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  • HOLODOMOR, O GENOCÍDIO UCRANIANO

    As tensões entre a Rússia e a Ucrânia são antigas, com Kiev sempre saindo com mais perdas. #ParaTodosVerem: fotografia de uma estação de energia em Luhansk, Ucrânia, após ter sido bombardeada. Da esquerda para a direita é possível observar um homem vestido com um uniforme laranja, veste uma touca preta, o uniforme aparenta fornecer proteção contra o frio. Há uns containers cinzas ao fundo e um pequeno prédio rosa com telhado em forma de pirâmide, possui uma chaminé. Na extrema direita da fotografia, há torres e muita fumaça saindo do meio delas. Tornando o céu cinza. Disponível em: https://www.nytimes.com/live/2022/02/22/world/russia-ukraine-biden-putin#saying-russia-created-ukraine-putin-orders-troops-to-2-breakaway-regions O comunismo soviético trouxe diversas perdas e mortes aos inimigos da antiga URSS, mas a Ucrânia de 1930, sem dúvida, pode ser retratada como uma das principais lesionadas por esse regime autoritário. Stalin precisava de uma Moscou forte e abastecida, para impulsionar a força da URSS e torná-la grandiosa, para isso estabeleceu metas de colheita em países que faziam parte da grande nação, entre eles estava a Ucrânia. Quando foram notificados que as terras de pequenos e grandes fazendeiros pertenciam ao Estado e que deveriam produzir e enviar essa produção ao grande líder, os ucranianos não ficaram felizes, mas o que poderia se tornar um movimento contra a URSS foi rapidamente podado, com os soldados do exército vermelho executando possíveis líderes e intelectuais do movimento, porém, Stalin não achou a repreenda o suficiente e impôs uma meta altíssima, um “modelo” de colheita para a Ucrânia. Os camponeses, sob a vigilância constante do Estado, eram obrigados a retirar sua parte de sobrevivência da colheita para bater a meta estipulada e quem fosse pego armazenando comida, para sobreviver, era punido em campos de concentração na Sibéria. Os mortos em números oficiais são de aproximadamente 4 milhões de pessoas, mortas pela fome, em campos de concentração ou por execução, dados não oficiais chegam perto de 14 milhões. Esse genocídio ucraniano recebeu o nome “Holodomor”, que em ucraniano significaria “mortos pela fome”. Nos dias atuais, com uma Ucrânia democrática e soberana, é compreensível o porquê da Ucrânia preferir se aliar ao Ocidente e querer desesperadamente entrar na OTAN, Organização do Tratado do Atlântico Norte, ao manter-se em paz com sua vizinha e ex-carrasca Rússia. Mas, como dito anteriormente, Kiev nunca fica em vantagem quando enfrenta sua vizinha oriental. Em 2014 a Rússia invadiu a Ucrânia e anexou em seu território a região da Criméia, sofreu embargos econômicos do Ocidente, mas não tiveram grandes repercussões. Enquanto a Ucrânia se viu invadida e de mãos atadas. Agora, em 2022, a Rússia reconhece duas regiões da Ucrânia como federações independentes, a Ucrânia novamente perde parte de seu território e, novamente, o Ocidente realiza sanções à Rússia. Será que, dessa vez, as sanções irão funcionar? A invasão russa na madrugada do dia 24/02/2022 mostrou que não. A situação da Ucrânia não é fácil, mesmo com o recebimento de doações de armamentos e treinamento de seus soldados por parte da Otan, Kiev segue em desvantagem. Não há possibilidade de invasão russa na Ucrânia, porque ela já ocorreu em 2014 e segue ocorrendo em 2022. Mas com a memória do Holodomor ainda fresco em suas mentes, afinal, o massacre ocorreu há menos de 100 anos, a Ucrânia não irá cair sem lutar. Há alguns filmes que retratam o Holodomor, entre eles um que se deve destaque é “Mr. Jones” ou o título em português, “A sombra de Stalin”, um filme produzido pela Ucrânia e pela Inglaterra, que conta a história do jovem Jones (James Norton), um fotógrafo, que faz o possível para retratar os horrores e a fome nos campos da Ucrânia durante os anos 30. Com uma temática pesada e um efeito sombrio, o filme traz uma sensibilidade gigantesca ao retomar as piores lembranças da Ucrânia. Outro filme, baseado na realidade, é o “Espião Inglês”, não aborda o Holodomor diretamente, só há uma breve citação sobre como Moscou lidava com as regiões mais afastadas da capital comunista, mas vale a pena assistir por retratar as tensões da Guerra Fria e a brutalidade da URSS com os seus conterrâneos e que sempre há a possibilidade de amizade nas mais adversas situações. Julia Lopes, graduanda em Letras Português-Coreano, FFLCH- USP. #Ucrania, #Russia, #GuerraNaUcrania, #Comunismo, #OTAN REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: Ukraine. New York Times, 2022. Disponível em: https://www.nytimes.com/live/2022/02/22/world/russia-ukraine-biden-putin#saying-russia-created-ukraine-putin-orders-troops-to-2-breakaway-regions acessado em 22/02/2022 Holodomor: a grande fome que matou milhões na Ucrânia durante o comunismo soviético. BBC NEWS, 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60348621 acessado em 22/02/2022 Mr. Jones. Cinema10. Disponível em: https://cinema10.com.br/filme/mr-jones acessado em 22/02/2022 The Courier. Adoro Cinema. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-264556/ acessado em 22/02/2022

  • Duna – Quem controla as massas, controla o universo

    Depois de muitas expectativas, em 2021 é lançada a mais nova adaptação do complexo livro de Frank Herbert: Duna, dirigido por Denis Villeneuve. Por ser tão ambicioso, tão empolgante, essa ópera espacial já está concorrendo a dez indicações ao Oscar de 2022. Superando seu antecessor, dirigido por David Lynch em 1984. Em um futuro distante, ocorre uma luta de poder entre duas casas nobres pelo direito de governar o planeta desértico “Arrakis” conhecido como Duna. Na qual se extrai uma substância rara chamada de Mélange (ou “a especiaria”), sem a qual, as viagens intergalácticas não seriam possíveis. Então, o jovem Paul Atreides (Timothée Chalamet), dono de um destino grandioso, é enviado para o planeta para que os seus habitantes possam garantir a paz. #ParaTodosVerem: fotografia, em tons de azul e laranja de Paul Atreides empunhando uma Dagacris, uma faca sagrada feita de um dente de verme gigante. Atrás dele estão algumas rochas do deserto de Duna. Disponívem em: https://www.imdb.com/title/tt1160419/ O livro foi um marco na história da ficção, e serviu de inspiração para novas criações como as obras de Game of Thrones e Star Wars. Apesar de se passar em um futuro extremamente distante e ter sido lançado em 1965, o romance possui uma mensagem explícita que se torna bastante presente, como a ganância, a crítica ao imperialismo americano e a sua exploração dos recursos naturais dos outros países (que inclusive tem causado problemas para os povos do oriente médio até hoje). Mas o que mais chama a atenção no filme, com certeza, é o perigo de seguir líderes ou qualquer outra entidade cegamente. Mesmo sendo pouco explorado, sabemos que cada casa no filme possui uma hierarquia e um sistema de governo bem evidente. Um regime imperial, onde os nobres dominam os menos favorecidos em um sistema feudal. Cada feudo possuí um exército, além do oficial do império. E seus habitantes depositam sua lealdade às casas, sem nunca as questionarem. Lutando apenas pelo interesse daqueles que os governam. Não seria difícil de procurar alguns exemplos notáveis nos últimos tempos. Como o caso da invasão do Capitólio, durante as eleições, ocorrido nos Estados Unidos no dia 06 de janeiro de 2021. Onde centenas de simpatizantes do Ex-presidente Donald Trump tentaram impedir a legitimação da vitória de Joe Biden. Acreditando no discurso do Ex-presidente de que a eleição havia sido fraudada, ele não quis aceitar a derrota. O episódio gerou nove mortes e diversos feridos, repercutindo até hoje. Autoridades acusam Trump e seus colaboradores de incitarem a violência e de não impedirem que o desastre acontecesse. No filme Duna, nos é apresentado uma ordem de mulheres com capacidades mentais e físicas superiores a qualquer ser humano, as “Bene Gesserit”. Dotadas de um poder conhecido como “a voz” usado para a manipulação direta da mente de seu alvo, o obrigando a obedecer aos seus comandos. Com tal proeza sendo usada por milênios para influenciar as famílias nobres e o próprio império. Além de disseminar mitos para continuarem mantendo o controle. Propagação de notícias falsas não é nenhuma novidade no século XXI, e tem sido o foco de manutenção de poder nos últimos tempos. No dia 15 de fevereiro de 2022, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, viajou para a Rússia, região de tensão pelos conflitos com a Ucrânia, na qual tropas russas estão alocadas e fez um tuíte, alegando que permanece em espaço aéreo russo, junto com uma foto de um jornal da CNN, onde se lê: “Rússia anuncia retorno de algumas tropas na fronteira”. Induzindo os leitores de que a presença do presidente brasileiro teria algo relacionado a uma apaziguação dos conflitos da região do leste europeu. #ParaTodosVerem: captura de tela, tuíte de Jair Bolsonaro com a seguinte mensagem: “já estamos no espaço aéreo russo. Fuso: + 6 horas. Bom dia a todos”. Abaixo está uma foto de um jornal da CNN onde aparecem quatro jornalistas, com o título da matéria embaixo: “Tensão com a Ucrânia. Rússia anuncia retorno de algumas tropas na fronteira.” Disponível em: https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1493538780095160327 Não demorou muito para que grandes veículos de comunicação, simpatizantes do presidente, propagassem informações falsas. Vindas inclusive, do ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, que alegou que o presidente evitou a terceira guerra mundial e que deveria ser agraciado com o Prêmio Nobel da Paz. O longa de Denis Villeneuve é de grande potencial, com mensagens atemporais. Desinformação, disputa por poder e consumo insustentável de recursos naturais. Não é preciso ir muito longe para testemunhar o futuro de Duna. Matheus Cosmo Graduado em Rádio e TV #Duna, #Oscar2022, #DonaldTrump, #Bolsonaro, #Ucrânia

  • “HASTA LA” DESIGUALDADE SEMPRE.

    #ParaTodosVerem [FOTO] Uma criança olhando para a câmera, aparentemente entre 10 anos, atrás de uma bola de futebol, vestindo roupas surradas e utilizando uma camiseta enrolada à cabeça, somente com os olhos para fora, ao seu entorno se observa grande quantidade de lixo ao se perder no horizonte, local era conhecido como “Lixão da Estrutural”, maior lixão da América Latina, até ser fechado em 2018. Imagem disponível em: https://ci.eco.br/o-que-foi-o-lixao-da-estrutural-o-maior-lixao-da-america-latina/ Ao falarmos de América Latina e suas questões de vulnerabilidade entramos em diversas questões envolvendo conflitos políticos, sociais e econômicos na história contemporânea, praticamente tendo maior número de altercações do que em outras regiões mundiais, à citar Europa e Ásia, por exemplo. Diversos são os fatores que influenciam nessas questões, podendo citar democracias recém instituídas e frágeis, palco de conflitos de influências de poder ideológico como os conflitos da Guerra Fria, questões atuais de embate econômico entre China e Estados Unidos e o cenário ocasionado pela COVID-19, dentre outros fatores que levam a América Latina a ter tamanha vulnerabilidade. Entrando mais a fundo no tema podemos ter como um fator preponderante para diversos acontecimentos a dependência da América Latina para com outros países, o que gera um fluxo de capitais e influência que traz consequências para a maioria dos países de controle e poder. De acordo com Mendonça (2019, p. 12) As exportações dos países latinos têm de ser cada vez maiores para garantir os recursos necessários ao pagamento dos bens e serviços importados, e também dos juros, das amortizações dos empréstimos realizados e da remessa de lucros dos investimentos estrangeiros. Os desenrolares dessa dependência são sentidos em fatores envolvendo a inflação, por exemplo. Tendo a América Latina o 2º e 3º lugar nos países que tiveram maiores níveis de inflação em função da crise da COVID-19, respectivamente Argentina e Brasil. Um dos fatores preponderantes para os altos números de contágio nos países Latino Americanos pode ter sido o alto número de informalidade do trabalho na região, de acordo com Bas B. Bakker e Carlos Gonçalves (2021) Quanto maior o nível de informalidade, menor o impacto dos confinamentos na taxa de aumento do número de novas mortes, em parte porque as pessoas com empregos informais não podem se dar o luxo de ficar em casa. #ParaTodosVerem: [FOTO] Mapa da América Latina com dados sobre o número de mortes por cada 100 mil pessoas. Imagem disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53155754 Continuando na questão da dependência econômica de países fora do bloco da América Latina, os países têm como possível ajuda remessas de valores provenientes de investimentos econômicos, de forma que ainda que ocorra remessa de lucros ao exterior algum tipo de impacto ocorra nos países. Porém, em um cenário afetado pela crise do COVID-19 e suas consequências gerais esses investimentos se tornaram escassos, propiciando consequências cada vez maiores que estão sendo sentidas e continuarão sendo sentidas ao decorrer dos anos. De acordo com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe Em um contexto de grave crise sanitária, econômica e social gerada pela pandemia da COVID-19, a América Latina e o Caribe receberam 105,48 bilhões de dólares de investimento estrangeiro direto em 2020, 34,7% a menos que em 2019, 51% a menos que o recorde histórico alcançado em 2012 e o menor valor desde 2010. Filmes latino americanos que retratam questões trabalhadas até aqui: Cidade de Deus (2002) A história começa no início da fundação do bairro Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, tendo como foco o desenvolvimento do crime organizado em sua área e histórias paralelas envolvendo questões sócio-econômicas das personagens. A obra baseada na realidade representa acontecimentos ocorridos entre os anos 1960 e 1970, tendo como palco principal a Comunidade Cidade de Deus e como pano de fundo os turbulentos anos do início da ditadura militar no Brasil, suas consequências para a sociedade e formas de interação políticas e sociais. Archivos del estallido (2019) Ambientado no Chile tendo como palco os protestos de 2019-2020, que foram ocasionados pelo aumento das passagens de transporte público, parecido com o que houve nos protestos brasileiros de 2013 contrários ao aumento das tarifas de transporte. O descontentamento é levado em grande parte pelas políticas econômicas neoliberais que existem no Chile desde sua implantação pela Carta Chilena de 1980. A constituição, que não contou com participação popular, trouxe diversas consequências econômicas para a sociedade que ainda ecoam hoje e são motivo de diversas críticas entre a sociedade por seu caráter extremamente neoliberal, que gera diversas consequências socioeconômicas por falta de maiores políticas assistencialistas. Roma (2018) Cidade do México. O filme se passa nos anos de 1970 quando o país passava por um alto crescimento econômico, conhecido como “milagre econômico”, ainda que a desigualdade social continuava a ser um fator relevante e que trazia descontentamento. Além disso nessa época o país passava pelo governo do PRI (Partido Revolucionário Institucional, anteriormente conhecido como Partido Nacional Revolucionário), partido político que teve poder hegemônico no México entre 1929 e 2000 e que exercia autoritarismo político, social e até mesmo repressivo, sendo responsável pelo Massacre de Tlatelolco, em 1968. O massacre teve início após uma série de manifestações de estudantes na Cidade do México em protesto aos Jogos Olímpicos de 1968 na cidade. #desigualdade #americalatina #economia #sociedade #cinema Lucas da Silva Bacharelado em Administração FEA - USP Referências Bibliográficas: MENDONÇA, Luiz Jorge V. Pessôa de. América Latina: da desigualdade social à desigualdade econômica. Argumentum, , Vitória, v. 1, n. 1, p. 78-91, jul./dez. 2009. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=3987442. Acesso em: 19/01/2022 BAKKER, Bas B., GONÇALVES, Carlos. As consequências da COVID-19: O que ocorreu na América Latina?. 14 de junho de 2021 Disponível em: https://www.imf.org/pt/News/Articles/2021/06/14/blog-the-covid-19-fallout-what-happened-latin-america-caribbean. Acesso em: 19/01/2022 Em meio à crise da COVID-19, a América Latina e o Caribe receberam em 2020 o menor valor de investimento estrangeiro direto da última década. Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. 5 de Agosto de 2021. Disponível em: https://www.cepal.org/pt-br/comunicados/meio-crise-covid-19-america-latina-o-caribe-receberam-2020-o-menor-valor-investimento. Acesso em 19/01/2021

  • TITO E OS PÁSSAROS E SUAS SEMELHANÇAS COM O BRASIL DE BOLSONARO

    #ParaTodosVerem: Banner do filme “Tito e os Pássaros (2018)”, a imagem apresenta o menino Tito (vestido de moletom verde escuro e bermuda preta) e sua amiga Rosa (de camiseta amarela e calça marrom) no meio da composição, envolta de pássaros e um cenário pintado com técnicas expressionistas em cores quentes (amarelo e laranja), além de mostrar os nomes dos diretores acima, as premiações que recebeu e o nome “Tito e os pássaros” no centro. Disponível: https://br.web.img3.acsta.net/pictures/18/12/19/19/48/4177869.jpg A animação brasileira "Tito e os Pássaros", dirigida por Gustavo Steinberg e lançada no ano de 2018, conta a história de Tito, um menino cujo pai, que é um cientista, está construindo uma máquina para tentar entender a "língua dos pássaros", pássaros quais tiveram um papel fundamental nas sociedades, protegendo humanos de catástrofes, guerras e no desenvolvimento da comunicação humana. Porém, essa máquina acaba tendo problemas e um grande acidente acontece, colocando a vida de Tito em risco. Mesmo assim, o garoto tenta novamente reproduzir a máquina de seu pai, mas sem sucesso. Enquanto esse evento ocorre, o planeta está sendo contaminado por um surto, como uma grande epidemia. Sendo assim, as pessoas que contraem essa doença ficam paralisadas até se transformarem em pedras gradativamente. Dentro dessa obra, desenvolvida durante mais de 8 anos e sendo produzida por mais de 120 pessoas, é possível destacar uma narrativa heróica, onde o menino, o único que não sente medo, fica sendo responsável por tentar achar uma cura para acabar com esse surto. Os personagens que adoecem, representam de certa forma, o indivíduo moderno dentro da sociedade, perdendo cada vez mais seu valor social e se desfazendo, até se tornar um um objeto inanimado (pedra). Trazendo um pequeno paralelo com o mundo real, em 2020, começamos a lidar com uma nova doença que redefiniu totalmente a forma de nossa sociedade, a COVID-19. Dessa forma, é interessante ressaltar que a pandemia no Brasil, quando transversalizada por marcadores sociais, principalmente de classe e raça - segundo artigo científico - se propagou de uma forma muito rápida, não só pelas características da doença em si, mas por ter começado com as classes economicamente favorecidas, as quais estavam viajando ao redor do mundo e que trouxeram o vírus para as classes mais baixas, evidenciando as desigualdades sociais à medida em que a doença avançava, os casos ficaram mais controlados nas camadas mais altas e terminaram em um grande surto nas periferias. Assim como no filme, onde uma redoma foi construída envolta de um condomínio para que ricos ficassem mais protegidos do surto, enquanto nos grandes centros e periferias o caos tomava o controle. Além desse ponto, o filme traz como pano de fundo a manipulação midiática para a propagação do medo e/ou informações falsas a respeito do surto, nas esferas mais íntimas da sociedade, que acabou se tornando um ambiente propício para a divulgação de pensamentos retrógrados e equivocados, como é o caso do Brasil e o presidente Bolsonaro, que mentiu mais de 4 vezes em seu primeiro pronunciamento oficial sobre a COVID-19, além de divulgar o enfrentamento com remédios sem eficácia comprovada na época e que continuaram sem eficácia após estudos. Ainda sim, mais para frente na cronologia pandêmica, duvidando da capacidade das vacinas recém criadas. Outrossim, é possível estabelecer um paralelo entre o filme e a realidade brasileira com o surgimento de pessoas públicas que acabaram se tornando lideranças messiânicas, fazendo promessas de cura, como é o caso do apresentador fatalista no filme que divulgou o medo e o caos com a intenção de lucrar de alguma forma. O enfrentamento de Tito, se tornou mais complexo do que deveria, assim como no Brasil de Bolsonaro, pois nesse caminho em busca da cura é possível observar um duelo entre a natureza da doença e a cultura do medo, que no filme são caracterizadas pela linguagem dos pássaros (como uma possível cura ou caminho para que as pessoas se conectarem umas às outras, que também podem ser comparadas às vacinas, por exemplo) e a linguagem midiática que fez a sociedade adoecer ao acreditar nas fake news utilizadas (a utilização de um kit de remédios sem eficácia como forma de cura). Lucas Moreira Pinto, graduando em Sistemas de Informação pela EACH-USP #ManipulaçãoMidiática #Titoeospassaros #Brasil #COVID-19 #Pandemia Referências Bibliográficas Bolsonaro mentiu 4 vezes em pronunciamento sobre ações contra a COVID-19, atualizado em 24/03/2021. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2021/03/24/interna_politica,1249974/bolsonaro-mentiu-4-vezes-em-pronunciamento-sobre-acoes-contra-a-covid-19.shtml. Acesso em: 24/01/2022. Animação nacional Tito e os Pássaros reflete sobre efeitos da cultura do medo, atualizado em 13/09/2018. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/tito-e-os-passaros-cultura-do-medo/. Acesso em: 24/01/2022. Pandemia da Covid 19: refletindo as vulnerabilidades a luz do gênero, raça e classe, 25/09/2020 Disponível em: https://www.scielo.br/j/csc/a/bbcZzgN6Sns8mNPjKfFYRhb/?format=html&lang=pt. Acesso em: 24/01/2022 Conheça Tito e os Pássaros, a animação brasileira que deveria estar no Oscar, atualizada em 21/02/2019 Disponível em: https://www.omelete.com.br/filmes/conheca-tito-e-os-passaros-a-animacao-brasileira-que-deveria-estar-no-oscar. Acesso em: 24/01/2022

  • Covid-19 e seu impacto no sul global

    Em 2007 chega aos cinemas “O Nevoeiro”, um filme dirigido por Frank Darabont, como uma adaptação do conto de Stephen King. Na trama, após uma terrível tempestade em uma cidade pequena no interior do Maine, David (Thomas Jane) e seu filho vão até o mercado para abastecer sua casa, temendo por uma catástrofe maior. Até que uma nevoa espeça cheia de criaturas horripilantes (que mais parecem ter saído de um conto de H. P. Lovecraft) ameaça a cidade e força os protagonistas a ficarem isolados dentro do estabelecimento. Parece familiar, não é mesmo? #ParaTodosVerem: poster do filme "O nevoeiro" de 2007, apresenta um grupo de pessoas aparentemente apreensivas paradas na lateral da imagem, cercadas por um nevoeiro. No centro baixo da imagem há o nome original do filme em inglês "The Mist" em letras brancas e o logo da produtora no canto direito. Disponível em: https://culturaintratecal.com/2010/08/15/o-nevoeiro-2007/amp/ Desde de 2019 o mundo tem enfrentado uma ameaça invisível. O vírus SARS-CoV-2 se espalhou pelo globo, deixando quem podia, dentro de suas casas. Assim como no filme, enfrentar algo que não se pode ver pode ser ameaçador. Mas hoje, a ameaça maior não se trata de tentáculos ou insetos gigantes, tão pouco o vírus em si, mas sim, a ignorância, propagada em forma de desinformação. Se trata de um problema mundial, mas que tem atingido principalmente os países menos desenvolvidos do hemisfério sul. Dentre os casos mais extraordinários, está o do presidente da Tanzânia John Magufuli, que propositalmente negou o uso de mascaras, vacinas e a contagem dos casos de Covid-19 no país. Acreditando que muita reza poderia salvar a população. Atos semelhantes têm aparecido em Madagascar, Burundi e África do Sul. Aqui no Brasil, a postura do governo federal tem se mostrado com bastante dúvida acerca da eficácia das vacinas. O presidente Jair Bolsonaro publicamente tem negado o uso de máscaras e afirma que não pretende se vacinar, apesar de supostamente ter contraído a doença tempos atrás. Segundo a lista do Lowy Institute, o país ficou em 98º lugar entre os que melhor conseguiram lidar com a pandemia, atrás de outros países da América do Sul como Chile e Bolívia. Em “O Nevoeiro”, durante o desenrolar da história, vemos que o medo começa a tomar conta daquelas pessoas simples e que elas mesmas acabam aceitando as próprias explicações para os acontecimentos. Dentre os personagens, a Sra. Carmody (Marcia Gay Harden) acaba roubando a cena em vários momentos. Uma fanática religiosa que age como portadora da verdade e impõe o medo sobre as pessoas, acreditando fielmente que aqueles acontecimentos se trata de um castigo divino e que ela seria uma espécie de profeta. Claro que é um exagero, como toda obra de ficção, mas não seria difícil criar alegorias para os últimos acontecimentos na vida real. Visto que entre os países subdesenvolvidos, a falta de instrução e divulgação científica é algo frequente devido a administração torpe por parte dos governos e, de fato, contribuíram para a propagação da doença. O fanatismo, o culto cego, a ignorância e o egoísmo se tornam os grandes inimigos no filme, tão perigosos quanto as criaturas retratadas no longa. Pouco a pouco vai tomando conta da cabeça das pessoas, a não ser daquelas que tentam enxergar tudo por um lado mais racional, como David. “O Nevoeiro” nos mostra que o medo e o ódio podem ser usados para solucionar crises humanas e, no final, os piores monstros se tornam as próprias pessoas. Matheus Cosmo Graduando em Rádio e TV. #coronavirus, #ONevoeiro, #desinformacao, #Sul

  • BLACK MIRROR: realidades possíveis ou distantes?

    #PraCegoVer: um garoto com cara de choro e medo, sentado no seu quarto, atrás dele há uma parede esverdeada com uma prateleira de livros e uma luminária, disponível em: https://www.uziporai.com.br/2016/10/series-black-mirror-analise-do-episodio-3-da-3a-temporada.html A série distópica Black mirror deve ter espantado muitos de nós, provavelmente nos perguntamos ao decorrer dos episódios: essas realidades seriam possíveis? Será que agiríamos dessa forma, nestes contextos? O seriado célebre que ficou conhecido por abordar avanços tecnológicos relacionados às relações humanas, à ética, à segurança e outros assuntos, conta com cinco temporadas e está disponível na Netflix. Entretanto, ao nos depararmos com tais realidades possíveis, especificamente no terceiro episódio da terceira temporada “Manda quem pode”, onde a irmã de Kenny, personagem principal, ao baixar um filme, acaba por infectar o notebook com malwares e dá acesso aos hackers sem saber. O que acontece aqui, é que Kenny é descoberto pelos invasores piratas e seu segredo mais profundo é exposto, o diretor logo no começo já nos dá pistas do suposto crime, o jovem é consumidor de pornografia infantil, assim como outros caras que também irão aparecer ao decorrer da série e serão chantageados. Há também outra personagem secundária, uma empresária importante que tem seus e-mails racistas vazados pelos próprios hackers. Então pensamos: imagine se todas essas pessoas fossem expostas? Se os Ethical hackers - assim chamados os hackers do bem - usassem a tecnologia para expor esses criminosos, como seria? Mas nos confrontamos com uma realidade um pouco diferente. No Brasil atual, o que estamos vendo é que algumas pessoas não precisam de ciberpiratas para os expor, elas mesmas fazem isso. Imbuídos de um nacionalismo exacerbado e um discurso de ódio latente, que se tornou moda e ganhou certo status entre os seguidores do atual presidente, personalidades da internet como o Monark do Flow podcast, acabou por fazer seu próprio cancelamento, após discursos racistas. Para piorar a situação, logo em seguida ele tweetou: #PraCegoVer: [IMAGEM] twete do Monark do Flow podcast que traz a seguinte mensagem: É a ação que faz o crime e não a opinião, disponível em: https://twitter.com/monark/status/1453100235547414530?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1453100235547414530%7Ctwgr%5E%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fbr.vida-estilo.yahoo.com%2Fentenda-polemica-flow-podcast-ifood-monark-cancelamento-opiniao-162951616.html Mas ele se esqueceu que ‘’opinião’’ é uma forma de enxergar o mundo e isso leva a ações no cotidiano, na vida. Também se esqueceu que há uma diferença enorme entre discurso de ódio e opinião. Este diz respeito a gostar disso ou daquilo, mas não gostar de x não implica querer a morte dele ou impor barreiras sociais, enquanto que o primeiro, por meio de falas levam a ações que tiram a vida do outro, levam pessoas a se odiarem e possivelmente geram suicídios, é um cerceamento da liberdade do outro. Podemos citar também o Maurício do vôlei que após discursar falas homofóbicas em seu perfil no Instagram, perdeu patrocínios de empresas e alguns de seus contratos, assim como aconteceu também com o Monark. Pelo visto, estas pessoas não perceberam que o mundo passa por uma mudança profunda, as pessoas se questionam, mudam suas posições, entendem o que não convém mais, o que deve ficar no passado, mas não podemos esquecê-los. O movimento “Black lives matter”, trouxe a derrubada de estátuas racistas no Brasil e no mundo, o que já nos dá indícios de possíveis mudanças na política, cultura, e crença de parte do globo terrestre. Black mirror pode nos assustar em um primeiro momento, por nos mostrar mudanças radicais nas relações humanas, na quebra da privacidade através da tecnologia. Contudo, o que vemos no delírio do nosso país é que não foi preciso de terceiros para expor crimes, os autores são seus próprios sabotadores, suas próprias sombras capazes de expor o que há de pior dentro de si. Fred Zeffirelli Letras, FFLCH #blackmirror, #distopia, #queimadasnaamazonia, #tecnologia, #crimesvirtuais #series #seriesnetflix #atualidades #homofobia #racismo

  • "ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR": A FANTASIA DO CAPITALISMO

    #ParaTodosVerem [Fotografia]: capa do filme “Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”. Há uma máquina de costura branca no centro da imagem. Um homem de máscara, shorts e sem camisa usa a máquina para costurar uma calça jeans. Fonte: https://recprodutores.com.br/portfolio/estou-me-guardando-para-quando-o-carnaval-chegar/ “Estou me guardando para quando o Carnaval chegar”: a fantasia do capitalismo Para se manter como o sistema político-econômico hegemônico vigente, o capitalismo usa diversos meios. Um deles, e um dos mais perversos, é o que induz as pessoas a acreditarem que suas próprias situações sociais (de emprego e qualidade de vida) são ótimas por terem alguns pequenos privilégios. Para demonstrar o quão falho é esse discurso podemos analisar o documentário brasileiro “Estou me guardando para quando o carnaval chegar” (2019) do diretor Marcelo Gomes, sob a perspectiva do “privilégio do trabalhador autônomo” (conforme dizem os próprios “entrevistados” para o filme). A narrativa começa com o caminho que precisa ser feito para a chegada no município de Toritama, que é o protagonista desta obra, durante o percurso, enormes outdoors revelam que o local - que fica no interior de Pernambuco - possui uma alcunha, “a Capital do Jeans”, porém, já por essas grandes propagandas, nota-se que algo não condiz com a realidade étnica, social e estética dos moradores da região. Isso pois, a “norma” é clara, todos os modelos dos cartazes são pessoas brancas e com estética “padrão”, ou seja, segue precisamente o ideal pregado pelo capitalismo, que é vender uma única possibilidade de estilo de vida, vender apenas a visão de mundo de uma elite racista que desumaniza qualquer pessoa diferente desse retrato branco europeu. É por meio desse controle ideológico presente em todos os lugares (como em “simples” anúncios de beira de estrada) que as mais altas classes sociais se mantêm sempre no poder, por tanto tempo. É um apelo à preferência do cérebro humano pelo padrão e o mimetismo, assim, mesmo que não se identifique com a naturalização de um modelo único de vida, acaba concordando que ele de fato é o melhor (se não o único) para todos. Dessa forma, o sistema garante que apenas quem tem grandes poderes de compra tenha o direito de possuir uma identidade. Em seguida, a narrativa apresenta o grande exemplo da fábula do capitalismo citada anteriormente. Boa parte dos moradores do município, que antes sobrevivia de agricultura, hoje possui uma pequena fábrica de jeans em suas próprias casas. Com baixas condições de trabalho, como as altas temperaturas (sem nenhum tipo de ventilação) e as jornadas de trabalho de mais de 12 horas, boa parte dos “entrevistados”, se diz privilegiado pois agora podem fazer seus próprios horários. São poucos a perceber como lhes fazem falta os direitos trabalhistas (um deles comenta sobre o medo que tem de ter problemas de saúde, pois isso lhe significaria falta total de subsistência já que seu pagamento depende do dia de trabalho). Infelizmente, nenhum deles parece notar o quão explorados eles são. Veja o exemplo de uma das entrevistadas, ela afirma com felicidade que seu emprego é ótimo e explica os valores recebidos pela costura de bolsos em uma calça. Um bolso custa 10 centavos, em uma jornada de 15 horas, ela produz cerca de 1000 bolsos, se descontarmos um valor aproximado de produção total por uma calça e sabendo que esse produto custa em média R$50 (como visto na venda durante o filme), o lucro para 1000 calças é de R$40.000 enquanto que pela produção dos bolsos a trabalhadora recebeu apenas R$200 em uma jornada dupla de trabalho (ela comenta que trabalha das 5h às 21h). Outro sintoma importante que demonstra o desgaste físico e mental que essa exploração causa, é aquele que dá nome ao filme. O próprio diretor é pego de surpresa durante as entrevistas, pois no início de fevereiro a cidade inteira muda seus hábitos. A maioria dos moradores afirma que sua única forma de entretenimento (e merecido descanso) só acontece nos feriados de fim e início de ano. Com a chegada do Carnaval, o município de Toritama vira um local deserto, seus moradores vendem de tudo em suas casas para poderem arrecadar dinheiro para viajar à praia durante o feriadão. Algumas pessoas vendem geladeiras e televisões e alegam que demoram para recuperá-las, mas que tudo vale a pena quando o objetivo é comemorar o Carnaval. Um funcionário de uma loja que revende usados afirma já ter desmaiado de tanto trabalhar nessa época do ano. É assim que o capitalismo sobrevive, influenciando tudo e todos para se manter hegemônico, esse é um exemplo da manipulação ideológica que permite que o Brasil, maior país da América Latina, tenha 1% da população (os milionários e bilionários), como dona de praticamente a metade de toda a riqueza nacional (UOL, 2021), sendo que são 12,8% o número de brasileiros abaixo da linha da pobreza (CNN Brasil, 2021). Essa é a ilusão capitalista que por meio da máscara da meritocracia só aumenta a desigualdade social no mundo inteiro. Juliana Mendes Santiago - Estudante de Biblioteconomia (ECA/USP) #Capitalismo #Trabalho #DireitosTrabalhistas #Brasil #DesigualdadeSocial #AutonomiaFinanceira Referências ESTOU me guardando para quando o carnaval chegar. Direção de Marcelo Gomes. Brasil: Carnaval Filmes, 2019. DESIGUALDADE aumenta no Brasil, e 1% da população concentra 50% da riqueza. UOL, São Paulo, 24 jun. 2021. Economia. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/06/24/distribuicao-riqueza-nacional---brasil.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 18 jan. 2022. POPULAÇÃO abaixo da linha da pobreza triplica e atinge 27 milhões de brasileiros. CNN Brasil, Rio de Janeiro, 8 mai. 2021. Nacional. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/populacao-abaixo-da-linha-da-pobreza-triplica-e-atinge-27-milhoes-de-brasileiros/#:~:text=Em%20meio%20%C3%A0%20pandemia%20do,%2C8%25%20da%20popula%C3%A7%C3%A3o%20brasileira. Acesso em 18 jan. 2022.

  • Snowpiercer e a Terra do Amanhã

    A Primeira Revolução Industrial representa não apenas um marco na história do avanço da humanidade, mas também marca o início de um uso intenso de combustíveis fósseis e o começo da intensa poluição atmosférica, que só passou a ser discutida a nível mundial em 1972, na Conferência de Estocolmo, onde, pela primeira vez, líderes mundiais se reuniram para discutir os impactos que o nosso modo de produção estaria causando ao planeta. Em Expresso do Amanhã (2013), do mesmo diretor do premiado filme Parasita (2019), Bong Joon-ho, retrata o que restou da humanidade após uma tentativa falha de barrar o aquecimento global. Os sobreviventes vivem a bordo do Snowpiercer, um trem, que devido ao congelamento do planeta Terra, precisa funcionar a todo momento. Criada pelo bilionário Wilford, a locomotiva eterna abriga ricos e suas famílias que compraram suas passagens para continuar a viver, enquanto pessoas pobres trabalham para eles em troca de abrigo. #PraCegoVer: a atriz Tilda Swinton, no canto direito da imagem representa uma mulher usando óculos de armação transparente, segurando um microfone que aponta para frente, vestindo roupas roxas e um casaco de pele jogado em seu braço direito. Ao fundo, várias pessoas sentadas, vestidas com roupas de frio e aparentam estar sujas. Fonte da imagem: https://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-7542/fotos/detalhe/?cmediafile=21036103> Acesso em: 21 de Novembro de 2021. A não adesão dos Estados Unidos aos protocolos mundiais contra às mudanças climáticas já é histórica, desde Kyoto ao Acordo de Paris, os norte-americanos, apesar de serem um dos países que mais poluem a atmosfera e gerarem lixo no mundo, insistem em não aderir a esses protocolos. A máquina capitalista estadunidense se recusa a repensar e frear sua forma de produção e o desenvolvimento a todo custo. No início do ano de 2021, o recém empossado presidente Joe Biden, prometeu se comprometer com a redução na emissão de gases, assim retornando ao Acordo de Paris, o qual seu antecessor, Donald Trump, havia formalmente se retirado diante da ONU, sobre a premissa de que a redução da poluição teria um impacto na taxa de emprego do país deixando muitos estadunidenses desempregados. Em Snowpiercer, o cenário não é muito diferente, mesmo após destruir o planeta, os mais ricos têm a chance de continuar vivendo, enquanto o resto da tripulação, que se alimenta de seus restos, deve servir e ser grata por não ter morrido na nova Era Glacial, iniciada após a tentativa falha de barrar o aquecimento global com o composto CW7. O filme que virou uma série com o mesmo nome, retrata como a burguesia, apesar de ter sido avisada sobre as consequências, saiu ilesa e vive de forma luxuosa à bordo da locomotiva. #PraCegoVer: boneco de Donald Trump, vestido com uma camisa com as cores da bandeira Norte Americana, levanta um taco de golfe em direção a uma estátua da Torre Eiffel com um globo terrestre no topo, representando o Acordo de Paris. Fonte da imagem:https://g1.globo.com/mundo/noticia/2021/02/19/eua-voltam-oficialmente-ao-acordo-de-paris-sobre-o-clima.ghtml Acesso em: 21 de Novembro de 2021. O rompimento com o Acordo, firmado pelo então Presidente Barack Obama em 2015 na COP 21, ocasionou uma instabilidade no compromisso mundial no combate às mudanças climáticas. Esse ano, 2021, a COP 26 (Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas), realizada em Glasgow, na Escócia, dividiu opiniões ao tentar definir um fundo de “perdas e danos” que deveria ser pago pelos países mais ricos para ajudar os mais pobres e vulneráveis aos impactos da crise ambiental, como Tuvalu, país ameaçado pelo aumento do nível do mar, o que acabou gerando um atraso na conferência pela resistência de países desenvolvidos em aceitar a proposta. Enquanto não percebermos que não é necessário chegar ao ponto do Expresso do Amanhã para que os líderes mundiais comecem a realmente tomar iniciativas que sejam de fato efetivas, deixando de lado o avanço capitalista e pensando no que realmente importa, a reprodução e sustentabilidade da vida na Terra, para não precisarmos, como no filme, de um milionário tirano, tal qual o Senhor Wilford, para continuar a viver. Gabriela Bucalo, bolsista do Projeto CineGRI e graduanda em geografia pela FFLCH-USP. #Snowpiercer #MudançasClimáticas #AcordodeParis #BongJoon-ho #ExpressodoAmanhã Referências: PARKER, Laura. Estados Unidos geram mais lixo plástico que qualquer outro país, aponta estudo. Disponível em: Acesso em: 20 de Novembro de 2021. Por Reuters. EUA voltam oficialmente ao Acordo de Paris sobre o clima. Disponível em: Acesso em: 20 de Novembro de 2021. DEWAN, Angela; CASSIDY, Amy; FORMANEK, Ingrid; KOTTASOVÁ,Ivana. COP26 aprova acordo para a redução dos combustíveis fósseis no planeta Disponível em: Acesso em: 19 de Novembro de 2021. PASSARINHO, Nathalia. COP26: Os principais fracassos e vitórias do acordo final da cúpula sobre mudança climática Disponível em: Acesso em: 20 de Novembro de 2021.

  • ADMIRÁVEL MUNDO NOVO E A ESCASSEZ DE RECURSOS NA TERRA

    #PraCegoVer: [IMAGEM] Homem se encontra parado apoiado na mesa do escritório, atrás há uma janela de vidro onde se vê a cidade ao fundo. Em meio aos recursos escassos na Terra, cria-se dois grupos distintos de indivíduos divididos entre civilizados e não civilizados. No admirável mundo novo onde vivem os civilizados, há um sistema de castas, além de super controle de natalidade e fertilidade, parece um mundo perfeito, calculado para dar certo, medido cada centímetro com régua. Lá embaixo, estão os com poucos recursos, ou com quase nada, vivendo sob a miséria, lá encontra-se os selvagens ou não civilizados. A série Admirável Mundo Novo, baseada no livro de Aldous Huxley, história contada acima, ilustra uma das maiores distopias do século XX, em meio à crise ambiental provocada pela superpopulação humana, degradação do solo e derrubada de florestas, que levou o mundo a sua escassez, sobrando apenas uma opção: não há recursos para todos, portanto os escolhidos são os que viverão no admirável mundo novo. O romance apesar de ser uma ideia do que poderia acontecer, uma possível realidade distante, nos faz refletir sobre o que estamos fazendo com os recursos que nos são ofertados pela natureza, pode ter como intuito nos fazer pensar nas seguintes problemáticas: a emissão de gás de carbono, a poluição de mares e rios, entre outros problemas ambientais como as grandes queimadas na Austrália e na Amazônia. Todos esses problemas têm preocupado grande parte do globo terrestre, que se reuniu na COP26 para tentar chegar a acordos climáticos. É importante frisar que apesar de na série haver um pensamento reacionário em relação a superpopulação, o que conversaria bastante com a Teoria de Malthus, que, inclusive, já foi derrubada, no mundo real o que acontece é que grandes empresas do agronegócio no Brasil deixam rastros de desmatamento e poluição. Nos últimos 40 anos a área de cultivo no país cresceu cerca de 53%, o que do ponto de vista econômico é ótimo, mas quando visto pelo prisma ambiental, é preocupante pela perda da biodiversidade e agressão aos ecossistemas. Os impactos ambientais causados pela superexploração do meio ambiente são quase que irreversíveis na maioria dos casos. Se continuarmos com esse pensamento de lucro e desenvolvimento não sustentável e não olharmos para o que realmente importa, as nossas riquezas naturais, talvez o que sobrará será apenas a terra, e, talvez, Aldous Huxley ao escrever essa distopia, tenha tentado nos alertar sobre um possível colapso do planeta, mas que nas atuais condições, se continuarmos fazendo e propagando o atual discurso e ações, não vamos conseguir nem chegar perto de 2540, o ano em que se passa o "Admirável Mundo Novo”. Fred Zeffirelli, Letras, FFLCH, Creator e Ator em formação #admiravelmundonovo #serie #distopia #impactosambientais #agronegocio REFERÊNCIAS: MACHADO, David. Um estudo do tema de ‘’Brave new world” de Aldous Huxley. IME-USP,1999. Disponível em: < https://www.ime.usp.br/~is/ddt/mac339/projetos/RdI-impactos-sociais/> Acessado em: 15/11/2021 Neves, Andressa. Admirável mundo novo: ideias insanas de antigamente que se tornaram realidade. Canal Tech,2016. Disponível em: < https://canaltech.com.br/entretenimento/admiravel-mundo-novo-previsoes-para-um-mundo-contemporaneo-67205/> Acessado em: 15/11/2021 CORTEZ, Fe. Os principais pontos da COP21, a conferência do Clima em Paris. Menos 1 lixo, 2015. Disponível em: < https://www.menos1lixo.com.br/posts/um-resumao-do-que-rolou-na-primeira-semana-da-cop-21-a-conferencia-do-clima-em-paris> Acessado em: 15/11/2021

  • Infância perdida pela guerra

    #PraCegoVer [FOTO] 4 crianças, de costas, observam uma escavadeira revirando destroços, na cidade de Kobane, Síria. Imagem disponível em: https://www.dw.com/pt-br/unicef-87-milh%C3%B5es-de-crian%C3%A7as-vivem-em-meio-%C3%A0-guerra/a-19137936# A ficção nos proporciona uma visão lúdica dos percalços sofridos por crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. Diversos são os casos de filmes que retratam seus personagens em buscas desenfreadas por um tipo de luz no fim do túnel, onde seus problemas serão solucionados e suas preces atendidas. Exemplos de tais perspectivas são “Desventuras em Série (2005)”, em que três órfãos são entregues à própria sorte enquanto imersos em uma trama familiar que tem como objetivo roubar a herança dos pequenos e terminar com sua existência. Outra produção que retrata a mesma jornada de perseverança e sofrimento de uma família em busca de salvação é a famosa série “Nanny McPhee - A Babá Encantada”, onde através de um passe de mágica, literalmente, todos os problemas das personagens se resolvem. Entretanto, na vida real crianças são postas em face do perigo iminente e irremediável com magia ou determinação. Em 2019 cerca de 300 crianças morriam todos os dias em decorrência de consequências socioeconômicas de conflitos bélicos, como fome, falta de auxílio médico, e diversos outros. DW (2019). Além disso, é importante frisar que, mesmo em situações de adversidades mortais, muitas crianças conseguem passar por essa primeira fase de suas vidas e entram na fase adulta. Ainda que passado por tal período de extrema dificuldade, os sobreviventes terão consequências futuras para suas vidas que serão eternas. De acordo com Cátia Barros Lisboa (apud fao, 2011; sawaya, 2011) “A subnutrição é definida como uma condição na qual ocorre deficiências de macronutrientes e micronutrientes, resultantes de uma alimentação inadequada e infecções recorrentes, cujas consequências determinam efeitos adversos mensuráveis sobre a anatomia de tecidos ou do organismo (morfologia, dimensão, composição) e sobre a função corporal e a evolução clínica”. Tais fatores acarretam em populações com baixa expectativa de vida devido a diversos tipos de problemas de saúde e a situação adversa da guerra em que o país se encontra, fazendo com que a pirâmide etária do país tenha uma grande base e um topo pequeno, representando uma “pirâmide jovem”. Indicando que a quantidade de crianças e jovens é muito maior do que adultos e idosos. #PraCegoVer [IMAGEM] Pirâmide etária jovem do Afeganistão com dados do ano de 2021. População 39 milhões, 835 mil e 428. A imagem é constituída de régua do lado esquerdo representando a faixa etária que vai de 0 a mais de 100 anos e de pirâmide constituída de níveis, onde os níveis mais baixos representam idades menores. A pirâmide representada apresenta base larga que vai se estreitando até o topo, muito estreito. Fonte: . Em consequência de tais fatores os países são acometidos por consequências ao longo prazo, visto que reduzida expectativa de vida, há também redução de níveis econômicos e sociais, tornando mais difícil a ascensão socioeconômica de populações, dado que a economia da região é afetada por questões relativas ao trabalho e concomitantemente à guerra. Aposentadorias e crédito representam grande parte do poder de compra de um país, fazendo com que a economia se mantenha nos níveis ou que cresça, por meio do uso de crédito para investimentos, o que não acontece em locais onde as populações civis são acometidas pela guerra. Dessa forma, é possível notar o quanto o fator guerra influencia na estrutura social de um país ao longo de gerações, fazendo com que a miséria e caos seja retroalimentada pela sua própria criação no decorrer do tempo. De acordo com a UNICEF (2021) “Conflito na Síria, 10 anos depois: 90% das crianças precisam de apoio, já que a violência, a crise econômica e a pandemia de Covid-19 levam as famílias a uma situação limite”. Outra importante causalidade da guerra é o aliciamento de crianças em situação de vulnerabilidade em países em situação de guerra. Essas crianças são “recrutadas” na maioria das vezes à força por grupos paramilitares que, não obstante o uso da força, também efetuam ameaças contra as famílias, caso os recrutados não tomem posição favorável. De acordo com Rita Vaneide da Silva Andrade (apud TABAK, 2009) “Assim como na guerra ficcional, Muidinga foi forçado a participar de um ato nefasto, nos conflitos reais as crianças também são expostas a ações de extrema violência. Um exemplo é o caso das crianças soldado da Colômbia, Peru, Moçambique e República Democrática do Congo, que em depoimentos revelam terem sido obrigados a beber o sangue e a comer o coração das vítimas (SINGER, apud, TABAK, 2009, p. 44). Neste caso, a violação da infância, a partir da participação forçada das crianças em atrocidades, serve para alienar e doutrinar os soldados mirins (TABAK, 2009, p. 43).” Alguns filmes que trabalham a temática: “First They Killed My Father” (2017) O filme representa a guerra civil e a subsequente tomada de poder político no Camboja, na década de 70. Temos Loung Ung (Sareum Srey Moch) como personagem principal, uma garota na casa dos dez anos que assiste aos abusos e violências causados por conflitos armados, onde ela passa por situações de fome, miséria e trabalhos forçados. “Zona Verde” (2010) O filme se passa no Iraque de 2003, em situação de conflito armado entre o governo vigente e grupos paramilitares. É abordado a questão do aliciamento infantil de populações em situação de vulnerabilidade para participação em grupos paramilitares regionais. “Diamante de Sangue” (2006) O tráfico de diamantes na Serra Leoa dos anos 1990 foi um dos fatores que ajudaram a aumentar o caos em que o país já debilitado por uma guerra civil passava. O comércio das pedras representava fonte de lucro para mercenários e contrabandistas, além de servir como financiamento para os grupos paramilitares que tentavam tomar o poder. A situação das crianças no país é retratada de diversas formas. O aliciamento dos menores para grupos paramilitares é feito à força e amplamente. As situações de abusos físicos contra crianças é usada como arma de guerra e a miséria, fome e doença acompanham os refugiados nos abrigos. “O Menino do Pijama Listrado (2008)” Dois garotos em idade similar se encontram através de uma cerca. Aparentemente nada os diferencia, porém no contexto da 2º Guerra Mundial um dos garotos é filho de um oficial nazista responsável por um campo de concentração, enquanto o outro menino é um judeu. O filme proporciona uma visão da diferente importância que é dada para a vida e existência de duas crianças iguais, porém diferentes. #infância #juventude #guerra #economia #cinema Lucas da Silva Bacharelado em Administração FEA - USP Referências Bibliográficas: Guerras matam centenas de crianças todos os dias, afirma ONG. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/guerras-matam-centenas-de-crian%C3%A7as-todos-os-dias-afirma-ong/a-47537882. Acesso em 12/10/2021 LISBOA. B; Cátia. SUBNUTRIÇÃO INFANTIL: Acompanhamento de crianças desnutridas em um Centro de Recuperação Nutricional - CREN. Alagoas. UFAL, 2014. Acesso em 12/10/2021 Conflito na Síria, 10 anos depois: 90% das crianças precisam de apoio, já que a violência, a crise econômica e a pandemia de Covid-19 levam as famílias a uma situação limite. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/conflito-na-siria-10-anos-depois-90-por-cento-das-criancas-precisam-de-apoio. Acesso em 12/10/2021 ANDRADE. S. V. Rita. Infâncias fragmentadas: crianças no contexto de guerra, em Terra Sonâmbula, de Mia Couto. Ceará. UNILAB, 2017. Acesso em 12/10/2021

  • Crianças refugiadas e a pandemia

    #PraCegoVer [fotografia]: No lado esquerdo da imagem há uma menina negra de aproximadamente um ano. Ela usa um capuz rosa com bolinhas brancas e uma camiseta branca com bolinhas amarelas, azuis claras, rosas e laranjas. A bebê está com uma expressão de surpresa olhando a mulher que está no lado direito da foto, segurando ela. A mulher é negra e usa uma máscara branca e uma camiseta laranja com flores desenhadas. Ao fundo, existe uma mulher desfocada observando a cena. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/sites/unicef.org.brazil/files/styles/hero_desktop/public/UNI316644.JPG?itok=RuL5EIiC De acordo com dados coletados pela Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) em 40 países, a taxa de crianças refugiadas com acesso à educação sofreu queda durante a pandemia da Covid-19. Segundo a agência, o número de jovens refugiados matriculados no nível secundário (do 6° ano do fundamental até o 3° ano do ensino médio) não passou de 34%. Essa realidade acaba restringindo o acesso desses jovens à saúde, alimentação, segurança e ao trabalho, todos considerados direitos básicos. Essa é a vida que vive o protagonista Abu (Abraham Atta), em “Beasts of No Nation'' (2015), um longa-metragem produzido pela Netflix que retrata a vida de uma criança africana capturada e forçada a viver como soldado durante uma guerra civil. Sendo privado de sua liberdade e do direito à infância, Abu é transformado em uma máquina de guerra pelo personagem denominado Comandante (Idris Elba). O filme, ao não nomear o país no qual se passa e nem dar muitas informações sobre o contexto da guerra, acaba por focar nas mudanças psicológicas do personagem principal, muito afetado pela realidade violenta, pela falta da família e pelo amadurecimento forçado. #PraCegoVer [fotografia]: No lado esquerdo da imagem há um menino negro de aproximadamente 9 anos olhando para a esquerda com o canto dos olhos e apresenta uma expressão de sofrimento. Ele usa uma espécie de chapéu retalhado nas cores amarela, vermelha, azul e verde, um colar amarelo e verde e em seu ombro existem algumas folhas de árvore num tom verde claro. A parte visível de sua camiseta é bege. Atrás dele, do lado direito da fotografia existe um homem negro desfocado com a expressão séria. O homem segura uma arma em sua mão esquerda. Ele usa uma espécie de chapéu verde e um colete bege. Ao fundo da imagem existem árvores desfocadas. Disponível em: https://f001.backblazeb2.com/file/papocine/2015/10/20151101-beasts-of-no-nation-netflix-600x320.jpg Assim como Abu, as milhares de crianças que vivem no meio de guerras perdem suas infâncias para os conflitos diariamente e, quando conseguem fugir de seus países de origem, não têm seus direitos básicos assegurados. A pandemia evidenciou e agravou esse problema. Se antes os jovens refugiados enfrentavam o descaso dos governos, a crueldade dos conflitos e a barreira criada pelos idiomas, agora também são deixados de lado quando se trata de medidas sanitárias e acesso ao ensino online. As crises econômicas de diversos países, que foram fortemente agravadas pela pandemia, também acabaram refletindo na infância dessas crianças. Usando como exemplo o Brasil, as classes mais baixas da sociedade, a qual pertence boa parte da população refugiada, foi a que mais sofreu com o desemprego, com o aumento da taxa de fome e com a falta de assistência governamental em todos os aspectos. Também foi a que mais teve mortes decorrentes de Covid-19, não tendo acesso a máscaras de qualidade, leitos de hospital, respiradores e, muitas vezes, nem mesmo a um velório. Essa mesma camada da população passou (e ainda passa) pela dificuldade de acesso às aulas online e liderou o aumento da taxa de evasão escolar. Morando em lugares onde falta internet e até mesmo energia elétrica, acompanhar as aulas se tornou mais um desafio na vida de muitas dessas crianças. Em outras ocasiões, a dificuldade também se dava por conta da dinâmica doméstica (ou dos abrigos) que passou a prejudicar o tempo de estudo dos jovens. Diante disso, fica evidente como a realidade das crianças refugiadas foi ainda mais prejudicada com o avanço da pandemia pelo mundo. Se antes o acesso a uma infância segura era difícil, a Covid-19 surgiu como mais uma barreira a ser enfrentada, colocando-as à margem de nossa sociedade. Infelizmente, os impactos desse retrocesso serão refletidos no futuro desses jovens, que, além de serem forçados a amadurecer prematuramente, enfrentarão dificuldades no ingresso ao ensino superior e na inserção no mercado de trabalho formalizado, tendo, mais uma vez, seus direitos negados pela sociedade. #infância, #refugiados, #BeastsOfNoNation, #pandemia, #GuerraCivil Mariana Monteiro Graduanda em Geografia na FFLCH - USP. Referências bibliográficas: MELO, Karina. Pandemia gera queda de matrículas de refugiados. Agência Brasil, 2021. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2021-09/pandemia-gera-queda-de-matriculas-de-refugiados >. Acesso em: 14 de outubro de 2021. Protegendo as crianças mais vulneráveis do impacto do coronavírus: uma agenda de ação. Unicef, 2020. Disponível em: < https://www.unicef.org/brazil/protegendo-criancas-mais-vulneraveis-do-impacto-do-coronavirus-uma-agenda-de-acao >. Acesso em: 14 de outubro de 2021. PRESSE, France. Pandemia pode reduzir acesso de crianças refugiadas à educação , diz Acnur. G1, 2020. Disponível em: < https://g1.globo.com/educacao/noticia/2020/09/03/pandemia-pode-reduzir-acesso-de-criancas-refugiadas-a-educacao-diz-acnur.ghtml >. Acesso em: 14 de outubro de 2021.

  • Cafarnaum: A infância e o meio

    #PraCegoVer [Fotografia]: Um bebê e um garoto de aparência triste, vestem roupas azuis, brancas e listradas muito sujas e estão sentados em um calçada disforme ao lado de um saco de lixo e uma vitrine de madeira improvisada que expõe calçados. Imagem disponível em: http://43.mostra.org/_img/_filmes/95892.jpg De acordo com o dicionário online Priberam (2021), o termo “Cafarnaum” designa tanto uma cidade bíblica da Galileia quanto significa um “lugar de tumulto ou de desordem”. Percebe-se que isso é muito sintomático e significativo quando a diretora libanesa Nadine Labaki nomeia seu filme de 2018 com esse mesmo termo, já que a história tem um garoto, Zain, de cerca de 12 anos como protagonista e não a cidade em si. A premissa do filme narra a vida de Zain (Zain Al Rafeea), que está cumprindo pena em um reformatório por ter esfaqueado o homem que casou com sua irmã Sahar (Cedra Izam) de 11 anos. Zain o esfaqueou quando soube que esse, de alguma forma, havia provocado a morte dela. Porém, o fato mais importante que dá início a história é que o garoto está processando seus pais por terem colocado ele no mundo sem as devidas condições de criá-lo, ou criar seus 8 irmãos. A narrativa se desenrola através das respostas do garoto, dos advogados e dos acusados para um juíz e a partir daí todos os lados da história merecem, no mínimo, a nossa atenção e ponderação quanto a forma como a sociedade funciona e age, como a corrupção do Estado impede a execução das leis e como o lógica de exploração e lucro do capitalismo nos afeta. Durante a obra, vemos Zain passar pela fome, alagamento de sua moradia, situação de rua, falta de acesso à escola, abuso, assédio e trabalho infantil. Ele é “funcionário” do dono do mercado, o marido pedófilo de sua irmã. Zain vende suco e balas com seus irmãos e vende drogas quando não lhe restam mais opções. Vale mencionar a fala de sua mãe, Souad (Kawsar Al Haddad), nessa ocasião: "Que bom meu filho, que nosso suco [uma dose da droga, diluída] é mais caro que 1 kg de carne”. O garoto passa por todas essas situações de forma muito madura e inteligente, mas sem perder a essência da ingenuidade infantil. Isso fica muito marcado logo no início do filme quando nota-se as brincadeiras dele com seus amigos. Todos criados durante a guerra, brincam com armas de papelão muito bem detalhadas, dividem cigarros e falam sobre seus trabalhos. O brincar da criança é sua forma natural de desenvolver o cérebro, de entender e se apropriar do mundo e portanto, espelho dele. Veja a incompetência dos Estados e a ganância da parte mais privilegiada da sociedade para sanar essas questões que são direitos universais dos seres humanos, como comida, educação e moradia. O problema é claro, a desigualdade de distribuição de renda e a crise dos refugiados já é considerada a maior crise humanitária das últimas décadas, mas pouco se faz quanto a isso, pois a camada mais rica da população despreza a mínima existência dos seres incapazes de participarem ativamente do capitalismo. Parafraseando Orwell em seu livro “1984” (publicado em 1949), o constante “estado de guerra” permite aos governantes manter a população controlada por meio do pouco saneamento, emprego, comida, instrução e outras condições básicas de vida, assim, a sociedade entende que está passando por esses problemas por culpa da Guerra e não do Estado. O trecho mais marcante sobre isso ocorre quando Zain (Zain Al Rafeea) é iludido quanto a imigração para a Noruega, o falsificador de vistos e traficantes de crianças, diz ao garoto que só pode fazê-lo viajar se ele puder “provar que existe” e quando ele vai atrás de seus documentos descobre não só que não existem (seus pais nunca o registraram) como também descobre que Sahar (Cedra Izam) havia morrido por conta de uma gravidez e o hospital não a tinha deixado entrar por ela também não possuir documentação. Ou seja, um papel, uma burocracia, vale mais para o Estado e outras instituições do que a própria existência de ambas as crianças. Vale ressaltar que a realidade do filme conversa com a própria trajetória de vida da diretora e seu elenco. De acordo com a BBC (2019), Labaki só convida atores não profissionais para participarem de seus filmes e apenas graças à “Cafarnaum” que Zain Al Rafaeea e seus pais puderam se refugiar na Noruega, como também era o desejo de seu personagem no filme. Dito isso, é muito importante refletir e agir contra as realidades apresentadas na obra, ainda mais frente a atual situação da pandemia sanitária mundial. Se antes dessa, crianças como Zain já sofriam tanto, já se desenvolviam sem condições de vida digna, já eram exploradas, assediadas e vítimas do trabalho infantil e da falta de escolarização, se antes, garotas como a Sahar não tinham nem a oportunidade de serem atendidas por um pronto-socorro, pela simples falta de documentos, imaginem agora se elas têm direito à proteção básica e à imunização contra a covid-19. #cafarnaum, #infância, #refugiados ,#DesigualdadeSocial, #DireitosHumanos Juliana Mendes Santiago Graduanda em Biblioteconomia, na ECA - USP. Referências bibliográficas: CAFARNAUM. Direção de Nadine Labaki. Líbano: Mooz Films, 2018. CAFARNAUM. In: PRIBERAM, Dicionário de Língua Portuguesa Online. Disponível em: . Acesso em: 13 out. 2021 COMO vida de menino sírio mudou após filme que estrela ser indicado ao Oscar. BBC News Brasil. São Paulo. 22 fev. 2019. Disponível em: . Acesso em: 13 out. 2021. ORWELL. George. 1984. Rio de Janeiro: Antofágica, 2021.

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