falta de políticas públicas e centros de tratamento especializados acabam sobrecarregando o sistema carcerário do país. Além de serem taxadas como violentas e perigosas, as pessoas com transtornos mentais que não possuem condições de pagar pelo tratamento adequado, muitas vezes são encaminhadas para o sistema prisional, tendo em vista que os hospitais estadunidenses podem se recusar a receber pacientes sem condições financeiras. #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Imagem de uma mulher negra, com a boca entreaberta com a legenda “Esta é a última vez que nos encontramos.” Fonte: https://hqscomcafe.com.br/2019/10/08/5-grandes-momentos-que-transformara m-arthur-fleck-em-coringa/ Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 3% da população geral brasileira sofre com transtornos mentais severos e persistentes [2] e graças ao Sistema Único de Saúde milhares de pessoas têm acesso ao tratamento gratuito e de qualidade, com profissionais especializados, como psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, enfermeiros e também acesso à medicação gratuita. Seja em uma das unidades do CRAS (Centro de Referência de Assistência Social), em AME’s (Ambulatórios Médicos Especializados) ou até mesmo no posto mais próximo da sua casa, é possível ter acompanhamento psicológico totalmente gratuito. Em 2001, a Luta Anti Manicomial conseguiu, com a Reforma Psiquiátrica, mudanças no modelo de tratamento das doenças mentais e ao invés de isolamento, foi aprovado que o convívio com a família e a comunidade seriam essenciais para a reabilitação e tratamento dos pacientes. É importante reforçar que Saúde Mental é uma questão de Saúde Pública, também sendo necessário que essas pessoas sejam incluídas e amparadas pela sociedade, a exclusão e o encarceramento dessa parcela vulnerável da população não são a saída. A defesa e proteção do SUS é papel de todos. Se o tratamento de Arthur não tivesse sido cortado, talvez o desfecho da história fosse completamente diferente. Gabriela Bucalo Bolsista CineGRI Ciclo 2020/2021 e Graduanda em Geografia (FFLCH-USP) #Coringa #SaúdeMental #SUS #SaúdePública Referências bibliográficas: [1] ORAZÉM, E. Saúde mental nos EUA: enquanto hospitais negam pacientes, cadeias nunca dizem não. Disponível em: . Acesso em: 10/02 [2] Saúde Mental. Disponível em: Acesso em: 30/01
- Anatomia do Medo
#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: Cena do filme “Anatomia do Medo” (Ikimono no kiroku, Dir. Akira Kurosawa, 1955). Imagem em preto e branco, à frente um homem idoso, ajoelhado no chão enlameado, em meio a destroços. O homem está prostrado, com as mãos nos joelhos, olhando para o lado, os lábios rígidos e a testa franzida. Assolado pela pobreza e violência, o Japão pós-Segunda Guerra passava por mudanças institucionais e sociais que, por seu turno, despertaram intensos conflitos geracionais. Esse cenário estimulou o profícuo cinema japonês das décadas seguintes, desde os delicados dramas familiares de Yasujirō Ozu, até os filmes de gangsters e Noirs, como os de Seijun Suziki e Takashi Nomura, passando pelos melodramas, que retratavam especialmente a condição feminina em uma sociedade em transformação. Poderíamos discorrer sobre o que o cinema japonês produziu do período por páginas e páginas, e valeria a pena! Mas há um elemento que perpassa quase toda essa produção: a ansiedade e o medo, causados tanto pelos traumas da guerra quanto pela insegurança em relação às mudanças sociais. Akira Kurosawa (1910-1998) soube retratar com maestria a convulsão social e moral japonesa em “Anatomia do Medo” (Ikimono no kiroku, 1955). Nesse filme, o diretor contempla com especial atenção o trauma social causado pelos ataques atômicos a Hiroshima e Nagazaki (agosto de 1945). Assistir a esse filme em um momento em que o medo, a insegurança e a ansiedade causadas pela pandemia do coronavírus são marcantes em nossas vidas é uma experiência particularmente reveladora. Kiichi Nakajima (Toshiro Mifune), um idoso e proprietário de fundição, está convencido de que uma guerra nuclear pode se iniciar a qualquer momento. Na tentativa de proteger sua família, Nakajima primeiro investe em um bunker anti bombas. Em seguida, decide que isso não é suficiente, e que o único lugar onde ele e sua família estariam a salvo seria numa fazenda no Brasil. Suas atitudes começam a gerar desentendimentos na família, os filhos sentem que o pai não é mais capaz de administrar o patrimônio, e entram com uma petição para considerá-lo mentalmente incapaz. Inegavelmente, Nakajima está tomado pelo medo de forma patológica. Outras pessoas, enxergando de sua angústia, tentam acalmá-lo dizendo que não é preciso se preocupar tanto. Mas, como se pergunta um dos médicos convocados para analisá-lo, as coisas não são tão simples. “O que ele sente não é o mesmo que todos os japoneses também sentem?”, o médico se pergunta, “como nós podemos afirmar que ele foi longe demais? [...] nós não podemos, justificadamente, não levar a sério o medo que ele sente”. Os traumas sociais causados por grandes conflitos e, especificamente no Japão, pelo ataque nuclear, não podem ser ignorados. Não basta dizer que é preciso superar e continuar a vida porque “todos vamos morrer um dia”, como diz um dos filhos da Nakajima. “Todos vamos morrer um dia, mas eu não serei assassinado!”, ele responde, surpreendendo a todos na sala de audiência. A forma como Mifune interpreta o desespero do personagem é sutil e excêntrica ao mesmo tempo. Não somos levados a desqualificar as ações de Nakajima. Kurosawa nos faz enxergar que o protagonista de fato precisa de ajuda, mas também nos leva a entender seu medo. Substitua o medo da guerra pelo medo da contaminação e temos processos parecidos: pessoas que enfrentam a ansiedade caladas, sabendo que não têm como fazer muito pelos seus amigos e familiares, cada vez mais isoladas em sua angústia, se sentindo abandonadas porque os outros parecem não levar as coisas tão a sério, e o filme se mostra um ótimo reflexo do que muitos de nós podem estar sentindo. No final das contas, é preciso viver, como afirmam os filhos de Nakajima, mas isso não significa que podemos ignorar a angústia de quem não consegue facilmente superar ou lidar com esses problemas. Quando pensamos em saúde mental, a ajuda deve vir acompanhada da compreensão das causas diversas desses medos, da depressão e ansiedade. Laura Pimentel Barbosa Doutoranda em Ciência Política pela FFLCH-USP, Mestre em Ciências Sociais pela Unesp, e Bacharel em Relações Internacionais pela UNESP. Nota: A autora agradece a Caio Motta por apresentá-la a esse universo do cinema. Referências Filme: Anatomia do Medo (Ikimono no kiroku), Dir. Akira Kurosawa, Japão, 1955.
- Para além da ficção: uma análise sobre as doenças mentais e a sociedade
#PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: No centro da imagem, a personagem Nina (Natalie Portman) se encara no espelho. Ela está usando uma blusa branca, um casaco lilás e seu cabelo está preso em um coque alto. É possível ver a imagem de Nina refletida múltiplas vezes no espelho. Fonte: http://redeglobo.globo.com/novidades/filmes/noticia/2016/09/corujao-tem-natalie-portman-no-premiado-cisne-negro-segunda.html A pandemia do coronavírus afetou profundamente a saúde mental de crianças, jovens e adultos. Durante o primeiro semestre de 2020, 40% dos brasileiros se sentiram tristes ou deprimidos com frequência e 53% experimentaram sentimentos de nervosismo ou ansiedade regularmente [1]. Esses dados chamam atenção para a questão das doenças mentais, que por muito tempo foram tratadas como tabus sociais. Embora a pandemia tenha servido como agravante, os transtornos psicológicos eram uma realidade para muitos indivíduos antes mesmo da disseminação da Covid-19. Infelizmente, o preconceito ainda é muito recorrente quando se fala sobre doenças como depressão, ansiedade ou transtorno afetivo bipolar, sendo urgente uma conscientização social para que todos possam ter sua vivência e seus direitos respeitados. Para que seja possível um debate amplo sobre o tema, é necessário compreender o que são doenças mentais. Essas patologias envolvem uma combinação de mudanças no pensamento, nas emoções e no comportamento. Uma reportagem escrita por Luana Viana e veiculada no site do Dr. Drauzio Varella ressalta que “A maioria das doenças mentais pode ser tratada de maneira eficiente quando existe o diagnóstico preciso e os pacientes são inseridos em um ambiente acolhedor e social. Tratamentos evoluem continuamente, mas no que concerne ao acolhimento, cabe à sociedade como um todo reconhecer cada indivíduo como cidadão e ajudar a acabar com a discriminação e preconceito tão enraizados em cada um de nós.” “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.” A partir desse trecho da canção Dom de Iludir, é possível continuar a discussão sobre o tema. Embora o desenvolvimento de transtornos mentais englobe múltiplos fatores, esses casos são constantemente encarados como fraqueza pessoal ou frescura. Isso deriva de uma visão equivocada que desconsidera as particularidades de cada um, afinal vidas aparentemente perfeitas podem ocultar angústias, medos e inseguranças. O filme Cisne Negro (Darren Aronofsky, 2010) retrata essa realidade por meio da história de Nina (Natalie Portman), bailarina que almeja o papel principal na releitura da apresentação O Lago dos Cisnes promovida pela Companhia de Balé de Nova York. Apesar de sua carreira estar no auge, a personagem passa a vivenciar crises de alucinações e perseguição que abalam profundamente sua saúde mental. Assim, a obra propõe um debate acerca do limite tênue entre realidade e devaneio, dedicação e obsessão, sanidade e insanidade. Em suma, é importante combater o julgamento implacável e lembrar que o indivíduo não deve ser ridicularizado por sua condição. #PraCegoVer [FOTOGRAFIA]: A imagem é composta por duas fotos em sequência. A primeira foto mostra Forrest Gump (Tom Hanks) sentado em um banco de madeira. Já a segunda foto mostra Forrest conversando com uma mulher que está sentada nesse mesmo banco. A imagem apresenta uma legenda em amarelo que declara: “Minha mãe dizia que a vida é como uma caixa de bombons... Você nunca sabe o que vai encontrar.” Fonte: https://www.legendasamarelas.com/2020/10/frases-forrest-gump.html Além do mais, as doenças mentais não devem ser encaradas como uma condenação. Com o diagnóstico e o tratamento adequados, é possível atenuar o sofrimento causado por esses transtornos. Dessa forma, o indivíduo pode desenvolver todas as suas capacidades e ter uma vida venturosa (marcada por alguns momentos de infelicidade, como qualquer outra). Por exemplo, o filme Forrest Gump – O Contador de Histórias (Robert Zemeckis, 1994) retrata uma história bem diferente daquela vivenciada por Nina, personagem mencionada no parágrafo anterior. O protagonista Forrest Gump (Tom Hanks) passa por momentos inusitados ao longo da obra, entre os quais estão a sua participação na Guerra do Vietnã, o seu encontro com Elvis Presley e John Lennon, além da sua famosa corrida pelos Estados Unidos. Apesar de não haver menção direta ao assunto, Forrest apresenta um diagnóstico muito semelhante à Síndrome de Asperger, condição que afeta principalmente a comunicação e a interação social. Assim, o filme retrata a convivência com os transtornos mentais de uma forma bastante instrutiva e envolvente, ajudando a desconstruir os estigmas existentes. Por fim, é fundamental ressaltar que histórias como a de Nina e Forrest existem para além da ficção. No mundo real, esses indivíduos ainda são expostos a diversos tipos de violência e preconceito, sendo nosso dever reverter esse quadro. Afinal, dignidade, liberdade e inclusão social são direitos de todos. Conhecida por revolucionar e humanizar o tratamento mental no Brasil, Nise da Silveira declarou “Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas.” Júlia Cristina Buzzi Graduanda em Relações Internacionais (IRI-USP) e bolsista do Projeto CineGRI Ciclo 2020/2021. #Mente #Estigma #Preconceito #DoençasMentais #SaúdeMental Notas e referências bibliográficas: [1] As porcentagens apresentadas são referentes a indivíduos de 18 anos ou mais. Os dados foram extraídos do estudo ConVid Pesquisa de Comportamentos, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). ConVid Pesquisa de Comportamentos. Fiocruz, 2020. Disponível em: < https://convid.fiocruz.br/ > Acesso em: 01/02/2021. RIBEIRO, Maiara. Síndrome de Asperger é a mesma coisa que autismo? Portal Drauzio Varella. Disponível em: < https://drauziovarella.uol.com.br/neurologia/sindrome-de-asperger-e-a-mesma-coisa-que-autismo/ > Acesso em: 03/02/2021. Saúde Mental. Hospital Israelita Albert Einstein. Disponível em: < https://www.einstein.br/saudemental > Acesso em: 01/02/2021. SETÚBAL, José Luiz. Síndrome de Asperger. Hospital Infantil Sabará, 2017. Disponível em: < https://www.hospitalinfantilsabara.org.br/sintomas-doencas-tratamentos/sindrome-de-asperger/ > Acesso em: 03/02/2021. Transtornos mentais. OPAS Organização Pan-Americana da Saúde. Disponível em: < https://www.paho.org/pt/topicos/transtornos-mentais > Acesso em: 01/02/2021. VIANA, Luana. Falta de informação ajuda a estigmatizar transtornos mentais. Portal Drauzio Varella, 2017. Disponível em: < https://drauziovarella.uol.com.br/reportagens/falta-de-informacao-ajuda-a-estigmatizar-transtornos-mentais/ > Acesso em: 02/02/2021.
















